19/10/17
 
 
Pedrógão Grande. Um fogo que põe tudo em questão

Pedrógão Grande. Um fogo que põe tudo em questão

Diana Tinoco Marta F. Reis 19/06/2017 08:09

Morreram 62 pessoas e o número de vítimas mortais pode subir. O país acordou em choque e seguiram-se vários briefings, que até ao final do dia ainda davam conta de aldeias por visitar

O corpo de uma criança no colo da avó, ambas carbonizadas na estrada EN236 que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira da Pera e que foi consumida pelas chamas. A história de um rapaz de quatro anos que tinha os pais fora do país e perdeu a vida no fogo. Doze pessoas durante toda a noite num tanque de água para sobreviver ao incêndio. Depois de uma alvorada de choque ao perceber que o incêndio grave que levara Marcelo a Pedrógão Grande ao final do dia de sábado se transformara numa das piores tragédias da história do país, os relatos e informações foram chegando a conta gotas, nos briefings das autoridades no centro de comando junto à localidade de Escalos Fundeiros – onde deflagrou o fogo na tarde de sábado – aos relatos na imprensa no local. Marcelo decretou três dias de luto, mas a perplexidade continuará para além disso. A maioria das 62 vítimas mortais ficaram encurraladas na EN236, algumas acabadas de sair da “Praia das Rocas”, uma piscina em Castanheira de Pera, numa sucessão de carros completamente desfeitos. António Costa garantiu que “não houve nenhuma falha que tivesse impedido o despacho de meios”.

À hora de fecho desta edição, o fogo ainda lavrava, com quatro frentes ativas. E o site da Proteção Civil dava conta de praticamente o mesmo número de meios que estavam disponíveis ao início da manhã: 885 homens, 275 viaturas e quatro meios aéreos, onde se contavam reforços espanhóis a que hoje devem juntar-se equipas francesas. Em Góis, o fogo que deflagrou também na tarde de sábado e que se temia que se cruzasse com o incêndio de Pedrógão Grande também ainda não estava controlado, mobilizando 419 homens e 132 viaturas.

O fogo terá sido causado por uma trovoada sem chuva e a PJ chegou a informar ter encontrado a árvore atingida por um raio próxima da localidade de Escalos Fundeiros. Dali, as chamas avançaram na direção de Figueiró dos Vinhos, a sudoeste, e Castanheira de Pera a noroeste. Ao final do dia, houve a indicação de que o fogo já tinha atravessado o rio Zêzere, a sul do epicentro da tragédia, e chegado à zona de Cernache de Bonjardim, a 10 km em linha reta de Castanheira de Pera. Com as linhas móveis constantemente interrompidas, o i chegou à fala apenas com o comandante dos bombeiros de Figueiró dos Vinhos, um dos concelhos mais afetados, que a meio da tarde indicou que o fogo estava em todo o lado. Em Pedrógão Grande, informou o autarca no local, ardeu 95% do território.

Resistências a sair de casa Um dos apelos da ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa foi para que a população não resistisse a abandonar a sua casa, um dos problemas com que as autoridades se confrontam neste tipo de incidentes. Esse mesmo testemunho foi dado ao i por uma mulher que deixou a casa na aldeia de Vergeira, Pedrógão Grande, pelas 23h de sábado, mas não conseguiu convencer os pais a acompanhar a família para longe do perigo – e só durante a tarde de ontem esta localidade foi socorrida pelos bombeiros. Ao final do dia, as autoridades indicaram que já tinham sido retirados todos os corpos mas que continuava a haver locais por visitar. Foram evacuadas cinco localidades.

Entre quem escapou, alguns não sabem como. Nuno passou o sábado na piscina de Castanheira de Pera. Saiu pelas 18h55. “Ainda hoje nos questionámos porque saímos mais cedo da praia pois a nossa intenção era ficar a jantar por lá”, contou ao i. Ainda não havia fogo na EN236. “Ao passarmos Figueiró dos Vinhos apercebemo-nos da proximidade do fogo ao nó que dava acesso ao IC8. Vimos um carro do INEM no IC8 e um carro dos bombeiros ainda e Castanheira de Pera. Nunca chegámos a pensar na tragédia que infelizmente veio a suceder”.

As respostas, espera que a imprensa as ajude a dar, nos próximos dias. Além das vítimas mortais, contam-se mais de 60 feridos, socorridos em Coimbra e em Lisboa, alguns transportados para unidades de queimados. Foram montados centros operacionais da Segurança Social em Pedrógão Grande, Avelar, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera.

Como ajudar

• O ponto de entrega de ajuda para os bombeiros em Lisboa é o quartel do Largo Barão de Quintela. Precisam de água e barritas de cereais, mas também de soro fisiológico e compressas

• A União das Misericórdias criou uma conta de solidariedade para apoiar a população afetada. IBAN PT 50 0036 0000 99105922157 78.

• A Gulbenkian criou um fundo de 500 mil euros para ajudar a população de Pedrógão Grande.

• O treinador André Villas Boas foi das primeiras figuras públicas a manifestar publicamente o seu apoio. Irá fazer um donativo de 100 mil euros.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×