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Gary Snyder. A suave persuasão de um selvagem

Gary Snyder. A suave persuasão de um selvagem

Diogo Vaz Pinto 25/05/2017 13:44

“Nada Natural” marca a primeira vez que o poeta mete um pé e deixa pegada em Portugal. Fá-lo aos 87 anos com uma antologia breve mas que nos compensa deste longo atraso

A tão poucos poetas chegava uma palavra como digna inscrição, uma que depois de usada se tivesse em pé, sozinha, como se o manejo a tivesse dotado de uma tal firmeza que ela se tornasse uma prova, um bordão talhado para servir de testemunho de todos os caminhos percorridos. E isto, que é tão raro, pressente-se no modo como “fora” se ouve repercutida por toda a obra de Gary Snyder, tornando-se numa espécie de pulsação. E esta foi a coxa solução que o seu tradutor espanhol, Nacho Fernández Rocafort, encontrou para “Without”, título de um poema tão conciso, em que a intuição de Snyder esgota as intimidades de cada palavra consigo e  com a do lado, gizando um programa: “[O] silêncio/ da natureza/ dentro. (...)“o caminho é o que quer que ocorra – não/ um fim em si mesmo.// a meta é/ a graça – a libertação”.

Poucos poetas contemporâneos expõem tanto os seus tradutores, por mais leais nos seus intentos, a um efeito de tão alta-traição. Snyder, que celebrou 87 anos há dias, é um poeta que não usa as palavras meramente para apontar, não surgem como símbolos de substituição mas tomam o lugar daquilo que nomeiam. O verbo sabe fazer todo o percurso da semente ao fruto e este ainda amadurece, cai e rola pelo chão. A linguagem torna-se uma forma de ver, e o ânimo meditativo dos seus versos alcança um pacto proveitoso entre o que é da natureza e o que esta compele em nós, como tinge os pensamentos, como as suas raízes apertam a terra de onde as ideias nos crescem. Em epígrafe a outro dos seus poemas, surge esta frase de Dogen: “Não há outro remédio para satisfazer a fome senão a ilustração de um bolo de arroz.” 

As lições deste e de outros mestres do budismo zen ajudam a levantar as suas canções como se fossem feitas de vento, uma sabedoria que transcende os compassos epocais, e que faz com que Snyder responda menos como uma figura de ruptura, e mais como um elo, um grande continuador das tradições ancestrais que nenhuma actualidade, por mais sensacional e transformadora, escorraça da sensibilidade dos homens. Fernández Rocafort admira Snyder justamente pela forma como, tão para lá do efeito referencial, do espirro face a um quadro exótico, este mergulha a fundo no estudo das disciplinas a que se entrega. Foi isso o que o levou a deixar a costa oeste dos EUA, passando uma década a estudar o budismo no Japão.

Tantas décadas depois da lendária leitura na Six Gallery, em 1956, em que Ginsberg leu em público “Howl” pela primeira vez enquanto Jack Kerouac gritava de entusiasmo “Go! Go! Go!”, tendo Snyder lido nessa mesma sessão o poema “A Berry Feast”, a aura de beatnik nunca mais o largou, algo que ele rejeita se aplicado à sua escrita, embora seja certo que, mais do que fazer parte daquele círculo de amigos, ele tornou-se uma espécie de musa dessa geração. Se Neal Cassidy foi o Dean Moriarty de “On the Road”, o deus da virilidade e temerário ladrão de carros que inspirou milhares de putos desesperados de aventura a meterem-se nas infindáveis estradas como demónios alucinados, então o yang para este yin foi Snyder, que é, a um tempo, homenageado e caricaturado na figura de Japhy Ryder em “The Dharma Bums”. Foi ele o modelo ascético que tanto inspirou Kerouac, sendo o romance baseado na expedição que fizeram juntos, no outono de 1955, ao pico da Montanha de Yosemite, na Califórnia. 

Se Kerouac e Ginsberg, os dois génios mais celebrados daquela geração, são claramente os que se mostraram mais impressionáveis, é possível que, à medida que os anos passem, Snyder venha a ser reconhecido como o verdadeiro visionário do grupo.

O “eu” recebeu a grande declaração de guerra dos modernismos, mas hoje essa coisa deplorável reassumiu em absoluto, empurrado pela lógica do marketing e os ventos do consumo, o seu triste protagonismo. Fernández Rocafort destaca também a poesia de Gary Snyder por se afastar da tendência para essa introspecção que só produz os fantasmas curtos com que o autor vem passear-se na poesia que predominou no século XX.

