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Carlos Carreiras: “Em alguns casos, a União Europeia tem legitimidade questionável”

Carlos Carreiras: “Em alguns casos, a União Europeia tem legitimidade questionável”

Helena Garcia Sebastião Bugalho 30/06/2017 17:14

Carlos Carreiras lembra Mário Soares, criticando António Costa e Rui Rio, no Estoril Political Forum.

É o maior encontro anual de ciência política em Portugal. O Estoril Political Forum acontece todos os anos no Estoril, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, e o presidente da Câmara Municipal de Cascais já tem tradição de inaugurar o encontro como anfitrião local.

Ao longo do dia de ontem – o fórum dura três dias – marcaram presença notáveis como Jaime Gama, ex-presidente da Assembleia da República, e Guilherme d’ Oliveira Martins, ex--presidente do Tribunal de Contas. Hoje falará José Manuel Durão Barroso, antigo presidente da Comissão Europeia e primeiro-ministro, que dirige o Centro de Estudos Europeus da Universidade Católica.

Carlos Carreiras abriu a primeira sessão, com a presença da reitora da universidade, e saudou a primeira vez que o Estoril Political Forum aconteceu, em 1993, “curiosamente o mesmo ano em que entrou em vigor o Tratado de Maastricht”, recordou o autarca. “Mas ao contrário do tratado europeu, com quem os cursos partilham o ano de nascimento, o Instituto de Estudos Políticos (da Universidade Católica) não é produto de um grande plano, nem aponta para destinos inescapáveis para o homem europeu que, em alguns casos, acaba a servir macroestruturas políticas centralizadoras com legitimidade democrática questionável”; a servir a União Europeia, portanto.

De seguida, Carreiras prestou tributo à memória de Mário Soares, o antigo Presidente da República que faleceu este ano. “Com Mário Soares, o país também aprendeu que ditadura é ditadura”, defendeu Carreiras, veterano do Partido Social Democrata. “Como poucos na sua área política, Mário Soares intuiu os objetivos das forças extremistas da esquerda e de alguns militares na aurora revolucionária”, continuou. “Os primeiros queriam substituir uma ditadura de direita por uma ditadura de esquerda, guiada espiritualmente por Moscovo”, disse, referindo-se às forças mais à esquerda da revolução do 25 de Abril. “Mário Soares, com quem eu e tantos milhares de militantes do PPD-PSD estivemos na Fonte Luminosa, foi um muro intransponível para esses devaneios revolucionários”, recordou.

Veio depois uma subtil achega ao “otimismo” de António Costa, que o Presidente da República já considerou “optimismo irritante”. Continuando a lembrar Mário Soares, disse Carreiras que “outra das lições que Soares deu ao país é que o sonho e a ambição em política são determinantes”. E veio então a achega: “Não falo dos sonhos delirantes dos otimistas irritantes, mas os sonhos mobilizadores, que constituam movimentos de superação ancorados em possibilidades realistas.” E a achega continuou, já mais perto da conclusão e talvez menos discreta: “Talvez a liberdade ainda seja a liberdade de Soares. Mas as linhas vermelhas da ditadura por si traçadas em 1975 estão hoje a ser perigosamente apagadas por alguns dos que se dizem depositários do seu legado.”

Sobrou, todavia, tempo para mais uma achega, desta vez interna. Carreiras, próximo de Pedro Passos Coelho, deixou um “recado” a Rui Rio, o ex-presidente da Câmara do Porto que já se assumiu como potencial candidato à liderança do PSD no próximo congresso do partido, em 2018. “Quando hoje vemos tantos políticos hesitantes em fazer o que devem, eternizando-se como candidatos a candidatos, percebemos que eles esqueceram uma lição de Soares: a liberdade democrática não incluiu apenas a possibilidade de ganhar.”

João Carlos Espada, o académico que fundou e dirige o Institutos de Estudos Políticos da Universidade Católica, encerrou a sessão de abertura com uma saudação aos valores da democracia ocidental e atlântica. Espada, que foi conselheiro de Soares no Palácio de Belém, não deixou igualmente de recordar o antigo Presidente da República.

“Num breve obituário que tive o privilégio de escrever para o ‘Journal of Democracy’ (distinta publicação académica), recordei a passagem de uma conferência dada por Mário Soares na Universidade George Washington, em DC, a dezembro de 1988. Nessa ocasião, disse: ‘Como um velho combatente contra a ditadura, pertenço a uma geração que aprendeu pela sua experiência o valor da democracia e a importância da liberdade… Sentimo-nos na obrigação de partilhar a nossa experiência com as gerações mais jovens, para que eles entendam que a vida sem liberdade não tem sentido”, disse o professor universitário.

Para João Carlos Espada, o título do encontro deste ano, “Defender a tradição ocidental da liberdade sobre a lei”, expressa o compromisso que emana tanto do Estoril Political Forum como do próprio Instituto de Estudos Políticos desde a sua fundação, sendo de igual modo “uma das maiores causas” do legado de Mário Soares.

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