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Alguns aspectos da cultura antes e depois do 25 de Abril

Alguns aspectos da cultura antes e depois do 25 de Abril

Diogo Vaz Pinto 26/04/2017 18:00

Da coragem debaixo da censura aos dissidentes que viraram homens-estátua, chegando aos dias de hoje, em que já tudo foi perdoado, os Dantas e os anti-Dantas fizeram as pazes, e o caminho ficou aplanado para que, sobre a arte, triunfe o mercado da vaidade.

Censura
O ÚNICO EDITOR CONDENADO
"Insólita ofensiva de corrupção"

Antes daquela madrugada em que (quase) todo o país se meteu na fila para dizer muito alto e no meio de muita gente que há muito esperava aquela madrugada – “o dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio” –, a censura, no que toca aos livros, não seguia a regra preventiva aplicada aos jornais. Os editores assumiam o risco ao lançar no mercado um livro que causasse algum desconforto às convicções oficiais, sabendo que se fosse denunciado, a censura havia de confiscá-lo, e o perigo era o editor ficar a arder com a massa investida. Mas houve um tipo, hoje praticamente esquecido, que soube virar o bico ao prego. Fernando Ribeiro de Mello foi o único editor levado a tribunal e condenado durante o Estado Novo. É dele o recorde do maior número de edições proibidas pelo regime, entre elas a “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia, e “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade. Mas serviu-lhe bem a lição do pecado original, e percebeu que no fruto proibido estava a sua galinha dos ovos de ouro. Porque havia sempre alguns exemplares que escapavam à purga policial nos armazéns e livrarias, sendo estes traficados com orgulho por uns livreiros-passadores que faziam muito gosto em anavalhar a púdica moral vigente. Para saber mais sobre o caso da Afrodite e do seu editor vale bem a pena uma visita à BNP para descobrir esta “insólita ofensiva de corrupção”, exposição comissariada por Pedro Piedade Marques, o mesmo que tinha já resgatado a memória de Ribeiro de Mello, o “Editor Contra”, que a maioria dos outros editores que hoje levam o cravo na lapela preferem esquecido, talvez porque a sombra que lhes lançaria seria suficiente para os engolir e só deitar fora, à laia de comentário, um pequenino arroto.

 


Poesia e protesto
O POETA COM VOZ DE ESTÁTUA
"Praça da Canção"

“Fez arder uma geração inteira”, disse a Associação Portuguesa de Escritores quando no ano passado lhe atribuiu mais um prémio, consagrando um percurso literário de meio século, e que muito provavelmente culminou no mesmo passo em que arrancou. O histórico socialista e ex-candidato à Presidência da República, que fará 81 anos em maio, teve os seus dois livros iniciais – “Praça da Canção (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) – apreendidos pela Censura, mas não foi isso o que lhes cortou o pio; pode até dizer-se que só serviu para lhes redobrar o fôlego. Alegre, então oficial miliciano em Angola, passara uns meses na cadeia de Luanda, em 1964, devido à sua actividade política como militante do MPLA, e viu um e outro livros serem investidos daquele espírito que faz das palavras actos, tornando-se autênticos manifestos, que circularam por todo o país, em exemplares salvos a tempo, e sobretudo em cópias dactilografadas, ou até manuscritas, sendo recitados e cantados em manifestações, nos círculos estudantis e em todo o tipo de iniciativas de oposição ao regime. Um ano antes da entrega do prémio já José Jorge Letria, o homem que ninguém tira da presidência da Sociedade Portuguesa de Autores, vinha celebrá-lo num passo para, no seguinte, lançar outro alerta desses sempre frustres, por lhe faltar a coragem de queimar com o dedo alguma testa: “Hoje sabemos que o risco subsiste e que pode ser ainda mais perigoso e sufocante.” E, no entanto, recusam-se a admitir que os que então carregavam a cruz e o alho logo se tornaram os “vampiros” desta tão asfixiada democracia.




P'ALMADA
"O NOSSO DANTAS MODERNISTA"
Almada Negreiros, de Anti a Pró


Há quem diga que o Dantas, sim, o PIM, morra e tal, que foi alvo daquela maravilhosa aleivosia de Almada Negreiros, com apenas 23 anos, tomado do espírito violento e de dedo em riste do Futurismo, esse mesmo Júlio que no “Manifesto Anti-Dantas” é eleito o exemplo do vira-casacas, oportunista máximo, aproveitando os ventos para se pôr a favor do que quer que soprasse mais fortemente, acabou tantos anos depois vingado. As vozes que dizem que Almada veio a tornar-se ele mesmo o artista do regime, o artista singularíssimo, mas homem que se dobrava e beijava a mão, senão mesmo o pé de Salazar, envelheceu, e acabou ele próprio o alvo de grandes p’almadas, como esta, de punho anónimo, publicada já na Primavera Marcelista, na edição de 30 de agosto de 1969 de “A Mosca”, depois da sua ida ao programa Zip-Zip: “Citado, recitado, antologiado, entrevistado, fotografado, cinematizado, zipzipado; reverenciado, solicitado, encomendado, premiado, medalhado, muito cumprimentado, ziguezagueado, de rabo alçado, Almada é mesmo um caso arrumado (...) e nesta (lamentável) conformidade é de facto descansativo haver um Almada assim tão prestável, tão missionário, tão gloriosamente público – numa palavra – tão zip. Almada é assim a nossa estátua no nicho sacrossantíssimo das Artes, o nosso Dantas modernista, o nosso génio caseiro, o nosso ripanço, o nosso embevecimento, o nosso luxo...” E vai por aí fora, e volta hoje a ser actual porque já tudo lhe foi perdoado, e tem a espantosa exposição na Gulbenkian para celebrizá-lo como génio que em jovem foi todo Anti e depois todo Pró.

 


Edição de Ilusões
O MERCADO DA VAIDADE
As Vanity-Presses

Com tudo o que o 25 de Abril tem de popular, talvez o ditado que mais se lhe aplique seja aquele que diz: “Não há fome que não dê em fartura”. Se antes ninguém tinha voz, hoje pensar não chega para se ter a sensação de que se existe, e é preciso deixar marcas. Pode então dizer-se que o perfume das democracias é a barulheira. Há aquela conversada do “plantar uma árvore, fazer um filho, escrever um livro”. Se por cada livro publicado fosse plantada uma árvore, o problema da deflorestação talvez começasse a ser resolvido. Antes da revolução, a actividade editorial comportava riscos, o editor era um banqueiro das ideias, a literatura era quase toda de viagens, no sentido em que para fugir à modorra provinciana a maioria das pessoas só tinha os livros, proibidos ou não. Nos nossos dias, mais do que a democratização, a lógica do consumo veio criar indústrias tão curiosas como a chamada ‘vanity press’. Entre nós, o caso mais célebre é o da Chiado Editora, que mereceu destaque há dois dias, assinalando o Dia Mundial do Livro com uma acção de campanha em pleno Rossio, na terceira edição da iniciativa “Um livro num dia”. Foram recolhidos 100 contos da parte da manhã, escolhidos 50, paginados ali mesmo, enviados para a gráfica da prória editora, e distribuídos aos participantes ao fim da tarde. É a única editora com um crescimento explosivo num país em que os índices de leitura continuam vergonhosos, e isto porque o negócio, em vez de passar pela venda de livros, passa por lucrar com a vaidade dos aspirantes a escritores que pagam caro as suas ilusões.
 

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