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José Cid não gostou da 'versão' de Jay Z

José Cid não gostou da 'versão' de Jay Z

Shutterstock Davide Pinheiro 12/07/2017 10:14

José Cid ouviu a canção do rapper construída sobre um excerto de ‘Todo o Mundo e Ninguém’ do Quarteto 1111 e reprova o resultado. «Delapidou um tema genial de Gil Vicente», critica. E agradece os «dinheirinhos».

Quando o pedido da equipa de Jay-Z para usar ‘Todo o Mundo e Ninguém’ entrou na Sociedade Portuguesa de Autores, em maio, os compositores Tozé Brito e José Cid não tiveram acesso ao resultado final de ‘Mercy Me’. Mas agora que o vocalista do Quarteto 1111 já ouviu a penúltima canção de 4:44, álbum que traz de volta Jay-Z à condição de rapper, após ter reforçado o estatuto de CEO do hip-hop ao envolver-se no gigante mercado do streaming, através da plataforma Tidal, a nota é negativa. «O Jay-Z não teve o cuidado de traduzir a letra. Delapidou um poema genial de Gil Vicente, ainda hoje atual. É uma pena».

Cid enaltece a «consciência social e objeção» do rap, usando o exemplo de Gabriel O Pensador como voz desse combate, para descrever o discurso «muito pobre»  de Jay.-Z.

‘Todo o Mundo e Ninguém’ data de 1970 e é o primeiro tema do Quarteto 1111 saído da pena de Tozé Brito que com José Cid trabalhou o arranjo e a letra sobre um poema de Gil Vicente. Em ‘Mercy Me’, um corte de quatro segundos das vozes é repetido em loop durante três minutos. O instrumental é, tal como todo o disco, assinado pelo produtor No I.D.. E é a primeira vez que um vulto com esta projeção verbaliza rimas sobre uma batida com ligações à música portuguesa. Menos mediático na Europa, mas uma voz respeitada no círculo do rap, J Cole deu nova forma a ‘Balancê’ de Sara Tavares. Sem grande alarido, ‘Losing My Balance’, de 2009, é todo ele erguido sobre o balanço da luso-caboverdiana.

«O nosso tema é muito mais interessante», clama José Cid para quem Gil Vicente «é tão genial como Shakespeare» e o Quarteto 1111 foi «a banda continental mais interessante da sua geração. Os espanhóis e os franceses nunca tiveram ninguém comparável», defende.

 «Este tema é ousado e completamente atual. Estávamos na vanguarda. Repare que saiu em 1970 », chama a atenção. «Só estou para saber como é que eles o conheceram. Gostava mesmo de descobrir». Uma curiosidade subscrita por Tozé Brito quando, em declarações à Blitz no dia em que ‘4:44’ viu a luz do dia e a notícia fez eco na imprensa, se manifestou «muito espantado quando soube que eles queriam usar o tema. Ainda não consegui entender como foram eles lá em Nova Iorque descobrir uma música que foi lançada cá em single em 1970».

Tozé Brito foi quem tratou da questão dos direitos. José Cid dá os «parabéns a Jay-Z pelos dinheirinhos» que os dois terão a receber enquanto autores de ‘Todo o Mundo e Ninguém’, e com ironia estende a congratulação por ter conquistado Beyoncé.

Mais a sério, queixa-se da falta de reconhecimento do Quarteto 1111. «Infelizmente, em Portugal  não se dá valor ao que há. Teve a melhor banda de uma geração e não soube compreender. E depois teve o melhor cantor e não soube perceber», lamenta. Para José Cid, o excerto usado por Jay-Z não terá grande influência na chamada de novos ouvintes para o grupo já que se trata de «um corte nas vozes, repetido sobre um texto nada interessante».  E ainda sobre a banda realça que a ‘A Lenda D’el Rei D. Sebastião’ é apenas a «ponta do iceberg». Cid lembra que o Quarteto 1111 foi «censurado e silenciado» na época. O primeiro LP, de 1970, foi mandado recolher pela Comissão de Censura, devido a canções como ‘Lenda de Nambuangongo’ e ‘Pigmentação’ de forte teor político e subversivo. O Quarteto 1111 esteve na linha da frente do rock psicadélico e progressivo da época. Edita vários singles, quatro EP – entre os quais ‘A Lenda D’el Rei D. Sebastião’, de 1967,  e ‘Balada para D. Inês’, do ano seguite – e três álbuns, entre 1970 e 1974.  «Fomos muito mal tratados pela censura salazarista e marcelista, e por muita coisa que veio imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974», contesta. Por isso, o sample usado Jay-Z vem repor alguma justiça, palpável, por exemplo, na conta bancária. «Vou receber uns dinheirinhos», faz questão de enfatizar,  mas «vender não é o objetivo principal de um artista» porque «um detergente também vende e não deixa de ser um detergente», usa como exemplo.

«Nós não vendemos muito no nosso tempo. A Amália não vendeu muito. O José Afonso não vendeu muito», recapitula. Do Quarteto 1111 fica a «amizade com o Tozé Brito», que iria juntar-se em palco a José Cid no Algarve esta sexta-feira. «Uma prova de sobrevivência», sublinha. E como a memória é matéria viva e em permanente renovação, antecipa o que está para vir. Um tributo a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, motivado pelo 50.º aniversário sobre o álbum dos Beatles. O «Clube de Corações Solitários do Capitão Cid» é o porto de embarque do submarino amarelo até aos dias de hoje e reserva uma camarata para os Capitão Fausto, banda rock da nova vaga que gravou uma canção chamada ‘Zecid’  e a quem o ‘tio’ não tem economizado nos elogios.

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