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Ricardo Costa 29/06/2017
Ricardo Costa

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Emoção e poder

A tragédia de Pedrógão Grande traz uma viragem no cordão emocional que Marcelo e Costa teceram com o país

No mundo em que vivemos, de certo modo muitos de nós vivemos intoxicados por informação e contra-informação em todos os equipamentos “modernos” de que dispomos para trabalharmos e, assim, vivermos. É o mundo que nos é dado hoje. Uns mais que outros, apenas conseguimos respirar se conseguirmos joeirar, filtrar, selecionar e avaliar. Evitar para se continuar saudável, escolher para nos prevenirmos do desgaste e das inutilidades. Uns mais que outros, conseguimos suspirar melhor e concentrarmo-nos no que interessa se evitarmos o espaço esmagador da informação, da corrente e da torrente. Uns mais que outros, saudosos do tempo de termos acesso às notícias da hora do jantar, que nos atualizava e nos colocava a par do mundo. E, aparentemente, chegava. Hoje o mundo vem ter connosco sem aviso, à distância de um écran ou de uma plataforma. E a política e os políticos vivem deste mundo, visando que tudo corra e se desenvolva no tempo e no espaço da comunicação pública. Mais uma vez a realidade da tragédia dos fogos, das perdas humanas e da destruição física e material de Pedrógão Grande testou este mundo, que vive igualmente da crueza e do poder da imagem, da expressão, da cor, do relato, da genuinidade, da transparência. E da emoção, sem filtros.

No mundo em que vivemos a política, aspirante a gerir as pessoas e os recursos, depende muito da emoção. Porventura mais do que outrora. A emoção explica mais do que em qualquer outro tempo a força do carisma, a legitimação da autoridade e a credibilização dos argumentos. Ninguém tem tempo nem estofo nem capacidade para analisar, ajuizar e concluir sobre as milhares de questões técnicas, especializadas e complexas que a política gere e decide. Ninguém compreende os discursos e os debates a não ser pela clareza e pela convicção. E pela emoção de estar vinculado. E pela confiança que a relação emocional gera nos governados. Confia-se pela relação emotiva que se estabelece tacitamente com quem nos governa e nos guia. Acredita-se pela fidúcia de que o Estado e as suas ramificações estão concentrados no preenchimento das funções que nos possibilitam e garantem um modo de vida e uma gravidade de segurança. Pois bem. Mais do que qualquer outro no passado recente, o poder que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa implementaram funda-se justamente nessa linha transversal – ligar o país emocionalmente à sua presença e à sua conduta. De “afeto” e de “otimismo”.

Digerir uma tragédia como a de Pedrógão Grande é o grande teste desde poder bifronte. Nada será como antes. A estratégia de comunicação “controladora” falhou, pois partiu para o terreno com premissas falsas ou desconhecidas e terrivelmente desmentidas pelas horas seguintes de horror e colapso. Neste mundo em que vivemos, a verdade, se diferente da “realidade”, vira-se sempre contra os mensageiros. E a verdade era de grande violência, convenhamos. Verdade feita de morte dolorosa, que é vivida com grande impacto coletivo, com maior ou menor dimensão. Esta foi nacional. Perdura. Arrasta-se no encontrar de respostas. Afunda-se nas incertezas e nas contradições. Pela primeira vez, o cordão emocional de Marcelo e Costa com os portugueses falhou. Com estrondo. É a partir daqui que vamos partir para a segunda fase deste poder.

 

Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto, Escreve à quinta-feira

 

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