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Falta saúde em todas as políticas. “Ministros não falam uns com os outros”

Falta saúde em todas as políticas. “Ministros não falam uns com os outros”

Marta F. Reis 28/04/2017 10:52

Jorge Simões, ex-presidente da Entidade Reguladora da Saúde, diz que os maus resultados do país no chamado envelhecimento saudável são um “falhanço coletivo” 
 

Os portugueses são dos europeus que vivem menos tempo saudáveis depois dos 65 anos de idade. Este ponto crítico nas estatísticas nacionais na área da saúde foi um dos alertas deixados ontem na apresentação do relatório Health System Review (HIT), que traçou um retrato do sistema de saúde no país. “É o nosso falhanço coletivo”, disse na apresentação do trabalho Jorge Simões, ex-presidente da Entidade Reguladora da Saúde e coordenador do estudo, comissariado pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde. 

Os últimos dados compilados pelo Eurostat não deixam dúvidas: em 2014, os europeus contavam viver em média 8,6 anos de vida saudável depois dos 65 anos, tanto os homens como as mulheres. Na Suécia, Islândia e Noruega, a esperança de vida saudável depois do 65º aniversário é já de 15 anos - sendo que nestes países os cidadãos vivem até ligeiramente mais do que os portugueses. Em Portugal, onde nas últimas décadas se recuperou do atraso na esperança de vida, faltou a segunda parte da equação: o número de anos saudáveis depois dos 65 anos não vai além dos 5,6 anos no caso das mulheres e de 6,9 anos nos homens. Só os países do Leste da Europa estão pior.

“A expectativa de vida saudável depois dos 65 anos em Portugal é francamente má”, disse Jorge Simões, que defende que este indicador, a par do facto de as famílias suportarem cada vez mais despesas de saúde - à medida que a fatia que cabe ao Estado tem estado a diminuir e é das mais baixas da Europa -, são dois dos dados mais problemáticos no país, disse ao i o investigador. O diagnóstico não é novo, mas continua a faltar uma estratégia, lamenta. Olhar para o que fizeram países mais avançados nesta área é uma das propostas do perito, que aponta explicações prováveis para o fenómeno. “Investimos pouco na promoção na saúde, são aspetos que entusiasmam pouco os profissionais de saúde e entusiasmam pouco os políticos, seja a alimentação, atividade física ou lazer saudável”, diz. 

Mas continua também a faltar o “cimento”: “o que outros países conseguiram fazer foi dar corpo à ideia de que a saúde deve estar presente em todas as políticas. Ambiente, Educação, Justiça, Agricultura devem ser cúmplices na promoção da saúde”. Se este apelo tem sido reiterado nos últimos anos nos habituais “relatórios da primavera”, diagnósticos anuais do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, por que continua sem passar da teoria à ação? Jorge Simões é taxativo: o pensamento estratégico e a prazo da saúde não dá votos, sublinhando que, no caso do SNS, importava mudar de vez a prioridade do sistema “hospitalocêntrico” para serviços centrados nas pessoas. “As duas referências nacionais que temos na saúde em termos estratégicos foram Albino Aroso e Correia de Campos, tomaram atitutes que não iam ao encontro daquilo que eram as vontades instituídas e do poder local, mas 10 ou 20 anos depois toda a gente lhes dá razão.” E há também o problema da agenda. “Em termos teóricos e retóricos, defendem-se ideias, mas em termos práticos é mais difícil. Os ministros não falam uns com os outros. Além de que, com a questão financeira a dominar a agenda 24 horas por dia, há pouco tempo para pensar de forma estratégica.” 

Francisco Ramos, presidente do IPO de Lisboa, defendeu que a última grande mudança a pensar nos problemas de saúde da população mais velha foi a criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados, há dez anos, estrutura que é ainda insuficiente. E defendeu que devia ser estudado o que se passou entre 2000 e 2005, anos em que os indicadores sobre a esperança de vida saudável mais regrediram. 

Estudar o impacto da falta de saúde e promoção de hábitos saudáveis na terceira idade no orçamento do SNS, mas também por que motivo outros países evoluíram nestes indicadores enquanto Portugal estagnou, foi outro repto na apresentação do estudo, que vai passar a ser repetido pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

Também o problema da falta de informação sobre eficácia da medicação no país e falta de adesão às prescrições poderá ajudar a explicar os indicadores, isto quando se sabe que a medicação de idosos com vários medicamentos ao mesmo tempo é um dos principais motivos para a ida às urgências. Ema Paulino, da Ordem dos Farmacêuticos, alertou que não é possível continuar a olhar para os medicamentos só como um “custo”, a discussão central a que se tem assistido no país. Nos EUA, os medicamentos são já encarados como a quarta causa de morte e morbilidade no país, resultado das intercorrências ou falta de eficácia, situações sobre as quais, em Portugal, não há dados. 
 

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