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A política e o amor ao contrário. A história da sra. Macron e do sr. de Le Pen

A política e o amor ao contrário. A história da sra. Macron e do sr. de Le Pen

Sebastião Bugalho 06/05/2017 14:48

França terá um – ou uma – novo presidente este mês. Com eles irá uma antiga professora 25 anos mais velha que o candidato ou o discreto vice-presidente da Frente Nacional que namora Marine Le Pen. Se Brigitte Macron conquista os fotógrafos, Louis Aliot prefere os corredores do partido. Uma joga o desafio da idade, outro joga o desafio do género.

Os agentes políticos são propícios ao paradoxo conjugal: Donald Trump tem uma posição hostil aos imigrantes mas está casado com uma eslovena. Nigel Farage é um nacionalista britânico mas está casado com um alemã. Marine Le Pen é – ou era até muito pouco tempo, continuando tacitamente a sê-lo – líder de um partido de origem antissemita, todavia, vive com um francês de ascendência hebraica.

Se os visados elaboram programas de governo após discussão caseira, entende-se o contraste.

François Hollande, por outro lado, é acusado de ser um presidente inerte mas dava corajosas escapadinhas de motociclo para dormir a sesta com a amante. A traição não passou incólume e a companheira de Hollande, à data, vingou-se via livro de memórias. A amante era uma modelo com menos 18 anos do que ele. Graças a ela – e ao motociclo – os franceses não têm primeira-dama desde 2014.

O Palácio do Eliseu é, portanto, cenário predileto ao romance. É lembrar Carla Bruni consolando Nicolas Sarkozy.

O liberalismo com que o povo francês olha para as relações amorosas contrasta, e bem, com a seriedade com que os seus partidos encaram o Estado.

Depois das presidenciais deste ano, no entanto, tudo isso pode mudar. Não só na fidelidade do matrimónio como no tal estatismo. É que Emmanuel Macron, com 39 anos, é casado com Brigitte, de 64 anos, há uma década. O casal conheceu-se num colégio católico quando Macron tinha apenas quinze e era colega da filha de Brigitte. Ele era o aluno, ela era a professora, de literatura e de teatro.

O romance, com longa diferença etária, era improvável e proibido pela família do então rapaz, que ganhou a primeira volta das presidenciais francesas no mês passado.

O pai de Macron insistiu com a sua atual nora para se manter afastada até à maioridade do filho. Brigitte terá respondido: «Não posso prometer nada», segundo relatos publicados este ano num livro sobre o ex-ministro da Economia.

«Ninguém diria nada se a diferença de idades fosse ao contrário», riposta Macron. «Há pessoas que têm dificuldades em aceitar algo que é sincero e único». Brigitte, revela a publicação, dá-se lindamente com a mãe de Macron hoje em dia. Coincidentemente, os 24 anos que os separam são os mesmos anos que demarcam Trump de Ivanka, mas de género invertido.

«Falávamos horas ao telefone [quando ele estava a estudar em Paris]. Pedaço a pedaço, ele venceu toda a minha resistência, mas de uma maneira extraordinária, com muita paciência», contou ela ao Paris Match.

Na altura, Macron foi transferido para um liceu em Paris, mas dois anos depois já prometera a Brigitte que casaria com ela. Tal só sucedeu em 2007, quando a mulher que poderá vir a ser primeira-dama conseguiu divorciar-se. Macron é padrasto de um jovem com menos dois anos do que ele, de uma mulher que foi sua colega de escola e de outra jovem, de 30 anos, que é presença assídua na campanha como jurista.

Não têm filhos biológicos, embora o candidato também seja próximo dos sete netos da sua esposa.

Não são exatamente uma família tradicional, mas funcionam. Em entrevista, Macron assumiu ser dependente do conselho de Brigitte, ligando-lhe várias vezes por dia para o telemóvel quando não estão juntos. Ela, bem humorada, teve a presença de espírito de brincar, em entrevista, que 2017 se tratava da única oportunidade para Emmanuel ser presidente. Não por ele, que tem 39, mas por ela, «que para a próxima estará demasiado velha».

O estilo, todavia, não é antiquado. Brigitte, oriunda de uma próspera família que fez fortuna na indústria do chocolate, é amiga de Delphine Arnault, o vice-presidente da Louis Vuitton e a sua indumentária é muitas vezes detetada como da coleção da reconhecida marca. A antiga professora não esconde o gosto em assistir a de desfiles de moda da Vuitton e da Dior. Usualmente, na primeira fila.

O certo é que cada vez que se olha para Emmanuel, Brigitte está lá. Cada foto, cada discurso importante, cada momento de reflexão. A união do casal é reportada abundantemente pelos media gauleses. «À Brigitte, sempre presente e, sobretudo, sem a qual não seria quem sou!», proclamou ele, no discurso da vitória na primeira volta.

