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Atalaia. O Alentejo profundo foi invadido pelas artes performativas

Atalaia. O Alentejo profundo foi invadido pelas artes performativas

Diana Tinoco Ana B. Carvalho 04/07/2017 18:12

O Baixo Alentejo acolheu uma comunidadade de doze  artistas que desenvolveram projetos de arte contemporânea e os expuseram no Atalaia Artes Performativas  

Aljustrel é o som das andorinhas e da brisa a correr com que se tenta sobreviver ao calor abrasador. É o cheiro metálico das águas mineiras e é o sol que se põe nas planícies que circundam a vila. É a piscina e a açorda de camarão em pão alentejano. Aljustrel é, também, arte circense e dança contemporânea, é um museu ambulante e uma carroça que transporta arte a todas as pequenas localidades próximas, é a comunhão entre o som da natureza e o existencialismo.

O profundo Baixo Alentejo foi, este fim de semana, invadido pelas artes performativas, palco de várias exibições de arte contemporânea. Os “invasores” são os participantes do Atalaia Artes Performativas, festival que surgiu em Ourique e vai já na quarta edição. Na simpática vila de Aljustrel é a segunda vez que artistas internacionais se reúnem para criar e interagir com a comunidade. O festival, que se divide por dois fins de semana, um em Aljustrel, outro em Ourique, começou a 29 de Junho e termina no dia 8.

Arte pelas ruas

São sete da tarde quando chegamos ao Jardim 25 de Abril, mesmo no centro da vila. Ao fundo, está  o Centro d’Artes de Aljustrel, decorado com fitas de todas as cores, com os cartazes do Atalaia Artes Performativas colados nas paredes e uma energia de excentricidade, própria de muitos criadores. Foi aqui que doze artistas oriundos de todos os cantos do mundo, desde os Estados Unidos da América à Coreia do Sul, passando pelo México e Itália, fizeram as suas residências artísticas. Os artistas criaram a solo, em dupla ou em coletivo e o resultado foi um total de oito projetos, que haviam já sido previamente selecionados por um júri especializado através de concurso internacional. O objetivo da seleção passava não só pela qualidade artística, técnica e conceptual, mas também pela obrigatoriedade de se envolverem com a região e com a comunidade local. 

Às sete da tarde são várias as pessoas que esperam pela dupla de artistas ingleses Ruben Green e Sophie Mak-Schram que se preparam para uma visita guiada pelas ruas e recantos de Aljustrel, onde irão proporcionar momentos de reflexão e performances que misturam os mitos, as lendas e a História da região com a arte contemporânea.  

Os populares estão curiosos. Perguntam aos que passam do que é que se trata aquela movimentação de pessoas. Os artistas vão à frente, vestidos com túnicas, cantando alto e bom som versos em inglês. Às vezes leem em voz alta com um português típico de quem não domina a língua, mas pelo menos tenta. 

Marília, de 62 anos, está à porta de casa e diz nunca ter visto tal coisa: “São santos? Com os Jeovás a chamar pessoas?” Passa a saber que se trata apenas de uma dupla de artistas e vai daí que se junta ao círculo para matar a curiosidade. “Não percebo nada de artes, mas é bonito”, comenta.

Filipa Pontes, de 38 anos, é natural de Beja, mas os pais vivem em Aljustrel, onde cresceu. Está a fazer o percurso inteiro, até que finalmente se chega ao ponto mais alto da vila. “Como sou artista plástica e coincidiu vir cá, não podia perder esta oportunidade de ver este festival que é superinteressante. Principalmente porque nos faz ver o mesmo sítio com outras perspetivas”, explica a jovem que admite estar a passar por caminhos que não conhecia até então. “É impressionante que tenham de ter vindo cá dois artistas de fora para eu ter passado por ali”.

Ana Nobre, a organizadora do festival, também está no topo de Aljustrel, onde se vê o sol a pôr. A dupla de ingleses terminou a sua performance e todos descansam depois de uma hora de caminhada. Cita Walter Benjamim quando lhe perguntamos se a arte poderá salvar o interior de Portugal, que está cada vez mais deserto, “a arte salva. Mas o que é que nos salva? Isto é aquilo que eu posso fazer, com o que eu posso contribuir, eu e os que trabalham comigo. Se cada um na sua área tiver esse interesse em dar algo, também recebe, recebe muito, se calhar até mais do que recebes em Lisboa, em que há tanta competição”. O mais difícil é o “arrancar” e daí que muita gente “não está para isso”. Explica que se trata de um processo de sofrimento e de resiliência.

Vítor Alves Brotas, da Agência 25, é o responsável pela produção do festival. O sangue alentejano tornou mais fácil a adaptação às dificuldades que o festival enfrenta no que toca à implementação do projeto. “Se forem projetos pontuais também contribuem para a salvação do interior, mas só por si não será o suficiente” garante. Vítor explica que o festival tem como o objetivo o trabalho em rede, uma forma de combater o isolamento natural das comunidades, mas mais assente na dispersão geográfica das pequenas localidades do Alentejo. “O que acontece aqui, e penso que não é só no Baixo Alentejo, é que cada um está por si, cada um tenta salvar as suas pessoas e tratar da própria sobrevivência. O problema é que quando se trata de um sítio como o Alentejo, em que há falta de pessoas, de capacidades e de meios, se os concelhos e os municípios não trabalharem em rede e se ajudarem uns aos outros, nunca vão a lado nenhum”. Para a produção um dos objetivos “é trabalhar em várias áreas ao mesmo tempo e puxar pela evolução da comunidade, envolvê-la”.

Ana Nobre diz que foi ao desenvolver este projeto que reparou no quão difícil é implementar este tipo de atividades. Para o Atalaia Artes Performativas, os meios estão dependentes da boa vontade dos municípios, uma vez que estes são os principais patrocinadores da sua produção. O que é certo é que, dos artistas à população, todos admitem que gostavam de ver o festival outra vez para o ano.

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