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Para inglês comer. O restaurante banal da Baixa que é mais caro do que o Gambrinus

Para inglês comer. O restaurante banal da Baixa que é mais caro do que o Gambrinus

Mafalda Azevedo Ana B. Carvalho 02/08/2017 08:50

Não há lista de preços à porta, os clientes queixam-se de nunca terem visto o menu e de no final pagarem contas exorbitantes. Em plena Baixa lisboeta há um restaurante que está a dar que falar entre turistas e portugueses. O i foi lá almoçar ontem

“Andam a dizer umas coisas muito bonitas na internet sobre vocês, andam! Deviam era ter vergonha de andar a roubar os turistas!”, gritou do meio da rua uma mulher na casa dos 50 anos e pronúncia típica alfacinha. Na esplanada, os empregados do restaurante “Made in Correeiros” permaneceram como se não tivessem ouvido.

O restaurante da baixa lisboeta, antes conhecido como “Portugal no Prato”, tem estado nos últimos dias nas bocas do mundo por cobrar preços astronómicos por pratos simples. E é literalmente nas bocas do mundo, porque os turistas são as principais vítimas. No Facebook, as faturas tornaram-se virais: Cada dourada a 140 euros, uma mista de marisco (para duas pessoas) 250 euros, um bacalhau com natas 120 euros e até um jarro de vinho de litro a 20 euros.

Além disso, o restaurante é acusado pelos clientes de não ter um serviço ou comida que correspondam aos preços demasiado praticados, mas há também denúncias de que os pratos são sugeridos pelos empregados de mesa, que não terão o hábito de informar os preços previamente. As descrições são bastante esclarecedoras daquele que será um esquema de especulação de preços e ocultação do menu à chegada dos clientes e já terão chegado ao conhecimento das autoridades.

E nem mesmo às críticas nas plataformas da internet como o Zoomato ou o TripAdvisor o “Made in Correeiros” escapa. Os mais insatisfeitos, porém, não se terão ficado por aí. A jurista do Gabinete de Apoio ao Consumidor da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO), Ana Ferreira, confirmou ao i que durante 2016 foram várias as queixas apresentadas pelos consumidores em relação a este restaurante. A recente mudança de nome terá aliás surgido para limpar a imagem já muito desgastada, mas as práticas mantiveram-se e a fama voltou.

No ano passado, a DECO chegou mesmo a juntar um conjunto de queixas dos consumidores e tentou reunir-se com a gestão do restaurante. O encontro, no entanto, nunca aconteceu por falta de resposta. Logo depois, em maio de 2016, a DECO decidiu fazer uma queixa à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que na altura confirmou ter recebido a informação. Aliás, a ASAE informou ontem que recebeu no último ano uma dezena de queixas e que já instaurou um processo crime por fraude sobre mercadorias e um processo de contraordenação por incumprimentos – ambos em averiguação.

O i sabe que é frequente serem apresentadas queixas por especulação no setor restauração à PSP, não tendo conseguido confirmação se houve alguma sobre este restaurante.

Worst Restaurant in Lisbon

Basta uma rápida consulta aos comentários do portal TripAdvisor para encontrar um comentário a referir que o “‘Made in Correeiros’ é o pior restaurante de Lisboa”. Um cliente dos clientes escreve mesmo que depois de se ter sentado “ali por acaso” se deparou com uma confeção com um nível medíocre. Aconselha por tudo isso quem estiver a ler a “manter-se longe” do restaurante – que lhes terá cobrado por entradas que não foram pedidas nem consumidas.

Mas nem só em inglês se fazem críticas. Em português um consumidor inconformado escreveu em julho que o estabelecimento é “um verdadeiro atentado ao turismo, aos portugueses... e à comida portuguesa”. Lembra ainda que as práticas não são comuns em Portugal nem dos portugueses, referindo que o “Made in Correeiros nem sequer é representativo da gastronomia nacional. “Há variadíssimos sítios em Portugal em que ficarás melhor servido e só por 10/15eur, em vez dos 100/150eur que este embuste te pode cobrar”, afirma.

“Bom dia meninas, querem almoçar?”

O restaurante – que fica em plena Baixa lisboeta – utiliza um processo de captação de clientes idêntico ao de tantos outros restaurantes da capital. Ainda ontem, perto das 13h, um homem sorridente, de chapéu de palha e roupa fresca, abordava as pessoas que passavam: “Bom dia, meninas, querem almoçar? Come-se muito bem!”

