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Os edifícios-fantasma de Matta-Clark

Os edifícios-fantasma de Matta-Clark

Filipe Braga / Fundação Serralves José Cabrita Saraiva 21/05/2017 14:57

Exposição em Serralves mostra pela primeira vez em Portugal a obra do influente artista norte-americano. Filho de um pintor e licenciado em arquitetura, Gordon Matta-Clark fez esculturas efémeras a partir de edifícios abandonados e até serrou literalmente uma casa ao meio.

Figura mítica da cultura contemporânea, Gordon Matta-Clark (Nova Iorque, 1943-1978) quase não deixou obra para a posteridade. Embora usasse como matéria-prima construções relativamente sólidas, nas quais deixava a sua marca fazendo cortes e removendo secções das paredes, as esculturas invulgares que resultaram das suas intervenções duraram pouco tempo. Algumas existiram apenas durante minutos, sendo logo demolidas.

Mas sobreviveram desenhos, plantas e registos fotográficos ou fílmicos do seu trabalho, que formam um arquivo atualmente à guarda do Centre Canadien d’Architecture, em Montréal (o mesmo que recebeu, recentemente, parte do arquivo do arquiteto Siza Vieira). Vários desses documentos estão agora exibidos na exposição Splitting, Cutting, Writing, Drawing, Eating… Gordon Matta-Clark (‘Dividir, Cortar, Escrever, Desenhar, Comer...’), patente até 3 de setembro no Museu de Serralves, no Porto.

É a primeira vez que a obra do criador norte-americano pode ser vista em Portugal. «Tratando-se de um artista que trabalha na fronteira entre a arte e a arquitetura, parecia-me importante perceber qual foi o contributo que trouxe a essas práticas», explica João Ribas, curador da exposição (com Delfim Sardo) e diretor adjunto do museu. «É muito importante a relação entre o desenho e o corte, no sentido em que o processo do corte tem uma equivalência ao nível do desenho: o traço no papel corresponde a um corte efetivo no espaço. Muitas vezes, aliás, ele começava com um desenho por cima do edifício».

Foi o caso de uma das suas obras mais emblemáticas, uma casa cortada ao meio, conhecida pela sua morada: 322, Humphrey Street. «Essa casa pertencia ao marido da galerista de Matta-Clark», esclarece o responsável do museu. «A família que lá vivia teve de sair, não é bem claro se por falta de pagamento da renda, ou se pelo facto de o lote de terreno ser mais valioso do que a construção». O certo é que a galerista, como a casa ia ser demolida, «ofereceu ao artista a oportunidade de fazer o que ele quisesse». Matta-Clark cortou literalmente a casa ao meio.

Licenciado em Arquitetura pela Universidade de Cornell (1962-68, tendo passado um ano em Paris a estudar literatura francesa na Sorbonne), Matta-Clark nunca exerceu a profissão. «Intervencionava edifícios em contextos urbanos, de certa forma introduzia neles qualidades associadas à escultura. Rachou construções ao meio, fez remoções, cortes, intervenções em edifícios abandonados ou devolutos». O título da exposição, esclarece o responsável, refere «formas de perceber, entender e organizar o pensamento dele, o seu trabalho e até o fantasma da sua obra, no sentido em que os edifícios não existem». E mais: Matta-Clark, revela o curador, «tratava a imagem fotográfica como tratava os recortes dos edifícios – «cortava, remontava, efetuava estas divisões que rompem a continuidade dos planos».

 

Poética do vazio e forças económicas

Gordon Matta Clark nasceu e cresceu entre artistas. O seu pai era o pintor surrealista chileno Roberto Matta, a sua mãe, Anne Alpert Clark, também pintava, e o jovem teve como madrinha de batismo a mulher de Marcel Duchamp, o grande patriarca da arte contemporânea. Depois de se licenciar, começou por fazer esculturas com detritos (lixo) que até os seus colegas tinham dificuldade em compreender.

Mas, aos poucos, começou a interessar-se pelos edifícios negligenciados da cidade e a pensar como podia aplicar neles a sua criatividade e os conhecimentos que tinha adquirido no curso de arquitetura. «Matta-Clark usava aquilo a que ele chamava o ‘período de espera’, em que estes edifícios, fossem habitacionais ou armazéns, não pertenciam a ninguém ou estavam completamente negligenciados», diz-nos João Ribas. «Em 73 ele começa a entrar em edifícios abandonados no bairro do Bronx, que ainda hoje é o mais pobre dos Estados Unidos, onde encontrou toxicodependentes, sem-abrigos e cães vadios». Matta-Clark interessava-se, continua o curador, «não apenas pela questão formal ou poética do seu trabalho, destas fendas, recortes e interseções, mas também pelo contexto, nomeadamente os efeitos de forças económicas e as questões de gentrificação na cidade de Nova Iorque nos anos 60».

