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Incêndios. Afinal não estava tudo controlado

Incêndios. Afinal não estava tudo controlado

Miguel Silva Ana B. Carvalho e Joana Marques Alves 22/06/2017 09:59

Alterações radicais no trilho percorrido pelos fogos dificultaram a ação dos bombeiros e deixaram nas mãos dos habitantes a defesa das aldeias

Quando o fogo arde, o pânico instala-se entre a maioria das pessoas. Mas nem todas cedem ao medo e enfrentam as chamas com todas as forças que têm. Foi o caso de seis homens no lugar de Cadafaz, no concelho de Góis. A GNR tentou convencê-los a abandonar o local, mas quiseram ficar a defender as suas casas. O i encontrou-os na terça-feira passada, quando o fogo já estava a chegar às vivendas. Disseram que não apareciam bombeiros e que estavam há pelo menos três horas à espera que alguém aparecesse. Ontem, voltámos a Cadafaz para saber o que lhes tinha acontecido.

Quando chegámos ao lugar, vários carros de bombeiros e da GNR estavam estacionados no largo, que na altura em que o incêndio lavrava estava vazio. O cenário era outro - já não havia chamas, só se via fumo ao longe. Junto aos carros, Carlos Alves e José António Gomes, dois dos seis homens que tinham estado a combater as chamas no dia anterior, davam entrevistas a outro órgão de comunicação. “Já vi que conseguiram safar-se ontem”, disse-nos José António com um sorriso.

Todos os homens ficaram bem. Disseram-nos que a ajuda só chegou muito depois de termos estado com eles. “Já era noite quando eles chegaram. Entretanto, íamos continuando a apagar o fogo, fazendo tudo o que era possível”, recorda José António, de 56 anos.

“Apanhámos um susto aqui e outro ali, mas ninguém saiu daqui até chegarem os bombeiros”, disse ao i Carlos Alves, de 43. Os homens ficaram bem e, quando estivemos com eles, os fogos juntos a Cadafaz estavam controlados. Notava-se que estavam contentes com o trabalho feito. Infelizmente, pequenos focos continuavam a reacender, mas nada que assustasse estes homens. Disseram-nos que existiam mais histórias como as deles - uma delas era na Candosa, um lugar vizinho.

Onde fica Candosa no mapa? Dez minutos depois da nossa visita a Cadafaz, chegámos à Candosa. Encontrámos um grupo de cinco homens a conversar na rua e a observar o fogo que lavrava no alto, longe das casas. “Se as chamas não passarem a estrada, isto está controlado”, garantiu-nos um deles, que pediu para não ser identificado. Estes homens sabem do que falam: estiveram das 08h00 de terça-feira às 08h00 de quarta a combater as chamas, com recurso apenas a pequenos tanques de água, em cima de duas carrinhas. Garantiram-nos que a Candosa não aparecia no mapa que os bombeiros usam para percorrer a zona. Um dos responsáveis que esteve no local não nos conseguiu precisar a informação, mas disse-nos ter muitas dúvidas de que tal correspondesse à verdade.

“Tivemos um carro dos bombeiros de Góis aqui por volta das 19h00. Não tinha água e nós atestámos com a que tínhamos disponível. Passado pouco tempo foram-se embora. Disseram-nos que voltariam passado pouco tempo, que tinham de combater o fogo no lugar de Colmeal. Só apareceram às 04h00”, garante um dos populares.

Enquanto falávamos, o vento tornou-se mais intenso e aconteceu o que ninguém queria: as chamas passaram a estrada. Rapidamente se propagou, deixando a aldeia quase rodeada de fumo - existia apenas uma estrada disponível para sair do lugar, a que vinha de Cadafaz. 

O i viu os homens a ligarem para as autoridades, a retirar os animais dos currais, a ligar para outras entidades. Pouco tempo depois, começaram a aparecer carros de bombeiros. “Temos de dizer que estão casas ameaçadas para eles virem mais depressa. Hoje resultou, ontem não”, afirma um dos residentes. “É bom termos muitos homens a combater os fogos, mas há muita desorganização. Quem manda é que está a fazer um mau trabalho, não são os que estão no terreno”, garantiu outro dos populares, um ex-bombeiro. À hora de fecho desta edição, o fogo ainda não estava controlado. Vários bombeiros e GNR estavam no local, à espera que as chamas descessem para conseguirem fazer-lhes frente. Os populares continuam à frente das casas, a ajudar os bombeiros e a fazer tudo para salvarem o que é seu.

O recurso ao contrafogo Uns dizem que é eficiente, outros afirmam que se trata de uma técnica perigosa. O contrafogo - tática em que as chamas são ateadas no sentido contrário do incêndio, por forma a encontrá-lo e, assim contê-lo num só espaço e ajudar a apagá-lo - já gerou várias discussões entre especialistas e populares, mas a verdade é que continua a ser uma técnica usada por pessoas que fazem frente às chamas.

Populares ouvidos pelo i no concelho de Góis admitem ter feito contrafogo. “É o método mais eficaz. Às vezes, entre fazer aquilo e não fazer nada, temos de arriscar”, disse-nos um homem, que esteve várias horas a combater as chamas na passada terça-feira.

“Se não fizermos nada, arde tudo na mesma. À noite é mais fácil de usar esta técnica. Mas, claro, se o vento não estiver a ajudar não se faz nada”, explicou ao i outro popular.

O i tentou questionar bombeiros no local sobre esta questão, mas nenhum se disponibilizou a falar sobre o assunto.

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