O convite foi aceite pela equipa do i, que constatou logo haver já alguns cuidados depois das notícias que desde a manhã de ontem foram saindo. “São jornalistas?”, questionou ainda na rua o empregado ao ver duas portuguesas com pouco ar de turistas e com máquina fotográfica: “Olhe que não vou falar”.

Os cuidados eram muitos mas à entrada havia logo uma falha: não existe qualquer lista de preços visível, como é obrigatório por lei (a inexistência de tal lista implica uma coima). Não se ficava a saber os preços, mas as fotografias dos pratos estavam lá e prendiam o apetite de qualquer um.

Menu escondido

Ao i a jurista da DECO explica que em diversas queixas era relatado que “não era mostrado o menu aos clientes”. “Não sabemos se lhes era negado ou se simplesmente estes não pediam e deixavam-se ir pelas descrições dos pedidos mais baratos”, esclarece Ana Ferreira, adiantando que no fim, quando recebiam a conta “eram confrontados com valores muito diferentes dos indicados”.

Ontem tudo era diferente e nem os preços das faturas que correm o Facebook se viam no Menu que nos trouxeram à mesa. Quando pedimos a lista para consultar os preços, percebemos que apesar de se tratar de um restaurante caro para o bolso de um qualquer português, não havia pratos a 250 euros. Como entradas há queijo Monte Frio a 7,50 euros e o prato de presunto a 12 euros – o cesto de pão está listado a 2,50 euros. As sopas variam entre os 2,50 euros e os 3,50 euros, as entradas mais baratas são a 9.50 euros, como a salada de polvo e o chouriço alentejano na brasa, segue-se as gambas à guilho a 16.50 e a amêijoa à bulhão pato por 16.50 euros – prato que também aparece nas especialidades, mas com outro preço: 14.50 euros.

As massas estão todas registadas como pratos de 15 euros, mas quando se chega ao marisco, que já é habitual ser mais caro, veem-se pratos como a lagosta nacional a 95 euros/kg, o camarão tigre de Moçambique a 75 euros e o misto e marisco à Santiago por 140.

Não havia clientes no restaurante, nem lá dentro nem na esplanada. “Ainda é cedo, eles vêm mais tarde” diz um dos empregados mais velhos a um mais novo, com uma pronúncia de estrangeiro. De onde? O homem não quis responder: “Hoje ninguém fala, estamos fartos de jornalistas”.

Os funcionários não falam e o que se consegue ouvir é o que fazem questão de dizer alto quando passam pelas mesas, no entra e sai.

Escolhemos: uma salada mista e uma omelete de queijo com cogumelos extra. A omelete de queijo está marcada a 7,50 euros, a mista a 9,80 euros – preço que acabaríamos por pagar, talvez pelos cogumelos. A água de meio litro ficou por 2,50 euros.

Ao todo, durante uma hora, o restaurante só serviu 6 pessoas e o cuidado acrescido dos funcionários manteve-se durante todo esse tempo. “Good morning. You only pay if you eat” [Bom dia. Só paga se comer], chegou a comentar um dos empregados de mesa quando pousava o pão na mesa de uma família de estrangeiros.

Mais tarde, chegaram outras duas mulheres. Olharam atentamente para a lista e recusaram o couvert.

Dentro do restaurante, vazio, os quatro funcionários (o responsável não estava, disseram) passaram a maior parte do tempo a olhar para a televisão – ironicamente esbarraram com uma peça do telejornal sobre as denúncias ao “Made in Correeiros”.

“Não se percebe, eles é que pedem coisas caras e vinhos velhos, depois surpreendem-se”, atirou um dos homens em voz alta.

Nos estabelecimentos ao lado o tema parece tabu: apenas uma mulher que trabalha numa loja vizinha nos confirmou que o restaurante mudou de nome recentemente. Também ela disse ouvir, de vez em quando, desabafos menos felizes dos que por lá almoçaram.

O nosso terminou com um bolo de bolacha (que pouco tinha de bolacha) que custou 3.50 euros e um café de 1.30 euros. Contas feitas, a refeição ficou por 21 euros – 10,50 euros por pessoa. Ou seja, metade do preço do jarro de vinho das faturas que correm na ‘net’.

 

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