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Pedrógão. As histórias de quem ficou para as contar

Pedrógão. As histórias de quem ficou para as contar

Diana Tinoco Marta Cerqueira 27/06/2017 16:02

Morreram 64 pessoas e mais de 200 ficaram feridas. Os números não são definitivos assim como não é definitivo um fogo que há uma semana não dá tréguas à região centro do país. O b,i. esteve no terreno a ver o que restou das aldeias devastadas. Vimos caos, é certo. E, claro, vimos tristeza. Mas também encontramos quem consiga ver Pedrógão além do fogo. Já dizia a Cristina do café. ‘Somos fortes como poucos. Vamos sobreviver’.

Fernando Silva,54 anos
Bombeiro

Da Batalha ao Algarve, Fernando já perdeu a conta aos fogos que apagou. «Era um miúdo quando me mandaram para Armamar, onde vi morrer 14 colegas», conta. Mas a experiência não apaga as emoções e é por isso que prefere guardar as imagens que viu em Pedrógão numa gaveta bem fechada. «Aprendemos a esquecer», garante, «assim como aprendemos a trabalhar sem sermos devidamente reconhecidos». Mas Fernando diz viver bem apenas com os agradecimentos que chegam de quem ajuda. Talvez o altruísmo atraia altruísmo: casou com uma bombeira e tem um filho que concilia a advocacia com o combate aos incêndios. «Sei que estagnei um bocado, nem sei mexer num computador ou num telemóvel sem teclas. Mas no terreno faço tudo e mais alguma coisa, isso garanto».

Cristina do Café
Proprietária da "Tudo na Brasa"

A Cristina tem último nome, mas em Pedrógão isso não interessa. Todos se conhecem como família. Quando conseguiu ligar o telemóvel, após dois dias sem rede, tinha 176 mensagens. Durante uma semana, o seu café serviu como central de informação, sala de refeições e até de redação. Cristina divide-se em três nestes dias cuja expressão ‘horário de funcionamento’ não existe. A única pausa do dia é para ir até ao quartel, onde a filha de 15 anos é voluntária. «Ontem disse-me: mãe, sabes que vi pessoas a arder?». Cristina já pensa levar a filha a um psicólogo e acredita que metade da vila vai precisar também. «A ficha ainda não caiu a ninguém». Cristina, assim como todos os que estão no café, acreditam que existem muitos mortos por descobrir. «E não pense que isto foi um raio. Qual raio qual carapuça! Isto foi fogo posto, tenho a certeza».

Bruno Patel, 32 anos
Voluntário

Bruno costuma passar música em discotecas e festas académicas. Mas quando começou a ver a catástrofe acontecer através da televisão, anulou os concertos e fez-se à estrada. Foi através das redes sociais que organizou uma recolha de donativos em Odivelas e, na madrugada de domingo, seguiu com os amigos em três carros cheios de garrafões de água, comida, roupa e medicamentos. Quando chegou, encontrou o caos. Havia muito material, mas poucos meios de distribuição. Foi pedir uns porta paletes a umas fábricas vizinhas e num vaivém feito em carrinhas e camiões, foi possível fazer tudo chegar ao sítio certo. Continua a usar as redes sociais para pedir o que faz falta e, para já, não houve pedido sem resposta.

Marta da Conceição, 84 anos
Sobrevivente do Nodeirinho

Marta da Conceição sentou-se na paragem de autocarro em frente a sua casa e pouco de lá tem saído. «Olhe para isto» - e estica os braços marcados com nódoas negras. «Tiveram de pegar em mim para me pôr dentro de água», conta. Foi Céu, a filha, que teve a ideia de usar o tanque que abastece Nodeirinho como refúgio para quem não conseguiu fugir. «Abastece a aldeia? Oh menina, vem gente de Lisboa encher garrafões», conta, para quem esta água que corre de forma contínua ganhou ainda mais valor. Não consegue precisar quantas horas esteve lá dentro, mas garante nunca viu nada assim. Contas feitas, a aldeia perdeu onze dos 30 habitantes. «É a prova do que a minha avó dizia. O fim do mundo é em chamas. Estamos bem perto dele», diz agarrada ao terço, onde parece ir buscar forças para continuar.

Filipe Afonso, 41 anos
Cozinheiro na marinha

Filipe desdobra-se em três e entre descascar batatas e abrir latas de atum, organiza a equipa que serve refeições aos bombeiros. «Fazemos a chamada comida de tacho», explica. Tudo na mesma panela facilita o trabalho e ajuda a criar pratos que sirvam de combustível. «Até podia fazer um bife com batatas fritas e ovo estrelado, mas ‘tá a ver a quantidade de loiça a que isso obriga?». É por isso que o menu do dia está bem longe do magret de pato ou o bacalhau com natas conhecidos, para os amigos, como as suas especialidades. Mas ninguém parece reclamar e poucos devem saber que Filipe trata das refeições por obra do acaso. Com 17 anos trabalhava numa fábrica de plásticos em Vinhais até ouvir falar na marinha. Inscreveu-se, mas na hora de preencher as opções não percebeu o significado das siglas e escolheu TFH, sem saber que este era o código para a vaga de cozinheiro que restava e para a qual estava destinado. «Ganhei-lhe o gosto e hoje tanto cozinho para um como para quinhentos», garante. 

