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Sílvia Nunes. “Para os millennials, o importante é fazer acontecer”

Sílvia Nunes. “Para os millennials, o importante é fazer acontecer”

Mafalda Azevedo Ana B. Carvalho 20/07/2017 13:38

A Geração i foi descobrir o que pensa sobre a geração dos millennials e o emprego uma das maiores recrutadoras em Portugal

No mundo das recrutadoras de trabalhadores existe há 40 anos a empresa Michael Page. A sede portuguesa está em Lisboa, mas a empresa faz parte de uma organização com mais de 150 escritórios espalhados por todo o mundo. Sílvia Nunes é a Diretora da Michael Page Portugal em Lisboa e conversou com o i sobre os millennials e a dinâmica entre empresas e trabalhadores desta geração.

De que forma é que se recrutam millennials? Há diferenças de recrutamento entre gerações?

A diferença é clara e está à vista de quem recruta e de quem não o faz. Todos temos amigos mais novos e mais velhos e a diferença entre mim e essa geração, que não sou muito mais velha, do ponto de vista comportamental, de objetivos e formas de estar na vida é completamente diferente. Eu fui educada de uma maneira em que, ainda antes de Bolonha, se fazia um curso todo direitinho naqueles cinco anos e depois entrávamos nas típicas empresas e trabalhávamos as horas que fossem necessárias porque víamos o trabalho nessas organizações como um privilégio. Isso hoje não existe. A diferença é notória até no número de pessoas desta nova geração que tira um ano para viajar, que tira um ano para fazer voluntariado, isso era inconcebível para os nossos pais e para nós. O conceito de um emprego certo, seguro, estável para a vida é um conceito muito mais dissipado, as pessoas são mais movidas por aquilo que francamente os entusiasma, por um projeto que lhes façam brilhar os olhos. E sempre com a perspetiva de que dura enquanto durar.

Isso afeta os contratos?

Claro, até na parte contratual isto tudo se faz notar. No nosso tempo começávamos a trabalhar, fazíamos um contrato de seis meses e depois ficávamos efetivos. Hoje ser efetivo nem faz parte do vocabulário. Interessa muito menos o tempo, o tipo de contrato, os conceitos caíram por terra porque a forma de estar na vida é diferente. Foge-se de todo o tipo de coisas que se assemelhem a um género de prisão, seja de que natureza for. A tendência é poder ter sempre uma opção de escolha. Já ninguém pensa em comprar casa, por exemplo. 

As empresas tiveram então de se adaptar?

Completamente. Tiveram de se adaptar em todos os aspetos. Esta geração é mais difícil de segurar, temo-los muito bons e queremos segura-los nas empresas e como tudo lhes sabe a pouco rapidamente, querem sempre mais e mais depressa – o que nem sempre é mau, a empresa é que tem de os saber manter –, aquele conceito do “trabalhamos as horas que forem precisas porque sim” é completamente inexistente, a maioria das multinacionais tiveram de adquirir estruturas baseadas em “work life balance”, associados ao viver bem, de forma saudável, que estão na ordem no dia. E é disto que estas pessoas estão hoje à procura: o que lhes dá mais privilégios? Quais são os benefícios de trabalhar naquele sítio? Até o mundo da consultoria mudou radicalmente. As empresas têm de competir para encontrar os melhores, e já não é só com as empresas de cá, porque agora eles pensam sempre nas oportunidades que estão lá fora, daí ser preciso que se adaptem.

O papel das recrutadoras também mudou? Antes preocupavam-se só com o candidato e agora sentem que têm de saber fazer com que a proposta da empresa seja atrativa?

A proposta hoje vai muito além do cariz financeiro. O candidato quer saber sempre o que é que está além do pagamento. O interesse está associado à cultura organizacional, à forma de estar da organização, o nível hierarquizado que a organização tem, aos benefícios associados que compõe o pack salarial. Perguntam-nos várias vezes se a empresa oferece ginásio, lavandaria, seguro de saúde, estacionamento, benefícios que podem ser muito atrativos e são um complemento já do valor base de remuneração, aliás traduzidos já correspondem a muito dinheiro. Naturalmente sabemos que estão todas relacionadas com o bem-estar, políticas de bem-estar que fazem toda a diferença. As empresas hoje têm de ter um perfil social ativo, têm de promover atividades que mostrem que se importam com o bem-estar das pessoas para que os trabalhadores lá queiram ficar. 

