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Joaquim Sande Silva. “Não temos analistas de incêndios em Portugal”

Joaquim Sande Silva. “Não temos analistas de incêndios em Portugal”

Diana Tinoco Marta F. Reis 19/06/2017 09:29

Especialista em ecologia do fogo e professor da Escola Superior Agrária de Coimbra ajuda a perceber o que poderia ter sido minimizado no incêndio deste fim de semana. Acima de tudo, defende, falta reconhecer a seriedade do problema em Portugal

Uma tragédia destas poderia ter sido evitada ou minimizada?

Há aspetos que não se conseguem controlar, mas independentemente disso há questões de natureza conjuntural que estão por resolver e que todos os anos se debatem, como o desordenamento da floresta ou melhorar-se o combate - ou porque faltam meios ou falta organização. Há de facto estes aspetos conjunturais que ainda não conseguimos resolver e que fazem com que tenhamos as piores estatísticas de incêndios não é da Europa, é do planeta.

Em que dados se nota isso?

Temos indicadores como a percentagem de área queimada, em que temos a maior área da União Europeia e uma das maiores do mundo, ou a percentagem de ignições por mil habitantes, em que temos o mesmo cenário. A partir do momento em que estamos no topo das estatísticas a nível mundial é porque há alguma coisa que não está bem. Agora a questão conjuntural que leva a esta tragédia… não conseguimos manipular a meteorologia, quando muito talvez conseguiríamos ter algum poder de antecipação relativamente a estes fenómenos. 

Sabendo que havia condições para este tipo de trovoada seca, podia ter-se antecipado melhor o risco de fogo, pedir às pessoas para não circularem em zonas com muita vegetação?

Se calhar não tanto por aí, mas talvez pudesse haver mais prevenção da Proteção Civil e dispositivo de combate, por exemplo preposicionar meios, o que me parece que não aconteceu. Ou alertas à população. De qualquer forma, é impossível dizermos se isso funcionaria de forma inequívoca. Houve um fenómeno semelhante há oito anos na Austrália em que morreram 177 pessoas, uma parte apanhadas nos carros a fugir das chamas. Há fenómenos que não conseguimos controlar nem antecipar a 100%.

As imagens da EN236 onde morreram dezenas de pessoas mostra as árvores muito coladas à estrada. Poderia haver um maior resguardo?

A legislação já prevê que exista uma faixa de 10 metros limpa de vegetação para cada lado da estrada. Isto não quer dizer que se tirem as árvores, mas significa fazer-se uma limpeza do subcoberto, da vegetação arbustiva e herbácea. Se isso estava ou não feito nesta estrada, não sei. Mas o que é facto é que não se faz numa boa parte das estradas do país.

De quem é a responsabilidade?

Cabe às entidades que gerem as infraestruturas, no caso das estradas a entidade gestora, no caso das linhas de alta tensão, a rede elétrica nacional e, no caso das linhas ferro, a antiga REFER, a Infraestruturas de Portugal.

E cortar a estrada, não seria expectável?

Não tenho informações suficientes para dizer se foi bem feito ou mal feito. O que me parece é que o incêndio já decorria há algumas horas e que, se houvesse algum trabalho de antecipação e antevisão de para onde é que o incêndio estava a lavrar, seria possível tomar medidas que evitassem a circulação nestas áreas. Não sei até que ponto é que isso foi feito mas neste momento não existem analistas de incêndios em Portugal - pessoas capazes de olhar para o mapa do fogo, olhar para a meteorologia, para o relevo e para o combustível e fazer esses cálculos.

Não existem porquê?

Não existem por idiossincrasias que não se conseguem compreender. Após os incêndios de 2003 e 2005 foram criados os grupos de análise do fogo e esses grupos foram-se extinguindo e desaparecendo. No ano passado não houve nenhum a funcionar e há dois anos também não. 

Seria uma espécie de gabinete como o que investiga os acidentes aéreos?