Diana Linhares, 30 anos
Voluntária

Em três dias, Diana dormiu três horas. O truque? Red Bull e adrenalina. Saiu de Lisboa com o corpo de bombeiros onde é voluntária há 13 anos mal viram que o fogo estava a ficar descontrolado. Começou por ir para o terreno, onde viu «coisas que ninguém quer ver» e voltou para o quartel, onde organiza uma equipa de voluntários que foi crescendo a cada dia. Está habituada a incêndios e lembra até uma situação em que a salvação foi atirar-se para uma piscina e deixar arder. «Mas nunca vi nada assim, nada com tantos mortos». Rapidamente aprendeu a desligar emoções para se lançar ao perigo. «Mas há coisas que ficam», garante. E algumas para sempre.

Toni Antunes
Proprietário da "Toni Shop"

A mercearia do Toni é a única num raio de centenas de quilómetros que tem uma prateleira dedicada a produtos internacionais. «Quando abri a loja, há dez anos, percebi que ninguém via na presença de estrangeiros aqui uma fonte de rendimento», conta. Além de ajudar as centenas de ingleses e alemães que vivem na zona na hora de fazerem uma refeição caseira, Toni aproveita o inglês que herdou dos anos na escola para os orientar quando o tema é burocrático. No entanto, desde o último fim de semana que, em vez de dar indicações sobre o tribunal ou a solicitadora, se viu obrigado a orientar para hospitais ou para o posto de comando quem perdeu tudo. E alertou as autoridades para a falta de uma linha de apoio internacional para que quem está longe pudesse avisar os familiares de que, no meio do caos, o importante estava a salvo. «Uma vida é uma vida, fale ela português ou inglês».

Padre Júlio, 57 anos
Padre de Pedrógão Grande

Estava fora de Pedrógão no sábado, quando tudo começou. Ao regressar, no dia seguinte, foi diretamente ao adro da igreja e rezou. «Meu Deus, como eu gostava de ver este adro cheio da minha gente». É pároco há 12 anos, de uma freguesia que o viu nascer. «É por isso que o sentimento é outro». E é também por isso que, desde o início dos fogos, sai todos os dias para uma ronda pelas aldeias. «Não levo nada para dar, a não ser o meu abraço ou um ombro para chorarem», conta. 

No meio do caos, ainda não viu ninguém perguntar ‘porquê a mim’ ou a por em causa a existência de um Deus que permitiu a morte de 64 pessoas. «Os que estão vivos dão graças por isso. O resto resigna-se».

Carlos David, 67 anos
Presidente da direção dos bombeiros de Pedrógão

Tal como quase todos os que estiveram em Pedrógão desde a hora zero, Carlos David prefere não se lembrar do que viu quando o fogo acabou para dar lugar à morte. «Um banco de trás com três crianças, pessoas apanhadas a sair do carro, tudo carbonizado». As palavras confundem-se com as lágrimas. «Mas não vamos pensar nisso, agora há que ganhar forças para ajudar quem precisa». Quando volta à força que o caracteriza, o presidente da direção dos bombeiros de Pedrógão Grande volta à roda viva de telefonemas, pedidos e perguntas lançadas em todas as direções. «Para onde levo isto?», pergunta o último escuteiro da fila, com uma palete de leite. É hora de reorganizar as centenas de doações que não páram de chegar. «O português tem o gene de ajudar. Às vezes é preciso é acordá-lo», garante.

Julie Jennings, 60 anos
Inglesa a viver em Pedrógão

Quando as labaredas começaram a descer o monte perto de sua casa «como se fossem um tsunami», a inglesa abandonou tudo para se salvar. Bom, quase tudo. «Não podia deixar o Ned para trás», explica enquanto abre a cancela onde dorme o burro que a acompanhou na jornada do último sábado. Perdeu-se do marido que, durante horas, achava que Julie tinha morrido. «Nunca vivi nada assim», garante. Numa casa ainda sem luz, com janelas partidas e cinzenta da poeira, Julie dá graças por tudo ter acabado bem. Agradece a solidariedade dos vizinhos portugueses, «os melhores do mundo» e garante que Pedrógão vai voltar a ser aquele paraíso que uma vez viu na televisão e que a fez trocar Inglaterra por Portugal. «E eu vou estar cá para ver isso».
 

 

 


 


 

 

 

 

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