15/1/21
 
 

Os invisíveis

No momento em que choramos as vítimas de Londres é preciso lembrar que há mortes escondidas e invisíveis alimentadas por ideias e silêncios que tornam o mundo um imenso campo de batalha 

Em maio passado, uma revista divulgou gravações da Guarda Costeira italiana datadas de 11 de outubro de 2013. Esses registos, dado o seu conteúdo, foram partilhados e noticiados um pouco por todo o mundo. Nas redes sociais, às partilhas sucederam-se os comentários. Os que se seguem, mantendo a grafia e os erros, ortográficos e outros, são de uma página brasileira onde o vídeo foi divulgado. 
 
– Qual é o problema a bordo?
– O barco está-se a afundar, eu juro. Tem quase meio metro de água.
– Ok, qual é o seu nome?
– O meu nome é Mohamed Jammo, sou médico. Sejam rápidos, sim senhor, a água está a entrar. 

Marcos Merci: “Recomendo que vejam videos sobre imigrantes refugiados na europa, e vejam como eles querem impor sua religião lá, chegando até cometer bullyng com cristãos nas escolas...”
Rode Esequiél: “Como eu disse lugar de Sírio é na Síria” 
Juliana Teixeira: “Sinto muito mas já chega dessa imigração forçada de muçulmanos para a Europa!!!!...estão destruindo a Europa...pq não fogem para outros países que também são muçulmanos???”

– Por favor apressem-se, por favor apressem-se.
(…)
– Vocês mandaram alguém para nos ajudar? Somos sírios, cerca de 300.
– Senhor, eu dei-lhes o número de telefone das autoridades de Malta. Porque vocês estão perto de Malta, perto de Malta. Entende-me?
– Perto de Malta?
(A Marinha italiana tinha barcos a poucas milhas. Durante cinco horas, as autoridades italianas e de Malta não fizeram nada a não ser passarem aos náufragos os contactos telefónicos dos responsáveis vizinhos.)

Felipe Maia: “Refugiados chegam em outros paises e ao invez de se adaptar a cultura local, Doutrinam o pais com sua Cultura xula e desprezivel”
Fabiola Barreto: “Leve vários sírios p sua casa, mas não me venha com esse papinho de aprender a ser humano!”
Benício Ana: “Cara entendo a sua indignação mas vc tem que raciocinar cara colocar esse seu celebro para funcionar ninguém é burro então vc não é burro só é um pouco lento para aprender essas pessoas morreram porque sao lentas para aprender igual a vc se calcula lá no oriente médio vários países visinho dá sírio exemplo Iraque, Irá, Arábia saudita e muitos outros com o mesmo indioma e porque essas pessoas não foram para lá porque tem que vir para a Itália trafesar o mar e perigoso e não querem morrer para mim tem coisa errada então colega não tenho nenhuma do tão pagando oque eles fizeram com o povo de Deus no passado”. 

– Eu telefonei para Malta, disseram-me que estava muito mais perto de Lampedusa que de Malta. Nós nem sequer temos capitão da embarcação. Ele fugiu.
– Telefone para Malta. Telefone para Malta. Você está a ligar para Itália, Itália. Tem é que ligar para Malta. Você tem é que ligar para Malta.

 


 
Cinco horas depois, o barco virou e afundou-se, levando para o fundo do mar quase 300 pessoas, das quais 60 crianças. 

Nem Liton: “Cada um com seus problemas, se começarmos a trazer tudo que é imigrante por causa disso ou aquilo, teremos que ir embora do Brasil pra dar lugar pra eles, pois aqui já está faltando de tudo pra muita gente, onde iremos alojar e manter tanta gente?
Sou contra trazer esse povo pra cá! Bolsonaro 2018!
E quem não concorda comigo, problema seu, mané!”
João Marcos: “Pode e o fiserao ninquen precisa dar abrigo ou socorro pra terroristas nao provaraon un poco do próprio venono”.

