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Gonçalo. O herói que comoveu um país

Gonçalo. O herói que comoveu um país

Diana Tinoco Sebastião Bugalho 22/06/2017 08:38

O bombeiro voluntário de Castanheira de Pera que sucumbiu aos ferimentos teve Presidente e primeiro--ministro no funeral. Abdicou de ser o primeiro a receber ajuda médica. Nem o 112 funcionava no sábado

A sirene do quartel dos bombeiros voluntários de Castanheira de Pera chamou Gonçalo Conceição pela última vez, ontem às 18h00.

É ele um dos heróis que comoveu o país, no combate ao fogo que despontou no concelho de Pedrógão Grande. Gonçalo, de 38 anos e natural da zona, faleceu no hospital da Universidade de Coimbra, não resistindo aos ferimentos que sofreu quando combatia as chamas de Pedrógão. Até ao funeral, ontem, o seu corpo permaneceu no quartel, ainda com a bandeira a meia haste.

Após o acidente que a sua unidade sofreu, na EN-236, conhecida hoje como “estrada da morte”, quando chegou o primeiro auxílio médico, Gonçalo, que se encontrava num dos estados mais graves, abdicou de ser dos primeiros a receber ajuda.

O choque fora de tal modo frontal que o carro que embateu no veículo em que a unidade seguia terminou capotado e implodido, com um casal civil no interior. Os ferimentos dos bombeiros voluntários decorreram dessa explosão, enquanto tentavam retirar os civis do interior do veículo. Os restantes bombeiros voluntários que estavam com Gonçalo continuam em estado grave devido às queimaduras sofridas. O casal não sobreviveu à explosão.

Ontem, no funeral de Gonçalo Conceição, estiveram o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa; o primeiro-ministro, António Costa; e o líder da oposição, Pedro Passos Coelho. As condolências ao comando do quartel e à família do bombeiro voluntário foram dadas. O cortejo fúnebre seguiu rumo à Igreja de São Domingos.

À entrada no quartel de bombeiros, Marcelo Rebelo de Sousa disse aos jornalistas sobre Gonçalo Conceição: “Era um bom exemplo de solidariedade.” Marcelo comovera-se – pedindo depois “desculpa por isso” – ao saber da notícia do falecimento do soldado da paz. Centenas de pessoas reuniram-se no local.

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues; a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa; o secretário de Estado, Jorge Gomes; o presidente do Partido Socialista, Carlos César; o secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa; a líder do CDS-PP, Assunção Cristas; a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins; e o líder de bancada do PSD, Luís Montenegro, também estiveram presentes na despedida.

Teresa Morais, a vice-presidente social-democrata eleita pelo distrito de Leiria, tem visitado vários locais afetado pelos incêndios desde o fim de semana e também não faltou à cerimónia. Na sessão evocativa em homenagem às vítimas dos incêndios em Pedrógão Grande, ontem na Assembleia da República, o PSD também fizera uma referência direta ao nome do bombeiro herói. Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, caracterizou o defunto como “um homem com uma entrega total aos bombeiros”

O i falou com Ana Morgado, uma sobrinha de Gonçalo Conceição, e os sentimentos sobre a presença política são mistos. “Acho um tremendo disparate que os senhores políticos só saibam onde é Castanheira de Pera quando acontece uma tragédia destas. Quando souberam, devem ter dado voltas à cabeça para perceber que é em Portugal”, exclama.

Depois, mais serena, avalia que “só lhes fica bem terem vindo”. E, finalmente, confessa que “é bom saber que estão do nosso lado”.

Sobre o tio, Ana conta que “sempre que tocava a sirene do quartel, ele ia”. “Vibrava com aquilo e dava sempre o máximo.”

Gonçalo seria um rapaz querido pelos conterrâneos. “Ele era um espetáculo, sempre bem-disposto. Toda a gente gostava dele, família ou desconhecidos.” Tinha um restaurante local, uma churrasqueira chamada “O Assa”, que era a sua alcunha. Um local presente no funeral lamenta ao i: “No sábado, nem o 112 funcionava.”

Gonçalo Conceição era também primo de Mário Cordeiro, colunista do i, que escreveu sobre o familiar: “Conheço a zona atingida porque tenho familiares diretos aí residentes. Estivemos, aliás, até altas horas da madrugada sem saber se estavam vivos ou não – as comunicações estavam cortadas. Sabemos de pessoas que perderam tudo, e um bombeiro meu primo esteve nos cuidados intensivos, acabando por falecer ontem à tarde – há duas semanas estava ele com os meus filhos a montar uma baliza de futebol no aniversário de um primo nosso.”

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