16/8/17
 
 
Juan Goytisolo, morreu o escritor no braço-de-ferro de um contra todos

Juan Goytisolo, morreu o escritor no braço-de-ferro de um contra todos

Diogo Vaz Pinto 11/06/2017 14:25

A morte faz um bem danado pelo reconhecimento daqueles escritores que não entendem a literatura senão como a arma e a perícia no seu manejo, que leva a que um homem sozinho se desdobre em ecos e cerque o castelo, o seu país, a consciência conservadora e de classe, tudo aquilo que imprime a moral distorcida que serve de afirmação aos grupos.

Juan Goytisolo morreu há uma semana em Marraquexe (Marrocos), destino último e decisivo de um exílio de décadas, que começou em 1956, em Paris, e se prolongou até 1969, passando depois seis anos nos EUA, onde foi professor de Literatura nas universidades da Califórnia, Boston e Nova Iorque. Em Espanha, todos lhe rendiam homenagens, e os reis lamentaram a morte do escritor, com a Casa Real a afirmar que «a literatura está de luto», mas que a sua obra «acompanhará sempre» a língua espanhola. Mas se o ministro da Cultura, Inigo Mendez de Vigo, o comparou ao maior escritor espanhol de todos os tempos, Miguel de Cervantes, Goytisolo, que em 2014 foi galardoado com o prémio Cervantes – o Nobel do mundo hispânico –, nunca deixou ele mesmo de lembrar a forte resistência que impediu que este lhe fosse dado mais cedo e como, mesmo em 2014, foram precisas sete votações antes de o prémio lhe ser atribuído. Razões para isto há inúmeras, mas o escritor destacava a sua «oposição ao canône literário nacional católico».

Com 86 anos, o estado de saúde de Goytisolo era frágil, sofria de várias doenças, mas, de acordo com a informação da sua agência literária, Carmen Balcells, morreu de causas naturais. Os jornais espanhóis ecoavam a noção de que se perdera uma voz dissidente, com repercussão internacional, destacando o seu papel enquanto interlocutor entre a cultura europeia e a islâmica. Numa entrevista ao DN em 2014, referiu a influência da cultura árabe não só em Espanha como em Portugal, sublinhando o caráter mudéjar da literatura castelhana e catalã durante três séculos. Sendo um especialista na obra de Cervantes, defendia que o aspeto mais inovador não se prendia com a expansão do romance de cavalaria, mas com a forma como se inspirou n’As Mil e_Uma Noites, e como «adaptou  essa tradição literária oral e transformou-a num grande romance moderno».

Nascido em Barcelona, em 1931, a sua família tinha uma situação confortável que a Guerra Civil veio perturbar. O seu pai, José María Goytisolo, um conservador com laços à aristocracia basca, chegou a ser preso pelos Republicanos pouco antes da batalha final em que soçobraram face aos rebeldes nacionalistas de extrema-direita. Irmão do poeta José Agustín Goytisolo (1928-1999) e do escritor e académico Luis Goytisolo (1935), Juan, depois de estudar Direito e de ter iniciado carreira literária com uma série de romances realistas, escolheu o exílio. Anti-franquista, num volume de ensaios publicado em 1959, Problemas de la Novela, esteve ao lado dos intelectuais que defendiam então uma literatura capaz de enfrentar as injustiças sociais. Mas em meados da década seguinte, com Señas de Identidad, o primeiro romance de uma trilogia em que se mete pelo terreno da autoficção – sendo um dos grandes precursores daquele que pode ser considerado o género dominante do que já levamos do século XXI –, confrontando-se com 700 anos da História do seu país e no qual se liberta da abordagem que defendera antes.

Numa escrita marcada pela rutura, Goytisolo aproximou-se do fluxo de consciência, adotando técnicas de colagem então em voga devido às influência vindas do cinema, e assumiu uma atitude cosmopolita, atacando ferozmente não apenas os tiques da língua espanhola, as convenções linguísticas e culturais, como as do romance, da poesia e do teatro. Com um fôlego impressionante, a sua obra encheu e transbordou as fronteiras entre os diversos géneros, passando inclusivamente pela reportagem, tendo colaborado durante décadas no El País, do qual foi correspondente de guerra na Chechénia e na Bósnia.

Em Portugal, pouca coisa foi publicada – Paisagens Depois da Batalha (1988) e Espanha e os Espanhóis (2008) – e os ecos que a sua obra obteve, como é regra, são praticamente nenhuns. Depois da trilogia, em que Goytisolo se vinga de todo o sofrimento pessoal e cultural que as suas raízes nunca deixaram de lhe provocar, a experiência do exílio, como a da homossexualidade, levaram-no a explorar os temas da alienação e desterro, da opressão política e sexual, em narrativas que aludiam dolorosamente ao que não deixava de ser a sua desesperada ligação a Espanha.

O crítico William Grimes, no obituário que lhe dedica no The New York Times, refere como, à semelhança do seu herói literário e amigo Jean Genet, Goytisolo se tornou num inimigo declarado de todo o tipo de definições, causas e ortodoxias. No primeiro dos seus dois livros de memórias, descreve o escritor esse exemplar de uma estranha espécie que ninguém reclama, que vive à margem de tudo e cuja virtude nasce da sua hostilidade a tudo o que sejam grupos e categorias.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×