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Spinners. O hula hoop da geração z até vir a próxima moda

Spinners. O hula hoop da geração z até vir a próxima moda

João Biscaia Marta F. Reis 26/05/2017 12:52

Na Amazon ocupam praticamente todo o top-50 dos brinquedos mais vendidos. Os benefícios estão por demonstrar, mas são a brincadeira mais popular do momento.

Os armazéns com carateres chineses sucedem-se no complexo de edifícios na Rua Conselheiro Emídio Navarro, por detrás da RTP, em Lisboa. É dali que têm saído milhares de fidget spinners em destaque nas montras das lojas de artigos chineses. São o brinquedo da moda e a tendência é notória no epicentro dos armazenistas que abastecem a capital e arredores: à porta dos armazéns há dezenas de caixotes com os pequenos giradores que tomaram de assalto os recreios.

É difícil apanhar quem fale português ou esteja disposto a conversar, mas assentem, sem grandes detalhes, que é o artigo mais vendido. O produto começou a chegar “há 20 dias”, disse ao i um funcionário de um dos armazéns. “Quantos vendem por semana, mil?”, insistimos. “Muito mais.”

Nos grossistas, os preços começam em 2,50 euros para os spinners mais simples. Há depois os mais coloridos e com formatos diferentes, que saem mais caro. Nas lojas encontram-se a partir de 4 euros e têm feito sucesso junto de crianças e adolescentes. Desde que se tornaram moda um pouco por todo o mundo, não há propriamente números sobre vendas, mas têm feito correr tinta. Depois de começarem a ser vendidos pelas marcas locais de brinquedos, as alternativas mais baratas tendem a aparecer 30 a 60 dias depois, analisou na BBC Richard Gottlieb, da consultora Global Toy Experts. A próxima moda virá certamente, mas Gottlieb não vê ainda sinais de qual será. Para o especialista, o fenómeno tem uma explicação: são giradores para mãos inquietas num mundo em que as pessoas, no geral, se sentem ansiosas. “Temos o Brexit, várias eleições, Donald Trump, Coreia do Norte... É uma boa altura para vender qualquer coisa que ajude a libertar algum stresse.”

A história do fenómeno

Em dezembro, a “Forbes” declarou-os o “brinquedo obrigatório” de 2017, mas nem se estava a referir às crianças. Tratava-se do passatempo ideal para o escritório.

Em causa estavam não os spinners que têm alimentado competições de truques entre os mais novos, mas um cubo que segue a mesma lógica e permite entreter os dedos de várias formas, seja a rodar ou a carregar em botões – o tal fidgeting que tem uma tradução difícil em português mas que resume, por exemplo, aquela inquietude dos dedos que leva a procurar consolo nas molas das canetas ao falar ao telefone ou a pensar.

No início deste mês, o “New York Times” chamou-lhes o “hula hoop da geração z”, já uma referência aos miúdos nascidos desde a segunda metade dos anos 90 até 2010, e lembrou a cronologia do fenómeno. Tudo terá começado em 1993, quando uma mulher da Florida, portadora de uma doença autoimune que a deixava sem forças para brincar com a filha de nove anos, de-senvolveu um protótipo para que a criança se distraísse.

Catherine Hettinger tem sido considerada a precursora dos atuais giradores, embora o objeto inicial não fosse exatamente igual ao que se tornou o brinquedo mais popular do momento.

Numa entrevista ao “Guardian”, Hettinger explicou que manteve a patente do brinquedo durante oito anos, até deixar de conseguir pagar a taxa anual de 400 dólares. Chegou a tentar vender a ideia à Hasbro, mas o projeto não avançou. Entretanto vendia spinners em feiras de artesanato e sentia procura. Uma professora que trabalhava com crianças com necessidades especiais disse-lhe uma vez que o jogo as acalmava.

Outra pessoa que entretanto reclamou alguma autoria da ideia foi Scott McCoskery. Em 2014 inventou o Torqbar – este idêntico aos modelos em voga – e chegou a lançar uma campanha de angariação de fundos na internet para avançar com a produção. McCoskery trabalhava numa empresa de tecnologias de informação e ia com frequência a reuniões. “Carregava em canetas, brincava com qualquer coisa nos bolsos”, explicou. Daí surgiu a ideia de inventar alguma coisa que desse para manusear e causasse a mesma sensação.

Nem Catherine Hettinger nem Scott McCoskery tinham em mente resolver problemas de autismo ou hiperatividade, mas a ideia de que os giradores ajudam a reduzir os sintomas quer em adultos quer em crianças tornou-se parte da publicidade das diferentes marcas disponíveis no mercado. O top-50 dos brinquedos mais vendidos da Amazon praticamente não tem outra coisa e muitos trazem essa referência.

Não é certo quem terá começado a espalhar a mensagem e não há propriamente estudos que demonstrem a eficácia dos spinners, apenas investigações mais amplas que demonstram que o movimento de rotação e a atividade física no geral ajuda as crianças com défice de atenção e hiperatividade. Mas uma das posições de incentivo chegou de Carol Povey, da Sociedade Americana de Autismo. “Ruído de fundo ou cheiros podem tornar difícil a uma criança com espetro de autismo concentrar-se no que o professor está a dizer, e ter um objeto para se concentrar que gira pode ajudar a gerir essa carga sensorial e ansiedade”, explica.

São várias as teorias: de que o movimento ocupa partes do cérebro que de outra forma se distrairiam com outros estímulos, que este tipo de rituais ajuda a acalmar ou mesmo que brincar com os dedos ajuda a reforçar ideias, no fundo como quando fazemos rabiscos numa reunião. Sabe-se também que alguns comportamentos ansiosos estão ligados a mais movimentos involuntários que encontram resposta neste tipo de objetos. Um trabalho divulgado em janeiro, com uma pequena amostra de 11 doentes com anorexia nervosa, revelou que em situações como almoçar, preencher questionários ou ver televisão, eles mexiam-se mais (os sensores foram colocados nos pés) do que as pessoas saudáveis que participaram no estudo como controlo.

Se a ciência por detrás do efeito dos giradores, em si, está por demonstrar, o facto é que há muito que não havia um brinquedo viral tão galopante nos recreios das escolas, isto se se excluírem os telemóveis. “80% dos meus alunos têm spinners, até os do secundário”, disse ao i João Paulo, professor de História. “Há quem diga que estão mais calmos, eu não acho. Como não podem andar com os telemóveis no tempo de aulas, agora andam com os spinners.”

Nas aulas há quem tente usá-los, mas os professores passaram a recolhê-los. “O que se nota é que muitas vezes não conseguem fazer um uso racional e parar quando têm de parar.” Nos EUA, algumas escolas já criaram zonas livres de spinners (como no ano passado, perante a febre da app Pokémon Go, houve espaços a declararem-se livres de pokémons).

Ana e Rosa, alunas do 8.o ano de uma escola dos Olivais, passam junto aos armazéns onde se vendem spinners. Ainda não tiveram curiosidade de se juntar à moda, mas contam que há umas semanas que praticamente só se vê daquilo no recreio, sobretudo entre os mais novos. Na turma delas, só têm um colega que arrisca brincar na sala de aula. “Acho que começou para ajudar crianças autistas”, explica uma delas. Numa entrevista à BBC, a psicóloga infantil Amanda Gummer defendeu que uma das vantagens do fenómeno poderá ser ajudar a tirar algum estigma a brinquedos que, até aqui, eram sobretudo usados nas atividades com crianças com necessidades especiais. Para Rosa e Ana, uma coisa é certa: chegaram há pouco tempo, mas parecem estar em rota descendente. “Começa a passar um bocado”, atiram.

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