19/11/17
 
 
Francisco Simões Rodrigues 21/07/2017
Francisco Simões Rodrigues
Cronista

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Substituição no defeso: sai Cristiano Ronaldo, entra Frederico Morais

Hoje é o dia seguinte. Terminou ontem a 6.a etapa do circuito mundial de surf, que se realizou em Jeffreys Bay, na África do Sul. Frederico Morais, 25 anos, Cascais, foi brilhante. 

Andemos um verão para trás, mais propriamente para os acontecimentos do Euro 2016 de Futebol. Portugal teve uma campanha pautada por timidez na fase de grupos, dando lugar a capacidade de lutar, criatividade e determinação rumo à vitória final. A telenovela desportiva tinha, na altura, uma personagem principal: Cristiano Ronaldo, o maior desportista português dos tempos recentes. 

Julho 2017. Cristiano está de férias e não participa na história contada do dia-a-dia. Toda a gente está farta da especulação do afamado mercado de transferências e outras notícias não preenchem a agenda desportiva. Até que o jovem surfista português entra em ação. 

Curiosamente, disse a alguns amigos em privado que a entrada de Morais em prova tinha muitas semelhanças com o Euro 2016. Foi passando as suas baterias com mestria, mas a expetativa que lhe confiava deixava aquela certeza de que estava um furo abaixo das suas reais capacidades. Chegamos à 4.a ronda e Frederico defronta o campeão mundial em título, o havaiano John John Florence, e o campeão desta prova em 2016 (ele também ex-campeão mundial), o australiano Mick Fanning. Ajustou o que teve de ajustar. Comportou-se exatamente como ele próprio trabalhou para surfar uma das melhores ondas do mundo, a qual não permite menos que performances desportivas excecionais. Resultado final: 19.07 num total de 20 pontos e os dois campeões relegados para o round de repescagem. 

Um dia mais tarde, entramos naquele que foi considerado o “wildest day” dos tempos recentes do surf profissional. Um tubarão branco empurra quatro surfistas para dentro do barco de apoio. Três campeões do mundo (Florence, Fanning e o brasileiro Gabriel Medina) e Frederico. É uma imagem que vai perdurar no tempo não pela via do encontro improvável, mas antes porque cenas dos próximos capítulos iriam ser escritas logo de seguida, antevendo um futuro sólido para o português. 

Começava então a bateria dos quartos-de-final onde Morais voltava a defrontar Florence. Em regime de “mata mata”, o prodígio havaiano apresentou-se ao mais alto nível, deixando o português à procura da pontuação quase perfeita no último terço da bateria – um teste perfeito à tenacidade de Morais. À semelhança do primeiro penálti de Cristiano que desfez o empate frente à Polónia, Frederico foi brilhante e termina com a onda perfeita (10 pontos) rumo às meias-finais, com uma pontuação de 19.77 em 20 pontos. A onda da decisão foi feita nos segundos finais, nivelando com normalidade o sofrimento que todos nós estamos habituados a vivenciar. Foi a segunda vez que um português atingiu a perfeição no topo do surf mundial, depois de Tiago Pires em 2008, no Taiti. Alguns ficaram de lágrimas nos olhos, outros gritaram de felicidade e muitos bateram palmas. A personagem principal deste dia passou a ser Frederico Morais, com abertura de jornais de TV e rádio, capas na imprensa escrita, ilimitadas conversas de WhatsApp e inúmeras reações nas redes sociais. É o arrastar de multidões e o conquistar dos portugueses!

Em Portugal, temos por norma começar a celebrar cedo, com ovações de vitória quando a competição ainda vai a meio. É o nosso espírito latino caracteristicamente quente nas emoções. Mas Frederico nem quer saber. Ainda em fase de digestão do momento, indica que se “foi histórico, ainda melhor”, mas que “agora é focar e querer sempre mais”. 
É a sabedoria popular que diz que não há duas sem três. Depois de o capítulo i ditar o “melhor heat da minha vida” nas palavras de Frederico, o seguinte foi de superação com o “melhor depois do melhor”, chegando o terceiro, ou o dia das finais, se preferirem. Pela frente, outra vez um ex-campeão do mundo, o brasileiro Gabriel Medina, mas o resultado foi pronunciado pelos comentadores internacionais, apelidando Morais de “man o war” (caravela portuguesa) em jeito de ilustração do espírito letal e autoritário com que conquista o seu lugar na final. 

Perceba-se a importância do que acabara de acontecer. Frederico está no seu primeiro ano na elite do surf mundial e já contava com um 5.o lugar em Bells Beach, uma das ondas mais icónicas do mundo. Na que foi considerada a melhor etapa do ano até ao momento, e certamente uma das melhores de sempre, dado o impressionante nível de surf que se viu nas ondas de Jeffreys Bay, Morais inscreve-se definitivamente nos livros dos melhores dos melhores, terminando num excelente 2.o lugar frente ao brasileiro Filipe Toledo e arrecadando 8000 pontos para consolidar a sua nova 12.a colocação no ranking mundial. Acima de tudo, posiciona-se para o ataque ao restrito grupo do top-10 mundial, segura garantidamente a sua qualificação para 2018 e fica debaixo de olho para a prestigiante distinção de “rookie of the year” (melhor estreante do circuito mundial). Quando Toledo se dirigiu a ele em palavras durante a entrega de prémios, Frederico, sempre nobre e com a bandeira portuguesa enrolada nas pernas, olhou-o firme e de frente, num misto de raça vencedora e humildade perante o momento de reconhecimento da sua grandeza no clube dos enormes do surf mundial. 

Foi a melhor prestação de sempre de um português no World Championship Tour. Dos expatriados espalhados pelo mundo aos portugueses em solo nacional, todos em uníssono aclamam como forma de retribuição de tamanha honra para o país das cinco quinas: Obrigado, Kikas. És um herói nacional!

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