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Pedrógão Grande. “Retirados? Nós fomos abandonados”

Pedrógão Grande. “Retirados? Nós fomos abandonados”

Diana Tinoco Ana B. Carvalho 23/06/2017 12:22

Em várias aldeias dos concelhos afetados há gente revoltada com a inação das autoridades. Compreendem-se as dificuldades, mas culpa-se a falta de coordenação. Estes são os testemunhos dos que salvaram as suas casas com as próprias mãos, dos que puderam fugir e não quiseram e dos que perderam tudo o que tinham

O pesadelo que começou no último sábado para as populações de Pedrógão Grande está vivo em cada curva das estradas que ligam as várias localidades do concelho. Ainda há animais mortos nos terrenos e cabos elétricos que atravessam as vias. Ainda se veem alguns carros carbonizados na berma das estradas e estilhaços de vidros que ilustram o terror que se viveu naquela zona. O chão dos terrenos continua a ferver, fumega.

Mas as pessoas estão, aos poucos, a regressar a casa. Uns vêm do hospital, outros ficaram em casas de familiares. Há os que estão à espera de que os seus entes queridos sejam identificados como vítimas mortais e, daí, segue-se “uma dança de funerais”, descreve um morador de Figueiró dos Vinhos, que diz “não saber para onde se virar”. Por já ter falado com muitas pessoas, não se quer identificar, mas garante que este pesadelo o irá assombrar para o resto da vida.

S.João cancelado À entrada de Figueiró dos Vinhos está um “outdoor” que outrora anunciava, com cores alegres, o festejo das festas de São João. Entretanto foi colocada uma faixa negra com a informação “cancelado”.

À entrada dos terrenos de uma fábrica florestal está Nélson. “Um dos meus patrões e o sobrinho morreram com esta tragédia, viemos buscar as coisas deles”, conta, impressionado.

Da empresa arderam madeiras, camiões e máquinas, mas não era aqui que estava quando tudo começou. “Estava a regar batatas com a minha mulher e de repente algo nos cheirou mal, decidimos logo ir para casa e oh, foi tudo. Eu até me revolto, ouço na televisão que isto falhou, mas isto não falhou nada. Mesmo quem estivesse à frente do lume, tinha de fugir, é que eu nunca vi uma coisa assim. Isto era uma deslocação de vento tão forte, tão forte. Arrancou telhados, arrastou pinheiros, caíram árvores, foi-se tudo”, descreve com pesar, de mãos apontadas para o céu.

Para Nélson, os bombeiros não tinham como agir perante tamanho cenário de labaredas e condições climatéricas. “Quem é que se metia em frente do lume? Naquela altura, quem o tivesse à frente tinha de fugir. Isto foi tudo tão rápido, tão rápido, quem é que adivinhava? ”. Nélson explica que a economia da população depende da floresta. “Agora não há nada, quero ver do que vamos viver”.

Limpeza e regresso a casa A limpar as ervas das ruas da localidade estão vários funcionários municipais. Entre eles, de rosto e braço queimados, está Francisco Jorge, de 58 anos. Estava a chegar a casa na aldeia de Coelheira quando foi surpreendido pelas labaredas que a cercavam. Com o susto, nem se apercebeu que trazia a janela aberta. “As chamas apanharam-me a cara e o braço”.

O incêndio chegou à porta da casa por volta das 4 da tarde de sábado. “Não tivemos mais sossego”, descreve. A sua esposa, que no início o ajudou no combate às chamas, foi mandada embora pela Guarda Nacional Republicana, que a dirigiu para a vila de Figueiró dos Vinhos. Mas Francisco ficou à porta de casa a certificar-se de que a protegia, mesmo com o rosto e o braço com vários ferimentos que só viriam a ter assistência no dia seguinte de manhã. Na sua localidade, foram vários os que tiveram de proteger as suas próprias casas. “Não havia bombeiros para toda gente”, explica. Agora, as contas à vida não são difíceis de fazer de cabeça, já que “tudo o que estava limpo ardeu”, diz, com o braço são à cintura. “Até o que estava seco de herbicida à volta de minha casa ardeu, isto levou tudo, tudo. Não temos uma couve galega, um feijão, não sobrou nada”.

Fomos abandonados Mais a diante, em Vale das Zebras, estão duas ovelhas presas perto da estrada, com ar de que não é suposto estar ali. Uma casa, com roupa estendida à porta, está cercada por um cenário de cinzas.

À porta vem Paulo Carvalho, um homem magro, com ar cansado, surpreso por nos ver à porta. “Vocês são os primeiros a vir aqui desde sábado”, diz, para explicar a surpresa. Quando lhe perguntamos se ninguém apareceu para os retirar, responde em tom elevado: “retirados? Nós fomos abandonados. Não apareceu cá um bombeiro, um GNR, ninguém, ninguém, ninguém”.

Paulo ficou sozinho, cercado pelo fogo, juntamente com a sua esposa e sogra a guardar a casa dele e dos dois vizinhos, que não estavam. A casa é mesmo em frente à estrada principal, daí que a revolta se tenha instalado e não o deixe compreender o porquê de ninguém ter aparecido. Conta, furioso, que ligou dezenas de vezes aos bombeiros. “Trataram-me mal, como não se trata um animal. Nunca me tinham falado assim, percebi logo que estava sozinho”.

