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Lisboa. Vozes contra desertificação e overdose de turismo sobem de tom

Lisboa. Vozes contra desertificação e overdose de turismo sobem de tom

Raquel Wise Sónia Peres Pinto 16/06/2017 11:44

Há cada vez mais casos de moradores de bairros históricos a serem expulsos das suas casas. O mais recente é o que se vive num prédio da Mouraria em que 16 famílias estão a enfrentar uma ação de despejo

O crescimento do turismo principalmente nas grandes cidades, como Lisboa, tem vindo a soar alarmes. E alertas não têm faltado nos últimos dias: desde declarações que apontam para que Lisboa seja vítima do seu próprio sucesso turístico até à overdose de turistas na capital a compará-la com Bombaim. Ainda assim há quem continue a olhar para este fenómeno como se fosse uma tábua de salvação da economia portuguesa.

O presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), Elísio Summavielle, admitiu ao SOL que às vezes senta-se na esplanada d’A Brasileira e pergunta, por brincadeira, se “ainda servem portugueses”. Para o responsável, a cidade tem que se estender a outras zonas porque “o centro Baixa-Chiado já esgotou” e “já é raro encontrar portugueses na rua”.

Elísio Summavielle chega mesmo a dizer que “há uma overdose de turistas e Lisboa parece Bombaim” e, como tal, acredita que o Porto está mais a tempo de travar esta invasão turística.

Também para uma das comissárias da 6.ª edição do Open House – evento organizado pela Trienal de Arquitetura de Lisboa desde 2012, em parceria com a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) –Lisboa “pode ser vítima do seu próprio sucesso” no turismo, se não forem tomadas medidas de proteção do património”, defende Rita Almada Negreiros.

No entender da arquiteta, “a proteção do património e a defesa dos nossos valores é fundamental para não perdermos a nossa alma”, como cidade.

Aliás, estes alertas também tiveram eco na música da marcha de Alfama, a vencedora deste ano. “Não toquem na minha Alfama” foi o tema vencedor ao defender a tradição e as raízes daquele bairro histórico.

João Ramos, coordenador da marcha, explicou que esta era uma forma de chamar a atenção para os efeitos da nova lei do arrendamento e para o aumento do turismo, afirmando ainda que muitas das pessoas que viviam em Alfama “tiveram de sair por causa do aumento incomportável das rendas”.

Sobre o turismo, João Ramos esclareceu que “os moradores não são contra o turismo, o turismo representa algo importante para a economia local”. No entanto, lamentou “a desertificação” e deu um exemplo: “Só nos resta uma escola primária e estamos a falar não de uma freguesia perdida no meio do país, estamos a falar de uma freguesia de Lisboa”, acusou.

Queixas antigas

A verdade é que estes alertas de desertificação na capital não são novos. A explosão de oferta de casas para alojamento local tem vindo, nos últimos meses, a motivar várias queixas por parte dos moradores, principalmente dos bairros históricos. Estes têm acusado os proprietários de fazerem pressão para saírem das casas arrendadas.

A ideia é simples: os proprietários querem os imóveis para os explorarem no mercado de arrendamento local, um negócio considerado mais atrativo financeiramente. Essas acusações são transversais nos vários bairros históricos de Lisboa, que são os principais alvos de visitas por parte dos turistas. É o caso, por exemplo, do Bairro Alto, Bica e Alfama.

Esta explosão do alojamento local no centro histórico da capital é também um problema para a autarquia, que quase diariamente recebe queixas de moradores pressionados pelos senhorios a saírem das casas onde sempre viveram. Os moradores afetados pedem uma maior regulamentação e legislação que limite a proliferação desmedida dos alojamentos locais e hostels e, ao mesmo tempo, defendem o licenciamento zero para o centro histórico de Lisboa.

O mais recente exemplo disso é o que está a acontecer na Mouraria, em que 16 famílias – num total de 40 pessoas – estão a ser despejadas depois do imóvel ter sido vendido a um investidor que pretende abrir um espaço de alojamento local. Os moradores prometem “continuar a lutar até ao fim” para ficar no bairro”.

A vereadora da habitação da Câmara de Lisboa, Paula Marques, já veio garantir que está “solidária com os moradores”, assegurando que a autarquia “não vira as costas aos moradores”. E acrescentou: “Estamos atentos e ativos no que toca à situação das famílias da rua dos Lagares e de outras semelhantes”, considerando que “o que se passa com estas famílias é o resultado da lei do arrendamento urbano, responsabilidade do anterior governo PSD/CDS”.

 

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