– Sou oficial de serviço, estou a ligar para dizer que um avião viu o barco a virar. As pessoas estão a tentar manter-se à tona da água. O barco virou. O barco com imigrantes afundou-se.
 
Philippe Miki:“Na verdade pode ter evitado um monte de estupros e ataques terroristas. Contando quem morreu.” 

Foi a 8 de maio de 2017 que a revista Italiana “L’Expresso” revelou cinco gravações da Guarda Costeira italiana. Durante mais de cinco horas, apesar dos pedidos desesperados das pessoas de uma embarcação que levava mais de 300 refugiados sírios, os italianos nada fizeram, deixando morrer 268 pessoas, entre as quais mais de 60 crianças. As gravações publicadas pela revista demonstraram uma inépcia convertida em política de Estado para matar aqueles que tentam cruzar o mar. As vozes dos refugiados sírios a implorar auxílio e as respostas burocráticas da Guarda Costeira italiana foram reproduzidas em muitos sites, espalharam-se nas redes sociais e foram comentadas por milhares de pessoas. Centenas de comentários reproduziam, com mais ou menos erros ortográficos, comentários como estes que leram, que justificam estas mortes como uma necessidade de proteger a Europa e pregam que, se fosse necessário, se devia disparar contra as embarcações para as afundar. 

O mar Mediterrâneo tornou-se um imenso cemitério daqueles que procuram refúgio na Europa para fugir à guerra, ao horror e à fome. Mais de 3 mil morrem todos os anos. Muitos fogem a guerras, muitas delas ateadas pela própria Europa e pelos seus aliados da Arábia Saudita, a quem os EUA e seus aliados europeus vendem centenas de milhares de euros em armas, usadas posteriormente nos campos de batalha da Síria, Iraque e Iémen. 

A operação ideológica, que permite o silêncio e a indiferença durante este massacre sem fim, é aquela que faz dos outros, aos nossos olhos, não humanos, e como tal podem morrer sem piedade, sem nos fazer verter uma lágrima. Há nas nossas vidas e nos nossos jornais uma aritmética assassina que diz que alguns mortos são mais iguais que outros. Se eles morrerem em Londres, Paris, Nova Iorque, é um acontecimento terrível, uma tragédia que merece a multiplicação solidária de “Je Suis” por todo o lado. E merece: todas as mortes trágicas de gente inocente às mãos de imbecis fundamentalistas merecem a nossa dor. Merecem que façamos justiça e castiguemos os assassinos. Mas não pode haver dois pesos e duas medidas para os crimes. As mortes que acontecem no Médio Oriente, na Ásia, em África, de muitos milhares, em guerra ou em fuga, provocadas muitas vezes por mão ocidental, têm de nos provocar igual indignação. Esta falta de empatia só acontece porque as pessoas ditas civilizadas pensam que os mortos no Mediterrâneo e aqueles que morrem sob as bombas ocidentais são subgente marcada para morrer. E quantos menos houver, melhor. Este racismo humanitário que divide o sofrimento humano em intolerável, desde que branco e cristão, e normal, desde que essa dor esteja em todos os outros com todas as outras cores da humanidade, é o sustentáculo deste massacre permanente e de uma guerra sem fim. O terrorismo fundamentalista religioso, os bombardeamentos, o racismo e a xenofobia são irmãos gémeos que se alimentam mutuamente. Alimentam-se da discriminação dos imigrantes, do afogamento dos refugiados, da miséria e do apoio aos tiranetes locais do Médio Oriente.

Quando se olha para as listas de quem cometeu atos de terror nas cidades da Europa, verifica-se que a esmagadora maioria dos autores destes atos não vêm do Médio Oriente. Não viveram fora da Europa. São gente que aqui nasceu. E a sua “radicalização” fez-se aqui. Foi aqui que bateram com a cabeça nos muros de uma sociedade hipócrita e desigual. Foi aqui na Europa que estes monstros foram produzidos. Nada torna perdoável a morte de gente inocente. Mas para extirpar a violência há que destruir as suas raízes, estejam elas onde estiverem. E elas estão muitas vezes aqui mesmo. 


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