A verdade é que sozinho conseguiu salvar tudo. “Com sorte, porque o vento estava a favor.” Mas admite que está preocupado com a conta da água: “como se não faltassem preocupações, agora espera-me uma bela conta da água para pagar”.

Perguntamos-lhe pelas ovelhas, que parecem um pouco deslocadas. “Vão para abater, ardeu o pasto todo, não têm o que comer. Estão ali prontas para morrer, não tenho como as sustentar”.

Ao longe, Amazilda, de 72 anos, vem a pé pela estrada de Figueiró dos Vinhos. Está de chapéu, vestida com uma bata de xadrez azul, da cor dos olhos. Mal começa a falar chora e agarra-se à primeira mão que lhe é estendida. “Não apareceu ninguém para nos acudir. Eu fui operada e não pude ajudar o meu marido e o meu filho. Fui para cima do telhado”. O marido salvou a casa e um sobreiro, de resto perderam tudo. “Ligámos tantas vezes para nos acudirem, não veio ninguém, temi pela vida como só Deus sabe”.

As sucatas e a madeira para vender A caminho da próxima aldeia está João Carlos a recolher ferro velho que vai encontrando pela área queimada. “Isto vai dar pouco dinheiro, mas com tanto estrago tinha de vir procurar. Está muita gente a fazer isto, depois vende-se na sucata”.

Ao longe, ouvem-se motosserras e quedas de árvores. “Já há gente a cortar madeira, se forem pelo mato ardido encontram de certeza”. E é o que se segue. Pelo mato quente procuramos o som seco mas ensurdecedor. Está cada vez mais perto, mas as cinzas da floresta ainda fervem e os pés acusam demasiado calor. “Esta madeira só daqui a um mês ou mais é que serve para alguma coisa, foi o dono do terreno que nos contratou, pobre homem até chora com tamanha desgraça”, conta Albano, de máquina na mão, enquanto explica que apenas o pinho poderá render alguma coisa. “Neste caso, nem se pode falar em negócios da madeira, porque se perdeu demasiado. Ninguém calcula o que ardeu”.

“É para deixar arder” Também ele defendeu a sua casa uma aldeia de Figueiró, perto da igreja, e é mais um dos que não ouviu sequer uma sirene ao longe. Diz não saber que origem teve o fogo, mas que é certo que o problema foi do tufão que colheu tudo. “Andaram helicópteros e canadairs a brincar com o fogo quando ele estava fraquinho, lá perto de minha casa. Mas quando apertou nem um bombeiro. Só no dia seguinte é que surgiu grande aparato, andaram a apagar cepos que não tinha interesse nenhum. Até ficaram lá a dormir, eram mais de 20 carros”.

Albano descreve que teve de respirar fundo para não lhes ir perguntar o porquê de só aparecerem mais tarde e garante que uma bombeira lhe disse acerca de um monte ali ao lado. “Respondeu-me que isto aqui era para deixar arder”. Quando lhe perguntamos o que sentiu, responde indignado. “Eles seguem ordens lá de Lisboa, sei lá o que quer isso dizer. Só sei que não se pode ouvir uma coisa destas. Estão sentados a dar ordens, deviam era vir aos terrenos”.

Não tínhamos água, só Deus Em Vila Facaia, arderam muitas casas do centro da pequena vila. Maria Filomena conversa com uma mulher sobre os momentos de aflição. Rosa dá-lhe a notícia da morte de Anabela, uma amiga em comum. “Aqui não tínhamos água, não tínhamos luz, havia vultos e labaredas, só”, explica Filomena. Morreram vários habitantes, ainda não há números certos de quantos se perderam. “O fogo comeu tudo e nós só podíamos ver e rezar, é uma sorte estarmos vivos. Não tínhamos ninguém, só Deus”.

Vila Facaia está silenciosa, há sofás queimados no meio da rua, telhas espalhadas pelo chão. Ouve-se falar da família de nove pessoas, em Nodeirinho, que tinha mesa posta para jantar e que nunca chegou a reunir-se à mesa. “A fugir morreram todos, é o que dizem”, conta um local que perdeu o filho, o cunhado e uma prima. “O prejuízo das coisas foi enorme em Nodeirinho, mas não há dor como a de perder os nossos por uma falta de organização, é que é uma revolta. Fizemos umas sessenta chamadas e ninguém apareceu”, conta a um elemento de uma equipa da proteção civil, que anda com uma equipa a perceber os danos das populações. “Pelo que vejo e ouço, tratou-se tudo de uma grande falta de coordenação. Havia danos evitáveis”, comenta o operacional, que pede para não ser identificado.

Houve gente com mais sorte Mas nem todas as localidades tiveram perdas de casas, pessoas e animais. Odete, de 45 anos, vive no Torgal e recusou-se a ser retirada para salvar os cães. “Servi de comer aos bombeiros, ajudei aqui à volta e protegi os meus animais. Cumpri o meu dever de cidadã”. No entanto, Fernando David, de 87 anos, conta à porta do seu café que estava em casa com a sua esposa para se resguardarem do fumo do incêndio. A ameaça chegou no domingo. “Ninguém bateu à porta para saber se cá estávamos. Nem sabíamos que estavam a evacuar pessoas. Viram isto fechado e imaginaram que não estivéssemos. Mas estávamos, ai se estávamos”.

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