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Da ditadura à democracia. A história dos estádios 1.º de Maio

Da ditadura à democracia. A história dos estádios 1.º de Maio

Laura Ramires 01/05/2017 21:17

Em 1926 iniciaram-se as obras do Estádio 28 de Maio, em Braga. O governo atribuiu à Câmara Municipal de Braga “um subsídio de 8 milhões de escudos”. Na década de 50 avançou-se com outro projeto em Lisboa, atualmente conhecido como Parque de Jogos 1.º de Maio

Uma paixão inglesa que não demorou a converter fiéis em Portugal: o futebol. O entusiasmo crescia à medida dos ataques fulminantes a que hoje se assistem em jogos do Barcelona e Real Madrid (e também na Premier League). Jogava-se em qualquer lugar, mas rapidamente se sentiu a necessidade de evoluir nesse campo. Campos da bola, os verdadeiros. Sem serem precisos improvisos de última hora. E da revolução nasceu o 28 de Maio, em Braga.
Braga, 28 de maio de 1926: “À necessidade e ambição da cidade juntou-se a utilidade do regime político de então, saído do golpe militar de 28 de maio de 1926,  de simbolicamente gratificar a cidade onde dispunha de uma importante base de apoio política e assim enaltecer-se a si próprio com uma realização de grande impacto popular”, explica ao i Miguel Melo Bandeira, vereador da Câmara Municipal de Braga (CMB). 

Da ditadura militar ao Estado Novo, uma transformação política, com início em Braga, que não esqueceu o futebol. Nesse ano iniciaram-se as construções do estádio, “que se tornou um dos mais importantes estádios do país, e sobretudo um dos mais belos, de inspiração clássica, com apontamentos decorativos muito comuns na estética autoritária que o regime político empregou na decoração das obras públicas”, refere Melo Bandeira. Viria a ser inaugurado 24 anos depois. 

“A ambição era a de construir um ‘estádio regional’, facto que desde logo apontou para uma obra pública de grande envergadura, de valor orçamental elevado para a época. Com o objetivo de comemorar a revolução, o governo atribuiu à CMB um subsídio de 8 milhões de escudos para a construção de um ‘estádio regional, a que atribuirá a denominação de Estádio 28 de Maio, a fim de ficar assinalado no seu berço o movimento que institui o atual sistema político da Nação (dec.-lei de 20/ix/1945)”, relembra Melo Bandeira. “Sob a presidência do dr. Francisco Araújo Malheiro [1938 a 1945] foi criada uma comissão municipal para a construção do estádio municipal (1944). Inicialmente pensado para 28 mil espetadores, foi inaugurado já sob a presidência de António Maria Santos da Cunha, em 28 de maio de 1950, com capacidade para 35 mil”, recorda o vereador. 

Braga, 28 de maio de 1950: António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho, e Óscar Carmona, Presidente da República, inauguraram o Estádio 28 de Maio. A cerimónia contou ainda com a disputa de duas taças a que concorreram o Braga, o Benfica, o Sporting e o FC Porto. Os azuis-e-brancos, que mediram forças com o Sporting local, empataram. No dérbi lisboeta, os encarnados venceram. A cidade estava em festa.
Passaram-se 24 anos, exatamente o mesmo tempo que foi necessário para a construção do estádio, para se promover a alteração do nome. Uma vez implementado o regime democrático, ficou o mês, mudou-se o dia.
“Esta foi uma alteração expedita e pragmática que decorreu da implantação do regime democrático em 25 de abril de 1974, sendo o resultado da expressão generalizada que ocorreu com a mudança de toponímia relativamente a todas as referências ao regime ditatorial então deposto. Neste caso, manteve-se o mês e substituiu-se pela data do Dia Internacional do Trabalhador, uma das conquistas da liberdade obtida na revolução de 1974”, justifica o membro da CMB.

Lisboa, 28 junho de 1959 Nove anos depois da inauguração do Estádio 28 de Maio, chega ao bairro lisboeta de Alvalade, a ocupar uma área de 55 mil metros quadrados, o Estádio da FNAT – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho. A construção custou sete mil contos (35 mil euros) ao Estado, com o objetivo de fomentar a atividade desportiva, proporcionando aos trabalhadores uma ocupação nos tempos livres e, ao mesmo tempo, com objetivos políticos bem definidos. Em 1936, a direção da FNAT assume perante o governo que a “cultura física é para nós tida como imprescindível, não só com o fim de melhorar a condição física dos trabalhadores portugueses, mas sobretudo para os disciplinar e poder ter sobre eles o verdadeiro e efetivo controlo”. Para além da organização de atividades desportivas, a FNAT incluía também ações de propaganda e formação de dirigentes corporativos. A inauguração do Estádio da FNAT ficou marcada, tal como havia acontecido em Braga, pela presença de António de Oliveira Salazar, aparição que não tinha sido testemunhada noutras inaugurações, como foi o caso do estádio do Belenenses, Sporting, FC Porto ou Benfica, inaugurados na mesma década. A razão, no entanto, era simples. Nos estádios dos quatro clubes acima mencionados eram produzidos espetáculos para um público consumidor, praticados por indivíduos que, contra a lei, faziam do desporto a sua profissão, enquanto nos estádios do regime – Estádio Nacional, no vale do Jamor; o 28 de Maio, em Braga; Estádio Universitário de Lisboa; e o Estádio da FNAT – praticar-se-ia um desporto aparentemente desinteressado, útil do ponto de vista educativo, moral e político. As diferenças entre os dois tipos de construção estavam, acima de tudo, patentes nos traços arquitetónicos (como aliás explicou Miguel Melo Bandeira, vereador da CMB, nos parágrafos iniciais). À semelhança do que aconteceu em Braga, uma semana depois do derrube do Estado Novo – 25 de abril de 1974 –, liderado por Marcello Caetano, o Estádio FNAT recebeu centenas de milhares de pessoas que participaram na grande mobilização popular do 1.o de Maio em Lisboa, onde sindicalistas e ativistas políticos falaram, pela primeira vez, às massas, depois do fim do regime. 

O percurso começou na Alameda D. Afonso Henriques e terminou no recinto a partir de então apelidado de Parque de Jogos 1.o de Maio, dia do ano que é considerado a nível internacional Dia do Trabalhador. Do Estádio 1.o de Maio, o novo país mostrava-se também ao mundo, tornando-se por momentos um espaço de política global. Portugal fora invadido por fotógrafos e jornalistas vindos dos mais diversos países, preparados para globalizar a revolução portuguesa e, com ela, o modesto Estádio da FNAT. Os sindicatos foram os primeiros a fazer-se ouvir e, em seguida, os dirigentes políticos.

Mário Soares foi o penúltimo orador, recém-chegado do exílio aos 49 anos. “Valeu a pena ter lutado, valeu a pena ter sofrido para assistir a esta festa. Foi hoje e foi aqui que destruímos o fascismo”, disse. Também Álvaro Cunhal, líder do PCP, marcou presença na manifestação, depois de 14 anos de exílio, debaixo dos gritos do povo, que pedia “Cunhal no governo”. 

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