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Nastassja Kinski. ‘Quando fui convidada por Wim Wenders disse que tinha de perguntar à minha mãe se podia’

Nastassja Kinski. ‘Quando fui convidada por Wim Wenders disse que tinha de perguntar à minha mãe se podia’

Paulo Portugal em Locarno 12/08/2017 20:29

Entrou no seu primeiro filme aos 12 anos, a convite da mulher de Wim Wenders. Nove anos mais tarde já era uma estrela e participou no clássico Paris, Texas, também do cineasta alemão. Nastassja Kinski foi homenageada no festival de Locarno, onde nos falou dos sonhos que tinha em criança e do preço da fama.

Vi Nastassja Kinski ao vivo pela primeira vez em plena Piazza Grande de Locarno, entre os nove mil espetadores que enchiam por completo aquela que é provavelmente a mais gloriosa sala de cinema do mundo. Estava então longe de imaginar que no dia seguinte iria ter a oportunidade de conversar a sós com a atriz.

Descoberta aos doze anos por Wim Wenders para participar num road movie na Alemanha (Movimento em Falso, 1975), Natassja reencontraria o realizador no clássico Paris, Texas (1984), quando era já uma estrela. A estrela que Wenders tinha imaginado. Voltariam a rodar juntos uma vez mais em Tão Longe, Tão Perto (1993). Pelo meio, a atriz conheceu o seu outro mentor, Roman Polanski, e recebeu o aplauso pelo seu trabalho em Tess (1979), onde seduziu, foi seduzida e nos enfeitiçou também. Nessa altura o mundo também já tinha testemunhado a sua transformação e magnetismo em A Felina (1982) e o seu poder de sedução em Do Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola, do mesmo ano.

Esta personalidade extremamente desejável - os olhos verdes ovalados e a boca voluptuosa criaram um modelo de beleza feminina - foi também uma das razões pelas quais acabou por vestir a pele de várias personagens russas no grande ecrã. O facto de ser fluente em alemão, inglês, francês, italiano e, claro, russo, também ajudou...

Nastassja Kinski foi convidada especial do Festival de Locarno, que termina hoje na bela cidade do cantão italiano de Ticino, na Suíça, rodeada pelos Alpes e à beira do Lago Maggiore. Ironicamente, o festival que entrega o Leopardo de Ouro para o melhor filme da competição internacional atribuiu um prémio especial à atriz que se transforma em pantera no icónico A Felina, uma visão pessoal de Paul Schrader sobre o clássico de horror de Jacques Tourneur de 1942.

Sejamos honestos: a possibilidade de entrevistar Nastassja Kinski estava um pouco fora dos meus planos. Não só por o seu programa ser bastante reservado, mas também por serem raros os jornalistas acreditados que não desejavam entrevistar a diva. Mas por vezes a nossa estrela da sorte chega da forma mais inesperada. 

Tem trabalhado num projeto intitulado Impossible is Nothing. Quando decidiu estudar a vida disciplinada e determinada dos atletas de alta competição?

Há algum tempo. Eles têm uma vida muito dura. Têm de estar preparados para se reerguer sempre que algo corre mal e, acima de tudo, de manter o foco.

Para poderem dar o máximo de si próprios?

Exato. Têm de fazer uma escolha clara na vida. As pessoas acham que este projeto é apenas sobre desporto. E não é, tem uma componente humana muito mais abrangente.

A fórmula ‘impossible is nothing’ poderia ser aplicada à sua própria vida?

Sim, diria que à de toda a gente. Devemos ser campeões de nós próprios. É como eu vejo isso. Podemos ser quem quisermos. Mas, ao mesmo tempo, este projeto também tem a ver com o movimento, sobretudo com o movimento que nos faz sentir mais saudáveis, mais fortes.

Poderemos dizer que a Nastassja foi também uma atleta, já que começou a sua carreira muito cedo.

Alegra-me que diga que fui uma jovem atleta, porque de certa forma é verdade.

Mas quem era a Nastassja Kinski antes de começar a fazer filmes?

Era uma sonhadora! Sonhava muito em criança, e isso ajudou-me. Por outro lado, fui sempre uma pessoa musical. Gostava muito de dança, da água, da natação. Sentia-me bem dentro desses elementos.

A representação também se integra nisso que está a dizer? Terá a mesma dinâmica?

De certa forma sim. Existe desde logo a componente de ação. E, tal como os atletas, também temos de nos preparar. 

Em que ponto está esse projeto?

Preciso de produtores, um pouco por todo o mundo. Talvez já tenha um alemão.

E já entrou em contacto com o Cristiano Ronaldo?