Macron anunciou que a mulher terá um gabinete e funções executivas, na medida em que a constituição francesa ainda não reconhece o cargo de primeira-dama. «Ela não estará atrás de mim ou escondida. Estará onde sempre esteve, que é ao meu lado», prometeu ele.

«O Emmanuel não conseguiria embarcar nesta aventura sem ela. A sua presença é essencial para ele», afirmou Marc Ferraci, assessor da campanha e convidado no casório, realizado em 2007. Na cerimónia, Macron agradeceu aos filhos de Brigitte por os aceitarem. «Não somos um casal normal, mas somos um casal que existe», disse ele.

Macron teve uma brilhante carreira académica, estudando economia e filosofia política e trabalhando na banca antes de entrar na política. Foi adjunto do presidente Hollande e serviu como ministro da Economia até sair para o fundar o seu próprio partido – Em Marcha! – que também apresentará uma lista às eleições parlamentares deste ano.

Macron, um centrista, pretende liberalizar o regime francês – coisa que, aliás, fez enquanto governante do Partido Socialista, embora com alguma contestação social que, pelos vistos, não lhe afeta a popularidade.

Numas eleições em que os extremos conseguiram votações anormais, com Jean-Luc Mélenchon, à esquerda, a chegar aos 19% e Marine Le Pen, à direita, a passar à segunda volta das presidenciais, as esperanças dos moderados caíram em Emmanuel Macron, a única voz defensora da União Europeia durante a campanha.

Os candidatos dos partidos do centrão, Hamon, do PS francês, e Fillon, dos Republicanos, caíram em desgraça. Hamon com 6% e Fillon com uns 20% que seriam dignos se não estivesse envolvido em pleno processo judicial por corrupção.

Mas Le Pen ainda tem uma palavra a dizer e não e líquido que a França não tenha a sua primeira presidente mulher quando os franceses regressarem às urnas, dia 7 deste mês. De acordo com sondagens nacionais, aliás, há mais homens a votar em Marine do que mulheres. As posições conservadoras da Frente Nacional acerca da interrupção da gravidez preocupam, naturalmente, o eleitorado feminino. Liderados por uma mulher, mas ainda – e orgulhosamente – seguindo linhas patriarcais.

Le Pen, por sua vez, tem um companheiro do seu próprio partido. Com menos diferença entre si – somente um par de anos –, Louis Aliot é vice-presidente da Frente Nacional e tem 47 anos, sendo mais novo do que a candidata da direita.

Juntos há quase dez anos, os dois ‘frentistas’ conheceram-se a fazer campanha pelo partido.

Aliot, ao contrário dos Macron, prefere evitar os holofotes e as revistas. O vice da FN só aparece ao lado de Marine na região que tutela partidariamente e já confirmou que não irá viver para o Eliseu caso a sua candidata (e companheira) vença a presidência. «Não vou ser ministro, nem primeiro-ministro, nem primeira-dama. Os eleitores não votam num casal, votam num homem ou numa mulher. Os seus companheiros não devem ter nada a dizer no Eliseu».

Neste sentido, Le Pen seguiu a mesma linha e informou os jornais de que ninguém do seu núcleo familiar assegurará cargos de governação. Um partido dinástico a combater a lógica nepotista – ou, se quisermos, só mais um paradoxo.

Aliot, como Le Pen, é divorciado. Antes de chegar à direção da Frente Nacional, foi assessor da companheira contemporânea no Parlamento Europeu e secretário-geral do partido. Estão juntos desde 2009. Compraram casa um ano depois.

Ele gosta de rugby. Foi um dos responsáveis pelo renegar de uma tradição mais racista na FN, tendo sido protagonista do processo que levou à expulsão de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, da Frente Nacional que fundou.

Le Pen, pai, considerou as câmaras de gás do Holocausto como um mero «pormenor» na Segunda Guerra Mundial. A família de Louis Aliot, é público, tem origens judaicas e Aliot foi o primeiro enviado na história da Frente Nacional a uma visita a Israel. «Todos os franceses que conheci em Israel acreditam que a Marine não é o monstro que achavam que era», garantiu.

Assim como os Macron, não têm filhos em conjunto, embora não possam dizer o mesmo dos seus antigos casamentos.

Aliot pretende preservar-se do protagonismo de Marine Le Pen, focando-se no seu percurso regional, no sul de França, onde gosta de velejar e ir à pesca. Um homem ser primeira-dama da líder de partido não seria exatamente um ativo político em campo tão conservador.

Em 2014, dois militantes da Frente Nacional foram expulsos por pregarem uma partida a Louis Aliot: despejaram laxantes no seu copo de vinho tinto antes de uma conferência de imprensa.

Um pouco o que a França fará à Europa até dia 7 de maio, verdade? 

Sebastião Bugalho

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