Numa zona que viria mais tarde a tornar-se sinónimo de cultura, boémia e sofisticação, o SoHo nova-iorquino, o artista abriu em 1971 com duas sócias o FOOD, um restaurante que era ponto de encontro de artistas e de ideias. Como em muitos restaurantes caros da atualidade, a cozinha estava à vista e os clientes, alguns deles célebres (como Donald Judd, Robert Rauschenberg ou John Cage), até podiam elaborar o menu. Matta-Clark preparou uma refeição de carne em que os ossos que ficaram nos pratos foram posteriormente transformados em colares. O escultor abstrato Mark di Suvero, por sua vez, idealizou um jantar em que a comida seria servida através das grandes janelas, por um guindaste e em que os comensais comeriam com ferramentas no lugar dos talheres.

 

Corte ou demolição

Para fazer os seus cortes e fendas em edifícios, Matta-Clark também usava ferramentas, essencialmente motosserras. «O trabalho dele envolvia uma parte importante de esforço, manual», esclarece João Ribas. «Ele chega a dizer que os edifícios na Itália – em 73 faz três cortes numa casa em Génova e depois remove parte do teto – são muito mais bem construídos do que nos Estados Unidos, onde a qualidade dos materiais não era tão boa e por isso se tornava mais fácil de cortar». O seu conhecimento da ferramenta era tão profundo que Matta-Clark «chega a escrever à empresa que fabrica estas motosserras, a pedir uma espécie de mecenato e até a propor ele próprio melhorias. Ao mesmo tempo escreve uma carta absolutamente fascinante em que convida uma empresa de demolição a desenvolver com ele um trabalho de explodir edifícios, em vez de os cortar».

E ao fazer essas intervenções na estrutura os edifícios não corriam o risco de desabar? «Esse risco é muitas vezes referido por ele e pelas pessoas que o ajudavam. Faz parte da experiência. As pessoas que foram convidadas pelo Matta-Clark para visitar as casas falam dessa precariedade, dessa condição quase de medo», explica o curador. «Isso tem uma relação interessante com a comédia dos anos 30 e dos anos 40, do Charlie Chaplin ou, até talvez mais relevante para o Matta-Clark, o Buster Keaton; a casa funciona como um espaço lúdico mas também potencialmente perigoso, ou até sujeito a uma certa entropia, em que a presença do próprio Chaplin ou do Buster Keaton – como do Matta-Clark – pode levar esse edifício a desfazer-se ou a abrir».

Não por acaso, Matta-Clark cunhou o conceito propositadamente equívoco de ‘anarquitetura’. «Era uma pessoa que gostava muito de fazer jogos de palavras. Há esta dimensão de brincar com a linguagem e de alterar a sua estrutura como ele alterava a estrutura de um edifício». Neste caso, a palavra resultava de uma fusão entre ‘anarquia’ e ‘arquitetura’. «Há definições do conceito em cartas e em textos, mas ele manteve sempre uma certa ambiguidade», para abarcar quer a sua obra, quer a produção de outros artistas. «Não é arquitetura, mas também não é contra a arquitetura», esclarece João Ribas.

Este tipo de conflito e de paradoxo está bem patente noutra faceta do trabalho do artista que pode ser vista em Serralves: as propriedades inabitáveis. «Matta-Clark comprou uma série de propriedades que eram uma coisa quase patética. Pequenos terrenos, lotes, coisas pequeníssimas, de meio metro quadrado, às vezes, que eram áreas que estavam fora dos desenhos dos arquitetos. Por exemplo, duas habitações são construídas e há um espaço a meio que nem pertence nem a uma nem a outra». Matta-Clark adquiriu terrenos desse tipo por valores irrisórios, entre 25 e 75 dólares. «Temos na exposição uma folha em que ele faz um inventário de todas essas propriedades, e temos também os recibos dos impostos que foram pagos – ou não», diz o curador. «Houve um período em que teve certas dificuldades financeiras, e até chegou a ter problemas por não ter pago os impostos. Estamos a falar, em certos casos, de menos de dez euros».

As dificuldades do artista não se ficaram por aí. Em 1976, o seu irmão gémeo, Sebastian, suicidou-se. Dois anos depois chegaria a sua vez. Vítima de doença, desapareceu prematuramente, tal como as obras de arte que criou.

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