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Al Berto. Deixar o coração como osso

Al Berto. Deixar o coração como osso

Diogo Vaz Pinto 18/06/2017 12:28

Passados 20 anos sobre a morte do poeta, não é preciso lembrar uma obra que ninguém esqueceu, e que, para isso, pôde prescindir de todos os subsídios de inserção académicos.


Já vai longa a noite. E se parece ter sido há bastantes anos, as vontades são as mesmas, os tempos pouco mudaram. Dezassete de janeiro de 1992: num regresso à cidade onde nasceu, Coimbra, Al Berto prepara-se para ler numa sessão para a qual ele e outros poetas foram convidados no bar da associação de estudantes (Centro Cultural Dom Dinis). Com ele, antes dele, tinham lido Manuel Fernando Gonçalves, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre... faltava ainda Paulo da Costa Domingos. Mas não se podia. O barulho não deixava. Os estudantes queriam lá saber dos poetas.

Sobrevive o registo áudio, e ouve-se melhor o poeta hoje, a irritação e a tristeza que tem deixado tão claro que «se for um merda com uma guitarra, que faz três acordes, vocês estão em silêncio porque se curte e é imensamente bom para a carola. A poesia, pá, lamento... Boa ou má, talvez não fosse má ideia ouvir. E suponho que há montes de gente nesta sala que nunca abriu um livro de poesia sequer.»

Ainda tenta abstrair-se do ruído, ler alguns poemas, e lê-os admiravelmente. Al Berto era um desses raros poetas para quem tudo estava em relação, a voz  como «um dardo envenenado», na consciência a dor viajada de uma caravana circense entre aldeias. Era dos tais cuja atenção provoca um íntimo alarde a quem e àquilo que lhe recebe o olhar, dos que, com tão pouco, forçam fechaduras, dominando o modo como a pronúncia desta língua basta, o seu organismo como uma serpente envolvendo e apertando sem estrangular os membros, a pulsação e os sentidos, medindo a respiração com a graça dessas sílabas que sabem mais do que a música. Assim, os seus poemas tinham uma rara qualidade cinematográfica: via-se um homem desenterrando uma ordem espantosa de coisas de um baldio qualquer. «dizem que a paixão o conheceu / mas hoje vive escondido nuns óculos escuros/ senta-se no estremecer da noite enumera / o que lhe sobejou do adolescente rosto/ turvo pela ligeira náusea da velhice// conhece a solidão de quem permanece acordado / quase sempre estendido ao lado do sono (...) dizem que vive na transparência do sonho/ à beira-mar envelheceu vagarosamente/ sem que nenhuma ternura nenhuma alegria/ nenhum ofício cantante/ o tenha convencido a permanecer entre os vivos».

Lia este poema a essa noite, a esta mesma que nos espera mais logo, território sinistro onde só pode florir um certo nojo de um quotidiano que à maioria inspira um desejo de fuga ou apagamento, arrastando tudo consigo. Insultado, o poeta não se fica. Outros há que o aplaudem. Apesar de tudo, desde há um bom tempo que o país se parte em metades, e por mais barulho que uma faça, a outra está farta, cansada dessa exuberância ordinária. «Não pensem que me vou embora sem dizer meia dúzia de coisas (...) tenho imensa pena da vossa ignorância, ou da ignorância de alguns. E as outras pessoas que aqui estão também. Não estou sozinho, não estou, felizmente não estou sozinho!» É vaiado, mas logo pressente como também isso, um dia, se virará em seu favor. «As vaias fazem parte também de uma paixão, do mito. Muito obrigado. Eu só trabalho para o meu mito, mais nada. Agradeço àqueles que me vaiaram porque estão a contribuir para isso, largamente, nesta cidade, onde eu nasci (...)».

Hoje, ouvindo a gravação, quem negará que aquela noite lhe pertence inteiramente? Que copo seguram hoje na mão os que o vaiaram vinte anos sobre a sua morte? Al Berto soube enraízar o mito naquela e noutras cidades, a sua raiva passou várias vezes pelo coração, de modo a que também este tenha ficado como um osso, no núcleo da sua memória, uma sombra desarmante num sonho cada vez maior.

 

‘Contratar o suicídio’
Al Berto, como toda a gente sabe, morreu aos 27 anos juntando o seu retrato furiosamente jovem e belo à galeria do clube dos 27. Disparando sobre os anjos que lhe faziam um cagaçal no telhado, com um tiro de caçadeira na boca matou-os a todos depois de ter puxado fogo à floresta. Ou talvez tenha esperado, numa agonizante simpatia por Alberto Raposo Pidwell Tavares, a quem a morte visitaria no dia 13 de junho de 1997. Esse, apesar de novo,  ficando aquém dos 50 anos, viu uma morte lenta chegar-se. Um linfoma fez o trabalho sujo, mas como notou Agustina, ao dar a impressão da vez em que se cruzaram, «há pessoas que contratam um suicídio logo que nascem. Há um prazo para comparecerem, seja pelo efeito duma doença, ou dum desastre. Não pensam sequer em faltar, dar desculpas, atrasar o relógio. Vê-se-lhes nos olhos que obedecem a um prognóstico perigoso, o prognóstico da infância perdida».