Como é que os executivos mais velhos têm sentido esta adaptação?

Muito honestamente penso que estão a adaptar-se de uma forma contínua. Ninguém consegue mudar a natureza de algo com 20 ou 30 anos de um dia para o outro, mas hoje em dia as pessoas vão se habituando da pior maneira. Os millennials põe outras perspetivas nas situações e se queremos esse talento dentro de casa, vamos ter de, e algumas vezes até é contranatura ainda, mas tomar certas decisões que vão de encontro à forma de estar desta geração. 

Tem alguns exemplos?

A flexibilidade de horários, por exemplo. O que é que acontecia se antigamente alguém chegava francamente tarde há uns tempos? Toda gente olhava para ela, a pessoa tentava entrar da forma mais discreta possível no escritório e hoje não é assim. Hoje as pessoas entram às horas que querem (se os contratos e funções assim o permitirem), ninguém diz nada, ninguém dos colegas sabe ou quer saber a que horas cada um deles entrou, enfim.

Mas de alguma forma deixou também de haver esse controlo por parte dos colegas?

Sinceramente acho que se adotou o conceito de autonomia com responsabilidade. É possível reunir a flexibilidade, a autonomia e o bem-estar, desde que tudo isso venha com responsabilidade. Mas isto é uma corrente que nasceu das pessoas desta geração que entraram dentro das organizações, subiram dentro delas e, de uma forma mais ou menos explícita, começaram a incutir um dia-a-dia de trabalho completamente diferente. 

As startups são um desafio para o mundo das recrutadoras?

As startups são o sonho desta geração. Ao contrário das gerações anteriores, nesta é-lhes incutido o sentimento do empreendedorismo. É francamente notória essa vontade de ser empreendedor e de fazer acontecer. Nas gerações anteriores raros eram os que queriam ser empreendedores, mas nesta geração, onde quer que se encontre a oportunidade de fazer acontecer, faz toda a diferença. Os millennials não querem entrar numa empresa para serem só “mais um”. Fazer o que mais 50 pessoas fazem até pode parecer engraçado, mas não sei se não é daí que vem o brilho nos olhos, quando têm a oportunidade de marcar a diferença, de fazer acontecer, nem pensam duas vezes. 

A educação dos millennials e a forma como cresceram a achar que são especiais influencia a forma de estarem no trabalho e de quererem marcar a diferença?

É a possibilidade de marcar a diferença, mas essencialmente porque cresceram com a oportunidade de liberdade de escolha. Os pais dos millennials foram uma geração já muito mais aberta à liberdade de escolha. Um filho querer ir para Artes, hoje em dia, é incomparável ao que seria há uns anos. “Não vai dar para sobreviver”, “onde é que vais parar” seriam  o tipo de coisas que ouviríamos hoje. Sim, fazer a diferença, ir para a frente, para fora, trabalhar, estudar, acho que sim, vais, porque vais adquirir competências e vais viver e quando chegares ‘uau’, mas, sim, os pais estão a dar esta liberdade de escolha, que antigamente não havia. A mentalidade não ia nesse sentido. 

Explicou-nos o que é que os millennials procuram, mas o que é que procuram as empresas nos millennials?

Procuram vontade, energia, procuram quem saiba estar, quem tem capacidade de fazer acontecer. Procuram responsabilidade e gente focada no mercado, no negócio, gente que pense ‘como é que eu na minha função posso apostar no negócio da minha organização?’.  Procura-se que as pessoas sintam uma ligação com a organização como se fosse um bocadinho delas próprias. Procuram honestidade e uma relação ‘win/win’. Em que se diga sempre quais são os objetivos, em que de ambos os lados se saiba com o que se pode contar. Se estão ali por ‘x’ tempo ou ‘y’, se é para ficar ou é só de passagem. É muito importante comunicar.

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