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Autarcas pedem paz no PSD... até outubro

Autarcas pedem paz no PSD... até outubro

Diana Tinoco Sebastião Bugalho 13/08/2017 11:22

Fernando Costa, candidato do PSD a Leiria, condena os opositores de Passos Coelho por pretenderem prejudicar os candidatos às autárquicas para ferirem a liderança do partido.

 

O mito do autarca descontente é real. Ele existe e não é incomum. No PSD, com a Oposição em baixo no Parlamento e os índices de popularidade igualmente em baixo nas sondagens, os candidatos às eleições a realizar este ano sentem algum receio pelos resultados que chegarão no dia 1 de outubro.

É verdade - e «natural», diz um deles - que a popularidade do Governo socialista a nível nacional cause preocupações aos sociais-democratas a nível local.  

Esse receio, todavia e ao que o SOL apurou, não mitigou apesar de estar contido publicamente e até internamente. Não há ruído para os jornais, nem nas reuniões de Conselho Nacional. Não que a preocupação seja diminuta, mas por duas simples razões: os candidatos não querem apoquentar a sede nacional do partido, que gere os fundos de campanha, nem causar turbulência ao partido que demonstre falta de unidade. 

«Os autarcas são pessoas pragmáticas», descreve um barão dos sociais-democratas. «Não querem confusões coladas ao partido em ano de campanha. Pode magoá-los eleitoralmente e não brincam com isso». 

Mas o pragmatismo não se aplica só às vésperas da ida às urnas. «Também serve para depois. Se houver desastre eleitoral, é pão que deixa de estar na mesa e a reação pode não ser calma», adverte o mesmo escutado pelo SOL. 

Velha raposa 

No núcleo mais experiente dos candidatos ‘laranjas’ para estas autárquicas está Fernando Costa, na corrida à Câmara Municipal de Leiria. Costa, estando mais à esquerda que o centro-direita, não deixou de condenar os críticos de Passos por quererem prejudicar o partido na batalha autárquica para tirarem consequências disso a nível interno. 

«Há muita gente dentro do partido que devia estar calada. Devia estar a ajudar os autarcas e o partido. Estão a tentar que o PSD tenha um mau resultado nas autárquicas para mais facilmente concorrerem contra Passos Coelho. Acho isto uma irresponsabilidade», atirou Fernando Costa, em declarações ao SOL. 

Os mais próximos de Passos não discordam e também atiram ao mesmo alvo. 

Carlos Abreu Amorim, vice-presidente da bancada social-democrata, revela ao SOL que o partido «nunca perdoaria que barões, condes, duques, ou marqueses tentassem prejudicar resultados eleitorais do PSD». 

Para o parlamentar ‘laranja’, a conjuntura é simples: «Hoje, há uma clara separação de águas: o partido focou todas as energias nas eleições autárquicas. Se há barões que preferem lutas de vão de escada ao interesse do partido, não tenho dúvidas que serão penalizados pelos militantes e simpatizantes do PSD». O aviso fica feito. 

Sérgio Azevedo, também vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, considera que, em certa medida, há «um fundo de verdade quando se ouve - quer em comentário, quer em opinião - que uma parte do PSD já só pensa em arredar Passos da liderança do partido, querendo para isso prejudicar ao máximo o partido nas eleições autárquicas».

Acerca das críticas de comentadores, o deputado responde com ironia: «No fundo eles sabem bem o que andam a fazer. E nós também».

O que nós sabemos

Crítico de Passos, conhecedor do PSD e comentador televisivo são atributos que alguns têm em comum, mas que acabam conjugados mais seriamente num homem. O ex-líder Luís Marques Mendes também já havia feito a ponte entre as eleições locais e o futuro do partido no seu comentário semanal na SIC. Para Marques Mendes, o PSD já só tem uma coisa na cabeça: «A disputa pela liderança que vai acontecer a seguir às autárquicas». 