Isso seria no pós-incêndio. O que o analista de incêndio faz é, enquanto o incêndio está a decorrer, antecipar quais são as áreas que vão ser queimadas, ajudar a estabelecer medidas de corte de estradas e determinar pontos críticos e oportunidades onde o fogo deve ser atacado para maximizar o ataque.

A Proteção Civil não tem este tipo de peritos?

Não tem. Isto foi uma figura que acabou por morrer com o tempo e os últimos governos não apostaram na sua continuidade. Estive no ano passado na Catalunha e para toda a região havia 70 analistas de incêndios, o que é um território menor que o nosso. Isto mostra a seriedade com que os outros países tratam deste assunto e o amadorismo com que se trata no nosso. Dito isto, nesta altura, em que estamos no calor da tragédia, não vale a pena estar a apontar o dedo a A, B ou C, até porque as condições meteorológicas em que isto acontece foram excecionais.

É comum um incêndio ser causado por uma trovoada seca, quando há raios e não existem aguaceiros?

Ouvi dizer que foi um raio que caiu numa árvore mas tenho dúvidas que tenha sido só uma árvore. Quando há uma trovoada seca geralmente há vários pontos de ignição.

Vários raios? 

Sim. Falando sem conhecimento de causa nesta situação em concreto, o provável nestas situações é haver vários fogos iniciados quase em simultâneo e que depois acabam coalescer e fazem com que o incêndio tome grandes proporções. Isto acontece em vários países e locais e mesmo cá, o pior ano que tivemos de incêndios em 2003 foi precisamente um ano atípico em termos de trovoadas secas e de raios.

Será um efeito das alterações climáticas?

O que podemos dizer é que a meteorologia este ano está em linha com as tendências que têm sido apontadas como efeito das alterações climáticas: um ano extremamente seco, com temperaturas anormalmente elevados, nomeadamente durante a primavera.

Como antevê o verão?

Nada fácil. Há uma secura acumulada nos combustíveis muito grande. Isto que aconteceu entre sábado e domingo sabia-se que havia uma probabilidade grande de acontecer porque era conhecido o grau de secura dos combustíveis. Se o verão for um verão típico, nem precisa de ser extraordinariamente quente, será um cenário muito difícil em termos de incêndios. A questão é: a secura acumulada já cá está. Nós ainda não iniciámos o verão e já estamos com uma secura ao nível de agosto.

E mesmo a área ardida este ano já era, antes destes fogos, dez vezes superior à do ano passado. 

Precisamente. Uma coisa está ligada à outra.

Em relação a medidas simples nesta altura que temos os bailaricos e as festas de verão, como evitar foguetes e fogo, sente que há maior sensibilização da população?

De todo. Ainda ontem estava a ler trocas de insultos a propósito de lançar balões de São João no Porto. Lançar balões de S. João numa situação destas é uma coisa de loucos, de um país de gente inconsciente. Quem diz isso diz os foguetes e outras práticas. Há pouco tempo contaram-me que na Suécia, mal a temperatura subia acima dos 20 graus, interditava-se todo o tipo de fogo na floresta. Isto num país que não tem nem de longe nem de perto os problemas que nós temos. Cá continuamos a encarar tudo com uma grande ligeireza.

No ano passado tivemos os incêndios na Madeira, que geraram um novo debate sobre a prevenção dos fogos. Neste último ano sente que mudou alguma coisa?

Foram anunciadas medidas, foi anunciada uma reforma florestal em que se prevê relançar o cadastro florestal. Mas eu já ouvi falar em relançar o cadastro florestal para aí umas quatro ou cinco vezes, começamos a ficar um pouco céticos em relação a tudo isto.

Alguns bombeiros começam a pedir a antecipação da fase “Charlie”, que só começa a 1 de julho.

E provavelmente vai ser.

Mas muda alguma coisa na prática?

Muda em termos de prontidão dos meios de combate, do dispositivo que é posto no terreno.

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