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José Cabrita Saraiva 27/04/2017
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Alguns cães podem transformar-se em armas

Não me recordo de ler qualquer notícia sobre uma criança ter sido ferida com gravidade por um caniche

Há coisa de um ano, estava eu tranquilamente em Monsanto com os meus filhos quando vejo aparecer um enorme grupo de cães acompanhados pelos seus donos. Eram, sem exagero, dezenas de pit bulls, seguindo ordeiramente pela trela, devo dizer. Ainda assim, fiquei apreensivo e, pelo sim, pelo não, optei por refugiar-me com as crianças no interior de um edifício público que ali havia.

Quem tem pit bulls poderá achar o meu receio injustificado, ou até mesmo ridículo, mas a verdade é que já tive uma experiência traumática com um destes cães. O dono costumava dizer que o problema não era a raça, era a educação que se lhe dava, e que ia provar isso mesmo criando um pit bull carinhoso e inofensivo. Apesar das suas boas intenções, um dia o cão dele atirou-se ao pescoço do meu e só à custa de muitos pontapés conseguimos que o largasse. Infelizmente, são recorrentes as notícias de ataques a crianças (ou mesmo a adultos) por rottweilers ou pit bulls. Umas vezes resultam na morte da vítima, outras vezes esta fica gravemente ferida ou até desfigurada.

Mas, ainda não percebi porquê, nas reações ao sucedido veem-se muito mais pessoas a defender o animal do que a lamentar o sucedido à criança. Usam-se argumentos falaciosos como “um amigo meu tem um cão destes há dez anos e nunca fez mal a ninguém” (isso impede outros cães da mesma raça de se comportarem de forma diferente?) ou “alguns caniches ou chiuauas são mais agressivos do que rottweilers”, o que admito que seja verdade, mas um caniche pode facilmente ser afastado por um adulto e, que se saiba, não há notícia de ter provocado ferimentos graves em ninguém; já um rottweiler ou um pit bull, como me dizia um dono, “se o meu cão se chateia é um sarilho…”. Já tive esta discussão com um veterinário e com um amigo que adora cães e sei que não vou convencer os partidários dos cães destas raças. Vão sempre dizer-me que o problema são os donos, não os cães.

Ora, isso faz-me lembrar os argumentos a favor das armas nos Estados Unidos: “Se elas estiverem nas mãos certas”, alegam os defensores das armas, “não há problema”. Mas obviamente há problema, porque a toda a hora sucedem acidentes e massacres de pessoas inocentes. Também no caso destes cães, não sabemos se vão parar aos donos “certos” ou aos donos “errados”. Haverá quem os prefira porque os acha bonitos ou meigos, mas também haverá quem tenha a intenção de os usar de forma agressiva, para o que der e vier.

Por mim, confesso, sentia-me mais seguro se se proibissem certas raças, mas, como não vejo que isso seja possível, pelo menos que se crie uma espécie de licença de porte de arma. Porque, mesmo que não o sejam naturalmente, é nisso que estes cães podem transformar-se: em verdadeiras armas. Que a maior parte das vezes não estão carregadas, mas que também podem, de forma imprevisível, fazer mortos ou feridos. 


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