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Mário Ramires 04/07/2017
Mário Ramires

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Muito mas muito mais do que um tiro no pé

O Portugal dos afetos não pode dar cabo de vez do pouco que resta da autoridade do Estado


Fotomontagem: Júlio Rodrigues

O assalto aos paióis de Tancos rebentou que nem uma centena de granadas e umas dezenas de mísseis na segurança nacional e na credibilidade do Estado, internamente e, sobretudo, internacionalmente.

País neutro, como poucos, desde a ii Guerra Mundial, Portugal, ao nível da segurança de Estado, dos serviços de inteligência e de informações, da polícia de investigação criminal e antiterrorismo e das hierarquias militares, sempre teve a melhor das reputações, em particular junto da NATO e dos seus aliados.

Nos últimos meses, porém, um conjunto de factos absolutamente anormais minaram essa imagem a diferentes níveis e o assalto aos paióis de Tancos conhecido na semana passada rebentou que nem uma centena de granadas e umas dezenas de mísseis na credibilidade do Estado, interna e, sobretudo, externa.

Pode a NATO continuar a confiar armamento a Portugal?

Faz sentido que a Escola (ou Academia) da NATO tenha sede em Portugal (Oeiras)?

Deve a União Europeia ou qualquer outra instância internacional aliada subsidiar a compra de equipamento e de armamento para o Exército português? 

Devem os Estados Unidos compensar o abandono das Lajes com contrapartidas para a defesa e para as Forças Armadas nacionais?

Pois é. O que sucedeu em Tancos não foi um furto de somenos importância que se resolva com a responsabilização da tropa macaca e de uma mão-cheia de patentes intermédias que se sacrificam em nome da salvaguarda do generalato e dos ministros da nossa praça.

Os militares portugueses acusados da prática de crimes sexuais em missões de paz das forças da ONU; a tragédia de Pedrógão Grande e a total incapacidade de resposta das autoridades da proteção civil, militares e militarizadas para evitar largas dezenas de mortos e mais de duas centenas de feridos; a incompetência para impedir a vulnerabilidade dos paióis de armamento – seja das Glock da PSP, mas sobretudo de material de guerra como o roubado de Tancos –, não são minas prontas a detonar na credibilidade do Estado; são, sim, autênticos mísseis que já rebentaram e reduziram a pó a credibilidade da segurança nacional e do Estado, internamente e em todos os fora internacionais.

Perante este facto, cruel e indesmentível, todas as mais altas figuras do Estado e da hierarquia militar têm de ser chamadas a terreiro.

A começar pelo comandante supremo das Forças Armadas, o Presidente da República, que, formalmente, ainda nada comunicou ao país nem sequer fez saber que convocou o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas e o chefe do Estado-Maior do Exército.

Não, um caso como o do roubo dos paióis de Tancos não pode ser tratado por Marcelo Rebelo de Sousa com declarações aos jornalistas no meio de uma cerimónia de croquete.

Não, não pode o senhor ministro da Defesa Nacional assumir toda a responsabilidade política e, à guisa de quem dá a cara, continuar em exercício de funções e menorizar a importância do assalto.

Não, não pode o chefe do Estado-Maior do Exército ir à televisão dizer que o material roubado foi só o que foi divulgado em comunicado do seu Estado- -Maior e, a seguir, ser desmentido publicamente.

Não, não devia o Presidente da República receber o CDS em audiência isolada e divulgada como tendo caráter de urgência, mas sim convocar todos os partidos com assento parlamentar.

Não, não é aceitável que as autoridades espanholas violem segredos de Estado e informações confidenciais prestadas pelo governo português – e divulguem a jornal espanhol a lista do material roubado em Tancos –, e o governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não abra imediatamente incidente diplomático de protesto junto do governo de Espanha.

Não, não é admissível que militares, ainda por cima oficiais, marquem ação de protesto e deponham armas junto do Palácio de Belém.
Ao que chegámos!!!
Onde está a autoridade do Estado?
António Costa, entretanto, foi de férias.
Se foi porque já as tinha marcadas, fez mal.

Se foi para se resguardar e tomar as decisões inevitáveis para repor a autoridade do Estado e do seu governo e, quando voltar, anunciar ao país o que não pode deixar de fazer, fez bem.

Marcelo Rebelo de Sousa fez comunicação ao país em plena tragédia de Pedrógão. Fez bem. Não emitiu nota da Presidência da República nem comunicação oficial sobre o gravíssimo roubo de material de guerra em Tancos. Fez muito mal.

Neste momento, sem prejuízo dos inquéritos em curso para apuramento de tudo o que se passou, importa agir... e já. No país e lá fora, junto dos aliados e das instituições internacionais. 

Para que o Portugal dos afetos não dê cabo de vez do pouco que resta da autoridade do Estado.

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