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Afinal os homens também têm relógio biológico

Afinal os homens também têm relógio biológico

Shutterstock Ana Carvalho 03/07/2017 16:21

A história que os homens não têm prazo de validade no que à fertilidade diz respeito, parece que, afinal, não está bem esclarecida.

Um estudo realizado na Harvard Medical School vem alertar para a realidade em que os homens, assim como as mulheres, não podem aguardar muito tempo para terem filhos. A probabilidade de um casal ter um bebé cai com a idade do homem, ao ponto de poder ter um impacto substancial na sua capacidade de começar uma família.

Laura Dodge, que liderou a pesquisa no Beth Israel Deaconess Medical Center e Harvard Medical School, em Boston, disse que os casais devem ter as conclusões em mente quando estão a planejar constituir uma família. "Ao tomar essa decisão, eles também devem considerar a idade do homem", explicou a cientista ao diário britânico The Guardian.

Os cientistas sabem há muito tempo que as hipóteses de uma mulher de conceber naturalmente caem, acentuadamente, a partir dos 35 anos, mas a pesquisa de fertilidade tem-se focado tanto nas mulheres que os fatores masculinos acabam por ser menos bem compreendidos. "O impacto da idade parece concentrar-se quase exclusivamente no relógio biológico da parceira feminina", disse Dodge.

Para investigar o impacto da idade de um homem sobre a probabilidade de um casal conseguir ter filhos, Dodge e a restante equipa estudaram registos de cerca de 19.000 ciclos de Fecundação In Vitro (FIV)  na área de Boston entre 2000 e 2014. As mulheres foram divididas em quatro faixas etárias: as menores de 30 anos, 30-35 anos de idade, 35-40 anos de idade, e aqueles com idade entre 40-42. Os homens foram divididos nas mesmas faixas etárias com uma banda extra para mais de 42 anos. Alguns dos casais receberam até seis ciclos de FIV.

A equipa examinou então como é que as idades dos casais influenciavam o nascimento de bebés. Como esperado, as mulheres na faixa etária dos 40-42 apresentaram as menores taxas de natalidade, sendo que para essas mulheres a idade do parceiro masculino não teve impacto.

Mas, para as mulheres mais jovens, a idade do homem foi importante. As mulheres menores de 30 anos com um parceiro do sexo masculino com idade entre 30 e 35 anos tiveram 73% de hipótese de um nascimento vivo após FIV. Mas essa taxa de sucesso, impressionante, caiu para 46% quando o homem tinha entre 40 e 42 anos. Segundo os resultados do estudo, parece que quer seja ouvido ou não, o relógio biológico também trabalha para os homens.

O estudo, que será divulgado amanhã na reunião da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia em Genebra, descobriu que a idade masculina não teve impacto real sobre a taxa de natalidade quando a sua parceira tinha a mesma idade. Mas algumas mulheres beneficiaram ao estar com homens mais jovens. Quando as mulheres de 35 a 40 anos se associavam a homens de 30 a 35 anos, as hipóteses de terem um bebé ficaram em 54%, número que subiu para 70% quando o homem tinha menos de 30 anos. Em média, mulheres com idade entre 30 e 35 anos, cujos parceiros do sexo masculino eram mais velhos tiveram taxas de nascimento vivo de 64%, comparadas com as taxas de 70% se o homem estivesse na mesma faixa etária.

"O valor disto não é apenas no aconselhamento dos casais", disse ao The Guardian Nick Macklon, professor de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Southampton, que não esteve envolvido no estudo. "Pode ajudar as mulheres a incentivar os seus parceiros masculinos a avançar. Sabemos de uma série de estudos em que uma das razões pelas quais as mulheres estão a ter bebés cada vez mais tarde é porque os homens, às vezes, são lentos a apoiar a ideia”.

Os investigadores não sabem ao certo porque é que a fertilidade masculina diminui com a idade. As mulheres nascem com o seu armazenamento de óvulos para o resto da vida, que acumulam mutações à medida que envelhecem. Como resultado, a causa abrupta da infertilidade em mulheres mais velhas é um aumento nos cromossomas anormais nos seus óvulos. Nos homens, sabe-se que o processo de envelhecimento afeta a qualidade do esperma, dificultando a realização de uma gravidez e aumentando o risco de aborto espontâneo.

"A diminuição da qualidade do esperma certamente desempenha algum papel, mas o nosso trabalho mostra que esse não é o cenário completo", disse Dodge. "Nós encontrámos resultados semelhantes entre casais sem infertilidade masculina documentada, então algo mais está em causa". Mesmo que os homens produzam esperma fresco todos os dias, os espermatozoides mais velhos trazem mais danos ao DNA. A cientista pretende realizar mais estudos para investigar as causas.

"Isso é algo que nós suspeitamos que seja o caso, que a idade masculina provavelmente tem um efeito sobre a taxa de sucesso do tratamento de fertilidade", disse ao mesmo diário británico Raj Mathur, líder clínico para a medicina reprodutiva em Manchester Fertility. "É importante e talvez os clínicos comecem, quando estão a aconselhar os casais, a ter em conta a idade do homem também". Acrescentou ainda que os cientistas deveriam agora estudar dados mantidos pelo regulador de fertilidade do Reino Unido, a Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia, para que se confirme o efeito num número maior de pessoas. "Isso responderia a esta questão de forma mais definitiva", explicou.

 

 

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