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Pedrógão e Góis a arder. “Fomos abandonados pelos bombeiros”

Pedrógão e Góis a arder. “Fomos abandonados pelos bombeiros”

Miguel Silva Joana Marques Alves 21/06/2017 08:18

Há muitos habitantes de aldeias que se recusam a abandonar as suas casas mesmo que o fogo as esteja a cercar. Dizem que não podem deixar o trabalho de uma vida e que se não forem eles a defender o que é seu ninguém o fará. Tivemos de os deixar à sua sorte...

As notícias diziam que os incêndios estariam controlados na noite de terça-feira. À hora a que lê este artigo, o cenário pode ser completamente diferente, mas quando andámos a percorrer as várias aldeias de Pedrógão Grande e Góis, tudo ardia: 27 aldeias tiveram de ser evacuadas e centenas de pessoas temiam pelas suas casas.

Em Ouzenda, um dos sítios mais fustigados pelo fogo, no concelho de Pedrógão Grande, várias pessoas tiveram de abandonar as suas casas. Muitas não queriam, recusavam-se a largar os seus pertences, o fruto de anos de trabalho. Os mais velhos pediam para ficarem na terra, os mais novos queriam lutar contra as chamas. Algumas pessoas tentavam convencer os residentes a fazer o impensável, um trabalho inglório e que muitas vezes é mal compreendido pelos populares, que chegam mesmo a agredir quem os tenta ajudar.

“Estamos a uns metros do fogo, o vento está constantemente a mudar. Tenho aqui quatro idosas, uma delas com insuficiência respiratória, que foram levadas para a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão”, explicou Anabela Lopes, uma funcionária desta instituição.

Apesar de este ser o seu trabalho, Anabela compreende que muitos não queiram abandonar o que é seu: “Isto é o esforço de uma vida inteira, mas têm de perceber que estamos a fazer isto para a segurança deles”, disse ao i. Esta mulher não consegue precisar o número de pessoas que convenceu a abandonarem as suas casas: “Evacuei Derreada, Louriceira, não tenho noção de quantas pessoas tentei ajudar”.

Com o vento a puxar as chamas para as localidades, Anabela dirige-se a outra casa para convencer um casal de idosos a ir para a vila de Pedrógão. Já sabe que não será um trabalho fácil, mas continua a sua missão, ajudando os residentes mais indefesos. À hora de fecho desta edição, Ouzenda e Louriceira eram dois dos focos mais perigosos, onde o fogo lavrava sem dar descanso a ninguém.

“Ficámos aqui a tomar conta do que é nosso”. Recebemos o alerta: o lugar de Cadafaz, no concelho de Góis, era um dos pontos críticos. Percorremos estradas de alcatrão sem fim, fizemos curvas e contra curvas, conduzimos em estradas de terra batida e cascalho durante mais de uma hora. Apesar de várias vias estarem cortadas, lá conseguimos chegar a esta localidade, uma povoação com apenas umas dezenas de casas e com caminhos muito estreitos.

Pensávamos que todos tinham seguido o conselho das autoridades e abandonado as suas casas. Mas quando saímos do carro para perceber a dimensão do fogo, ouvimos uns gritos vindos de cima – seis homens chamavam por nós, queriam contar-nos o que se estava a passar.

“Fomos abandonados pelos bombeiros e a Proteção Civil. Vieram aqui evacuar a localidade, levaram as pessoas e nunca mais apareceram. A pessoa que está a comandar isto não está a coordenar ninguém, porque há três horas que não aparece uma pessoa aqui. Ainda não arderam casas porque nós estamos aqui a controlar as coisas”, disse um dos homens, que pediu para não ser identificado. “Nós ficámos aqui a tomar conta do que é nosso, não podem mandar toda a gente embora e deixar isto ao abandono. Só apareceu aqui um carro, os bombeiros olharam, deram uma volta e foram embora. Não apareceu mais ninguém. Vimos uns carros a passar numa estrada ao fundo, mas não sabemos para onde eles vão”, afirmou.

A conversa durou pouco tempo. Quando nos encontrámos com estes populares, o incêndio lavrava numa encosta à nossa frente. No entanto, três minutos depois de começarmos a falar com este homem, o fogo já estava a contornar a encosta e a chegar ao nosso lado. Percebemos que tínhamos de sair dali rapidamente. “Venham connosco, o fogo está a dar a volta e vocês vão ficar cercados”. Recusaram. Não queriam abandonar Cadafaz. “Vamos continuar aqui a defender o que é nosso. Vocês é que têm de ir depressa, depois não conseguem sair daqui. Voltem para a estrada de onde vieram e saiam daqui rápido”. Depois de alguns quilómetros em terra batida, a olhar para trás e para a frente, sempre a controlar as chamas, percebemos que o incêndio estava a chegar a Cadafaz. Não sabemos o que aconteceu àqueles homens. Insistimos para que viessem, mas quiseram ficar.

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