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Pinóquio. A fábula pessimista que ganhou vida e um final feliz

Pinóquio. A fábula pessimista que ganhou vida e um final feliz

Diogo Vaz Pinto 19/07/2017 13:06

Ao contrário do que a Disney fez dele, Pinóquio não é apenas o menino de madeira capaz de uma travessura ou outra. Antes de se tornar um rapaz de verdade, morreu e renasceu, ganhou vida contra a autoridade do seu criador, e tornou-se o protagonista de um dos mais dolorosos contos de fadas, num braço-de-ferro entre miúdos e graúdos, ilusões e realidade.

 


Se o enfado do seu criador tivesse vingado, Pinóquio teria acabado de mãos atadas atrás das costas, uma corda à volta do pescoço, pendurado do ramo de um carvalho depois de ser vigarizado pela Raposa e pelo Gato. Muito longe do final feliz que todos conhecemos para a história do menino talhado a partir de um pedaço de madeira.
Durante quatro meses, a marioneta ficou ali, inanimada, sacudida violentamente por um vento frio. Mas os pequenos leitores que, entretanto, se haviam compadecido do destino do impulsivo e desmiolado menino, ficaram inconsoláveis e Carlo Collodi acabou por ser dissuadido. Pinóquio viu-se assim salvo, não tanto pela intercessão da Fada Azul, mas pelo sentido de justiça dos leitores que conquistara o primeiro semanário dirigido a crianças em Itália, “Giornale dei bambini”.

À semelhança do velho Geppetto, um pobre carpinteiro que ainda guardava umas últimas aspirações artísticas, Collodi viu o seu insatisfeito talento literário engendrar uma personagem que ganhou vida própria. A ideia do carpinteiro era conseguir dos seus últimos anos aquela módica dose de aventura, e foi isso que o encheu da ilusão de que poderia dar a volta à realidade, criando um companheiro de viagem, uma marioneta com vida suficiente para realizar uns truques de feira, dançar e pular, animando as hostes. Haveria de ser o bastante para que se fizessem à estrada como saltimbancos, ganhando o que lhes desse para umas côdeas e o ocasional copo de vinho.

Acontece que, mal se viu tomado de um sopro de vida, a marioneta se lança zombeteira, tendo como alvo a peruca amarelada de Geppetto, puxando-lha para revelar a calvície do seu criador. É um aviso sobre a capacidade que tem uma ilusão para desmascarar as demais e tornar as leis que regem a realidade ainda mais evidentes. Mal aprende a pôr-se de pé e andar, Pinóquio pisga-se, e quando o carpinteiro lhe põe a mão em cima e, de castigo, lhe dá um abanão forte, acaba preso por ofensa à integridade física da marioneta. E assim, profeticamente, o artista perdeu o controlo da sua criação.

Resgatado do final trágico a que Collodi o predestinara, o Pinóquio original está muito longe da tão encantadora mesmo se imprudente personagem que a Disney popularizou. Na sua cruel fábula, Collodi contrariava firmemente a noção que Rousseau dava das crianças, como seres intocados pelo mal, e que era a sociedade a culpada da sua degeneração. Para o escritor italiano, um jornalista de marcadas convicções políticas, que nunca chegou a casar, embora fosse um pinga-amor, gostando ainda da pinga e do jogo, alguém que nunca teve filhos, e viveu a maior parte da sua vida com a mãe, as crianças eram simplesmente animais intratáveis. Não fosse pela acção educativa que a sociedade lhes dispensava, as crianças cresceriam deixando à sua passagem um rasto de caos. O criador de Pinóquio parecia mais do que convencido de que, deixadas aos seus apetites e desígnios, a maioria das crianças nunca desenvolveria algo como um compasso moral. 

Basta ler “As Aventuras de Pinóquio” para perceber o quanto Collodi fazia questão de preservar-se do contacto com crianças. Tinha uma especial aversão em relação a rapazes, que retrata como pequenos roedores. Em bando, criaturas que se confundem com o que há de mais sórdido no retrato que fez daquele país pobre e onde se passava fome, aquela Itália que, no final do século XIX, não tinha ainda uma estratégia clara que garantisse a união de um território tão dividido culturalmente e com tão graves assimetrias.