Não, ele é inacessível. Ah, o impossível não existe, não é? Por isso, quem sabe… Mas alguém como o Cristiano Ronaldo é realmente de outro planeta.

Há muitas semelhanças entre os atletas e as estrelas de cinema?

Acho que a popularidade é encarada de forma diversa. Desde logo, os atletas têm o apoio incondicional das pessoas do seu país, o que não acontece com os atores. Claro que os atores por vezes também não são pessoas fáceis...

Aqui em Locarno tivemos o encontro entre os dois Cat People: a versão original, de Jacques Tourneur, que teve uma homenagem à sua filmografia, e a versão de Paul Schrader, A Felina, de 1982, num dos seus papéis mais famosos. O que representa para si esse filme?

Representa um dos momentos mais incríveis da minha vida. Por isso, sinto-me abençoada e muito grata pela homenagem que lhe foi feita no festival.

Isso foi nos alucinantes anos 80. Como viveu essa loucura?

Felizmente estava rodeada de pessoas muito interessantes. Ao mesmo tempo, essa loucura fazia parte do meu dia-a-dia. Mas mantive esse treino, como uma atleta. E havia sempre uma atmosfera artística. Estava rodeada de pessoas que admirava muito, que idolatrava. Sentia-me um pouco como a Alice no País das Maravilhas. Estava constantemente fascinada com tudo e todas as pessoas.

Aos 20 anos de idade já tinha trabalhado com alguns dos mais respeitados realizadores desse tempo: Wenders, Schrader, Coppola… 

Sim, é verdade. Todos eles foram como meus professores. Os fotógrafos também foram muito importantes. E também vi muitos filmes nessa altura. Via filmes sem parar. Eram o meu desporto e a minha fantasia.

Aqui em Locarno também passou o filme Lucky, com o seu amigo Harry Dean Stanton, com quem trabalhou em Paris, Texas [onde Dean Stanton fez o papel de Travis]. Imagino que seja uma memória bastante grata para si.

Sem dúvida. Fiz três filmes com o Harry Dean. Ele é fantástico como homem e como ator. Paris, Texas tem um lugar muito especial na minha vida. Devo tudo ao Wim [Wenders]... O Wim é a minha vida.

Diria que ele foi uma espécie de mentor para si?

Correto. Foi também a pessoa que me deu o meu primeiro filme, um bom projeto. Por isso, quando trabalhámos de novo, já o considerava como família.

Lembra-se do momento em que ele a convidou para trabalhar consigo em Movimento em Falso?

Sim. Eu tinha 12 anos, na altura. Na verdade quem me fez o convite não foi ele, foi a sua mulher, Lisa Kreuzer, uma boa atriz. Ela viu-me e começou a falar sobre esse filme. Foi muito gentil e simpática comigo. Quando me perguntou se eu queria participar, apenas lhe disse que tinha de perguntar à minha mãe. Felizmente, o Wim concordou que eu entrasse, porque se tivesse dito que não provavelmente não estaria aqui hoje a falar consigo.

Como reage quando toda a gente lhe faz sempre as mesmas perguntas sobre os filmes do seu passado?

Compreendo perfeitamente que as pessoas tenham curiosidade. Acho apenas que tive muita sorte em poder fazer isso. Estar rodeada destas pessoas magníficas, ver o mundo. Por exemplo, lembro-me de conhecer o Orson Welles…

A sério? Onde foi?

Foi na Suécia, quando dei um prémio de carreira ao Ingmar Bergman. Lembro-me de ir ter com ele ao backstage e lá estava o Welles. Eu tinha visto o Citizen Kane na cinemateca de Paris e fiquei fascinada só por estar perto dele. Talvez por isso compreenda que as pessoas gostem de estar perto das celebridades.

O protagonista desse filme, um magnata, conseguiu resumir toda a sua numa palavra: ‘Rosebud’. A Nastassja também tem uma palavra que possa resumir a sua vida, algo que seja a sua inspiração?

Temos de querer ter algo que nos inspire, porque é fácil desviarmo-nos do caminho. Acho que temos de nos apaixonar por essa força dentro de nós.

Têm de ter muita auto-estima?

Lembra-se daquele momento do Cristiano Ronaldo em que um jornalista o estava a seguir com alguma falta de respeito quando ia para o treino, e ele tirou-lhe o microfone e atirou-o para a água? 

Claro, foi um momento hilariante …

Houve uma razão qualquer para ele fazer aquilo. Deve existir um limite.

Alguma vez atingiu o seu limite?

Sei que também não é fácil ser jornalista, mas se forem longe demais haverá consequências.

 

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