Perdeu o pai muito cedo, cresceu vigiado pelas antigas tradições, a severidade dos avós ricos, e Sines, a cidade que mais o teve, viu dele uma infância debaixo de regras estritas, que dele fizeram um bom exemplo para os memoráveis versos de Jorge Fallorca: «A criança é um incêndio atrás do prato de sopa./ Fecha-se no quarto e apercebe-se que está nua. Descobre estupefacta o sexo, que o espelho devolve com insistência. O quarto é uma flor venenosa, onde a criança se masturba, atónita./ Depois abre a janela e canta:/ cantará assim pela vida fora, à janela, como um crime cheio de ternura.»

Pelo fim da adolescência, chega a Lisboa, iniciando a formação artística na Escola António Arroio, e frequentando também a Sociedade Nacional das Belas Artes. Mas dois anos depois, em 1967, sai de Portugal, primeiro para prosseguir a formação em artes plásticas, passando depois à condição de exilado, de modo a escapar à incorporação militar e à consequente ida para a Guerra Colonial. Só regressa definitivamente ao país mais de um ano após a revolução. Depois veio a desilusão, etc. A liberdade, sim, claro, mas cuidado que... Por agora também chega disto de ir saber de um homem e acabar com as indicações do registo burocrático.


‘Toxicodependente verbal’
Entretanto, Al Berto tinha já feito esse lanho no nome próprio, assumindo o pseudónimo e transportando a experiência plástica para a escrita, sentindo que esta lhe sombreava mais lealmente o fôlego. Os textos eram menos fórmulas em busca de um qualquer acerto alquímico e sobretudo grandes movimentos, a força abatendo a forma, rebentando os vasos gregos, da sensualidade ao estupro. Se se falava então e depois de uma marginalidade pósbeatnick, Joaquim Manuel Magalhães seria dos primeiros a assinalar como «a intensidade justifica[va] esmagadoramente um certo atraso da importação processual e algumas fraquezas vocabulares».

Al Berto, que a par do trabalho como poeta desenvolveria um singular e marcante, ainda que breve, percurso editorial, à margem das lógicas reinantes, publicou textos seus como de outros que lhe faziam valer a paixão, com recurso a proveitosas experiências artesanais; soube valer-se dos exemplos de aberturas decisivas que chegavam de toda a parte, do cinema como da música, dos aspectos mais transgressivos da literatura, misturá-los sem os selar nalgum laboratório. 

Esta poesia não olhava tanto a metas nem a destinos como a bestiais largadas, aquele tiro atroador, a nuvem de pó, a terra a crescer tremida, os elementos enfebrecidos por variações narcóticas... Tínhamos enfim entre nós um ser que parecia imune ao cinismo, doença já então demasiado comum, e que nos momentos de pura pulsão instintiva abandonava os textos sem possibilidade de grande correcção, para uma ressaca desse estado de «toxicodependência verbal», que Manuel de Freitas assinalou. Mas era uma poesia em frémito, estrepitosa, que avassalava os períodos gramaticais, dando passagem a um fluxo que parecia ter no topo das suas influências os próprios acidentes naturais, o modo como as avalanches se precipitam. Não era uma escrita que defendesse qualquer território, mas uma para levantar motins, ser consequente com a lição do desregramento de todos os sentidos.

As mesmas mãos que escrevem sabem o que fazer com o sexo, tocaram o corpo e decoraram-lhe as regiões firmes, os ângulos vulneráveis, e a boca que lê é a mesma que chupa, que engole ou grita de êxtase. As drogas duras são obtidas das fixações da alma, do modo de lançar o espírito como rede e apanhar essas miudezas cristalinas que servem de alimento ao mito e contra a morte. Al Berto é, porventura, o poeta que mais alto fala e se ouve no exterior das quatro linhas onde se joga a partida entre os cansativos e apagados personagens deste «circuito mesquinho» que é o meio literário português. A sua aventura, com toda a mágoa e raiva, com todas as fraquezas e todo o seu impudor narcísico («é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos»), marca uma linha de renovação que ainda pede braços, mãos como feras trazendo à fome um acento lírico, capazes de dilacerar tudo o que sejam animais de aquecer o colo, versos como baloiços de cuspo, poses ensaiadas do berço à cova, o terço para orar à mosca da morte. Al Berto não escreveu uma só linha para os anais do bom gosto, e se tantas vezes falhou espectacularmente, o seu ridículo é tantas vezes mais audaz e inspirador que todo o acerto de que são capazes os poetas que morreram trancados a decidir se põem ou tiram a vírgula.
 

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