É natural, por isso, que, ao ser desafiado a escrever um folhetim dirigido a crianças, aos 55 anos, este satirista, que tinha fundado e visto afundar alguns jornais, este dramaturgo e romancista falhado, desiludido e pessimista, embora ainda combativo, tenha carregado toda a sorte de perigos, avisos, e desenhado as peripécias da sua história ao serviço de uma moral cerrada. Para isto, serviu-se de todas as suas reservas em relação às crianças, ao seu génio grotesco e destemperado, com a sua marioneta a dar um nó nos fios, e a revelar-se um cretino o dobro das vezes que exibe sinais de arrependimento ou dá mostras de compaixão. Num dos contrastes mais vincados com a versão adocicada que a Disney levou aos cinemas de todo o mundo em 1940, no livro, quando o Grilo Falante dá uma descasca a Pinóquio por rebelar-se contra o seu pai, a marioneta pega num martelo de madeira da oficina e atira-lho esmagando a cabeça do consciencioso insecto.

Depois de se ter familiarizado com a literatura infantil, tendo-lhe sido confiado por um editor a tradução das fábulas de Perrault (o criador do Capuchinho Vermelho) a partir do francês, Collodi, que tinha anos antes sido convidado pelo Ministério da Educação para dar o seu contributo para um dicionário nacional,  viria mais tarde a escrever manuais escolares em disciplinas tão díspares como matemática, gramática e geografia. Entre uma coisa e outra, surgem os tortuosos contos de fadas.

Como sabemos, 136 anos depois, nenhum outro dos seus esforços fez tanto pela lembrança do seu génio como Pinóquio. E é curioso que tenha sido a marioneta, cuja morte quis antecipar (sendo que, durante os três anos que o projecto o ocupou, se viu forçado a uma outra pausa de seis meses) o tenha conduzido a ela à imortalidade. E se o público infantil conduziu a sua marioneta até um final feliz, o certo é que Collodi não a poupou dos piores desastres. Pinóquio tornou-se o seu joguete e mártir, o Job na disputa entre o autor e a miudagem que se tornara tão cúmplice da sua invenção. E se este braço-de-ferro o deixou extenuado, não pode descontar-se a irritação que lhe terá causado o sucesso que, mesmo que bem-vindo, só alcançou como escritor num género que não lhe merecia particular apreço. Quanto a Pinóquio, pagou caro o desprezo do seu criador por crianças, que antes de o tornar um rapaz de verdade, o vê ser, não só enforcado, mas roubado, raptado, esfaqueado, chicotado, o faz passar fome e ser aprisionado, levar porrada e ainda fica com as pernas calcinadas.

No meio disto tudo, a cena em que lhe cresce o nariz sempre que mente é um pormenor colorido que a adaptação da Disney tornou um aspecto emblemático e central, ajustando a moral à ideia de que se formos corajosos e honestos, se ouvirmos a nossa consciência, no fim seremos salvos. Para Collodi, o ponto capital está em fazer as crianças entenderem que o custo de não obedecerem aos adultos é acabarem por sofrer impiedosos castigos, bem maiores do que aqueles a que os pais os sujeitariam na sua educação. E se a versão da Disney contribui grandemente para banhar a vida em ilusão, reforçando a convicção sonhadora de que até os mais impossíveis desejos podem concretizar-se, na atribulada narrativa de Collodi, como assinalou o crítico literário Tim Parks, o que está em causa em “As Aventuras de Pinóquio (que começou por se chamar simplesmente “A História de uma Marioneta”) é: “Quem irá acabar por manipulá-la? Quando esta marioneta revelar a sua natureza ao mesmo tempo teimosa e estúpida: Quem acabará por dar-lhe a volta e conseguir manipulá-la?” Assim, não podia haver conclusão mais pessimista. Muitas vezes, aqueles que tudo fazem para se furtarem à autoridade dos pais, daqueles que lhes são próximos e os amam, acabam apenas por ir entregar-se nas mãos daqueles cujo único interesse é explorá-los.
 

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