Em abril, numa entrevista ao SOL sobre o processo de preparação para as autárquicas, Carlos Carreiras também havia disparado contra os comentários de Marques Mendes: «Vejo comentários na televisão aos domingos de alguém que foi o maior responsável pela entrega da Câmara ao Partido Socialista, do pior resultado de sempre que o PSD teve em Lisboa».

Sobre a influência de críticos de Passos Coelho na perturbação do processo autárquico em Lisboa, Carreiras, que foi o coordenador nacional autárquico, também ironizou: «Como dizem os nossos amigos brasileiros: meta muito nisso».

Luís Newton, dirigente da concelhia de Lisboa que teve um dos seus núcleos a rebelar-se contra Passos, também saiu em defesa do líder de partido nesse mês, quando o tumulto acentuou: «Não se pode virar para o presidente do partido e dizer-lhe: ‘Olhe, seja candidato’. Se dizemos às pessoas que um presidente de câmara é alguém para cumprir mandato, como é que convidamos alguém que daí a dois anos é candidato a primeiro-ministro? Isso não é ser sério com os lisboetas, não é ser sério com o presidente do partido ou não é querer que ele seja candidato a primeiro-ministro», condenou Newton.

Depois da turbulência em questão na concelhia de Lisboa, o presidente, Mauro Xavier, demitiu-se antes do verão em rotura com a liderança de Passos Coelho. O seu vice e hoje presidente interino, Rodrigo Gonçalves, apoiou Nuno Morais Sarmento contra Pedro Pinto (um passista) na eleição para a distrital no mês passado. Ambos se aproximaram de Rui Rio. 

Longe da tempestade lisboeta, está o candidato do PSD à Câmara Municipal do Porto, Álvaro Almeida. Ao SOL, o independente admite: «Aqui no Porto temos tido o apoio de muita gente de várias fações, muitos putativos candidatos [à liderança do PSD], e não sinto que haja intenções focadas na vida interna do partido».

Na apresentação da candidatura de Álvaro Almeida, Passos e Rui Rio sentaram-se, lado a lado, na primeira fila. No boletim de voto para a Invicta, como candidato a presidente da Assembleia Municipal, estará Pedro Duarte - outro dos «putativos» futuros líderes do partido. «Como não sou militante, as questões da vida interna do partido passam-me ao lado», confessa o candidato ao Porto. 

Em Lisboa, também é um crítico de Passos a encabeçar a lista à Assembleia Municipal de Lisboa - José Eduardo Martins, próximo, coincidentemente, de Pedro Duarte. 

No pasa nada

O último congresso dos sociais-democratas, que reelegeu Passos com mais de 95% dos votos dos militantes, já foi em 2016, mas o discurso da estrutura sobre a relação entre a liderança e os resultados das autárquicas mudou pouco. Os protagonistas do partido mantêm as consequências  distantes do presidente do PSD. 

Teresa Morais, sua vice na comissão política nacional, defendeu que «uma derrota do PSD nas autárquicas não pode nem deve traduzir-se na saída de Passos». O próprio veio depois deixar explicito que  «nunca»  se «demitiria de presidente do PSD por causa de um resultado autárquico».

Luís Montenegro, que saiu recentemente  da liderança da bancada por chegar ao limite máximo de mandatos consecutivos, também prosseguiu no mesmo raciocínio. «Pessoalmente, sou dos que sempre sustentaram - e não mudei de opinião - que as eleições autárquicas não devem desembocar em leituras políticas nacionais e muito menos em julgamentos de lideranças partidárias», avaliou Montenegro, que acredita que «o partido tomou a decisão de ele [Passos] ser o candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas».

José Eduardo Martins, por outro lado, atirou algum ‘fogo amigo’ no início do ano, ao afirmar que caso Passos Coelho falhe em conseguir o objetivo que fixou para as autárquicas - uma maioria de mandatos nas câmaras municipais e nas juntas de freguesia - deveria demitir-se. 

«Eu, no lugar de Pedro Passos Coelho, se tivesse fixado esse objetivo e não o conseguisse, demitia-me», disse o coordenador do programa autárquico lisboeta. 

Na São Caetano à Lapa, apreciou-se a sinceridade. Agora, todos esperam por outubro.

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