16/10/17
 
 
Maria Helena Magalhães 17/05/2017
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Em Bucos, ignotamente nos ensinam

A recuperação de tradições em vias de se perderem pode ser inovadora e ter impacto no mercado de trabalho local

François Hollande saiu do Eliseu como campeão da desilusão, porém afirmando que deixou a França melhor do que a encontrou. Serão muitos os que disto discordarão, mas não será certamente o caso da sra. Le Pen, para quem o mandato do socialista foi de grande valia. O presidente que se segue, Emmanuel Macron, que politicamente nem é carne nem é peixe, promete a refundação da França e da Europa e, como primeira viagem oficial, tomou o caminho de Berlim para se encontrar com Angela Merkel. Até aqui, novidade nenhuma, mas a imprensa francesa que adotou este menino-bem e o traz nas palminhas defende que se tratou de uma visita diferente, com um ponto de partida diferente. Será...

É sabido que Macron terá ganhado as eleições mais com os votos contra Le Pen do que com aqueles a seu favor, o que lhe confere ainda maior expetativa e convoca séria interrogação quanto ao que aí pode vir, particularmente no que à Europa diz respeito. Quando sabemos a sra. Merkel moderadamente recetiva a propostas do presidente francês, falando na criação de “um novo roteiro” para “aprofundar a integração europeia”, também sabemos que a revolução não vai passar por ali. De resto, inspirado na onda macroniana, o governo espanhol terá apresentado em Bruxelas uma proposta, também, sobre o futuro da zona euro. É muita coincidência, ou não, estarem a surgir propostas de mudança exatamente do campo ideológico que colocou a Europa no estado em que está, e que pelos vistos não agrada. Que desagrada, e muito, está à vista no descontentamento coletivo que fez grassar os populismos, nacionalismos, euroceticismos e xenofobias que estão a minar o que resta do projeto europeu, porque o sonho europeu já foi à vida. Todavia, não se pode esperar mudança de quem pouco ou nada mudou – é tudo farinha do mesmo saco, diz a sabedoria popular.

E do saber do povo bom é que tenhamos tento, e que do empreendedorismo popular não façamos tábua rasa. Não se trata do que está na moda, do que se prega em seminários e workshops, daquele que nos querem fazer crer que é o sucedâneo da criação de emprego: só está desempregado quem não é capaz. A recuperação de tradições em vias de se perderem pode ser inovadora e ter impacto no mercado de trabalho local, e é seguramente um fator de coesão social. Que o digam as mulheres de Bucos, aldeia da serra da Cabreira, no concelho de Cabeceiras de Basto, que se juntam e trabalham na Casa da Lã. Do fiar ao tecer, o ciclo do trabalho da lã pode ser observado, e as peças que dele resultam estão lá à venda. Instalada na antiga escola primária de Bucos, a Casa da Lã funciona como centro de interpretação do trabalho da lã. As paredes estão devidamente ilustradas com fotografias e textos alusivos, a visita é acompanhada com afabilidade e simpatia, enquanto no meio da sala se lida com os teares e as demais alfaias, pois diversas e linguisticamente enriquecedoras são as tarefas: lavar, secar, esguedelhar, cardar, emanelar, fiar, ensarilhar, dobar e tecer. Nem mais! Depois há mantas, almofadas, echarpes, tapetes, casacos, coletes, camisolas, gorros... para comprar e guardar.

Em Bucos, e noutros locais, há gente que empreende e nos ensina. Ignotamente.

 

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