Entre nós, Snyder é praticamente um desconhecido, seja como poeta, seja no desdobramento do seu estatuto enquanto herói da contracultura nas últimas décadas, tendo-se tornado uma das figuras tutelares da consciência ecológica que obriga o homem a abandonar a sua visão antropocêntrica por uma concepção ecocêntrica que possa dar resposta à actual crise ecológica que pode antecipar dramaticamente o ponto final sobre esta grotesca experiência social em que, para 1% brincarem aos deuses, o resto parte os dentes no pão que o diabo amassou.

Na “The New York Review of Books”, há mais de um quarto de século, Bill McKibben referia já a importância de Snyder na então emergente disciplina da eco-literatura. “Snyder impôs-se provavelmente como o mais eloquente defensor norte-americano daquilo que é conhecido como ‘bio-regionalismo’, a ideia de que as fronteiras políticas devem reflectir as da terra em que vivemos, e que as decisões tomadas dentro dessas fronteiras devem respeitar essa terra”. É de Thoreau, além de Dogen, que Snyder vai buscar a ideia das lições retiradas do mundo selvagem; seja o gosto pela liberdade, a atitude agradecida mesmo face às experiências dolorosas e a noção de que tudo é transitório, e, por isso, a vida é uma arte de perder, e também valores como a audácia, a abnegação, a escuta do corpo, a confiança instintiva nos seres da natureza.

Sem deixarmos de lado a componente mais activista e filosófica de Snyder, temos neste momento motivos para celebrar o aparecimento do seu primeiro volume de poemas em Portugal. Publicada este mês, “Nada Natural”, uma brevíssima recolha antológica da responsabilidade de Nuno Marques e Margarida Vale de Gato. O primeiro assinou uma excelente dissertação de mestrado sobre o autor, que foi orientada pela segunda. E embora este volume tenha prescindido de qualquer nota introdutória, basta uma consulta no Google para chegar ao PDF de “A Nova Poética da natureza de Gary Snyder – budismo e ecocrítica na sua obra”, leitura que mais do que se aconselha e que irá suprir a falta de qualquer estudo que ajude os leitores que não conhecem o poeta a descobrirem as poderosas implicações da sua poesia. 

Contudo, se este magro volume (44 páginas) não oferece qualquer aparato crítico, neste caso, isso em nada prejudica o efeito de surpresa e êxtase que esta fabulosa selecção de poemas nos provoca. Parece evidente que a escolha dos poemas foi feita com consideração pelos efeitos que não ficam presos no arame entre uma língua e a outra, e depois é igualmente notável o modo exímio como esse transporte foi feito. Estes poemas, cuja alma vive de rasgos expressivos, são cheios de detalhes, de um rigor japonês na composição das paisagens, poemas em que não há opiniões de espécie nenhuma, mas uma inteligência no modo de colher simplicidades, e isso obriga a tradução a não largar mão do seu próprio juízo criativo. Embora o poeta esteja lá, o eu surge elidido, como se o efeito pretendido fosse colocar o leitor numa perspectiva de “primeira pessoa”.

Há algo como um receituário para andarilhos, uma energia em fórmulas que, em vez de nos deter com requintes de naturezas-mortas, nos colocam na paisagem como se ela fosse a sua própria acção. São poemas instrutivos, como uma voz próxima, que sentimos entrelaçar-se na nossa e nas coisas a que dedica a sua atenção. Há aqui a suave persuasão de um mestre que não apenas aponta mas nos sensibiliza, estreita o laço com um universo que não perde as suas propriedade rudes, a sua aspereza.

O verso é a medida, e tudo é ganho no pormenor. Hoje, que o haiku se torna no Ocidente um modelo de todas as facilidades, veja-se como no poema “Uma Mossa num Balde”, Snyder nos planta uma imagem de eco tão profundo que nunca mais nos livramos dela: “Ao martelar a mossa de um balde/ um pica-pau/ responde do bosque”. Como este exemplo, são inúmeras as imagens que nos deixam fora de nós, nesse prazer vivíssimo de se sentir em sintonia com algo que quase não nos diz respeito. Algo que teríamos perdido sem nos apercebermos disso, mas que no momento em que o ganhamos nos provoca uma felicidade difícil de explicar, porque não é só nossa, refastela o deus que dorme com um olho aberto dentro de nós. É participar nessa cadeia de deslumbramento que, em vez de nos dizer que pertencemos à nossa, nos diz que nos cruzámos com a própria sensação de estar vivo: “Keats disse que uma coisa bela é uma alegria eterna. Hoje a beleza é a voz sufocada de uma perdida sabedoria”, disse por sua vez Ana Hatherly.
 

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