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Quando a CIA queria dar cabo dos intelectuais franceses

Quando a CIA queria dar cabo dos intelectuais franceses

Nuno Ramos de Almeida 21/04/2017 12:52

Documento confidencial dos serviços secretos norte-americanos revela as manobras destes para aumentar as divergências nos pensadores de esquerda. Sem perceberem que bastava normalmente deixá-los em paz para isso

Num relatório confidencial escrito em 1985, e que acabou de ser tornado público, segundo noticia o site Mediaparte, confirma-se que a CIA seguiu de perto a vida intelectual francesa e as suas questiúnculas internas. Vigiava Sartre, apreciava os "Novos Filósofos", analisava Foucault e Derrida. Agentes secretos foram obrigados a estudar aplicadamente o estruturalismo francês.Objectivos: ajudar a aumentar as divergências da esquerda intelectual francesa e aumentar a divisão em termos mundiais.

Este documento redigido em 1985 foi recentemente desclassificado e colocado no acesso público ao abrigo do Freedom of Information Act, nele a CIA revela que estudou afincadamente os pensadores da “French Theory”, seguindo com particular atenção nomes como Michel Foucault, Jacques Lacan, Roland Barthes, Jean Paul Sartre.

O documento intitulado “France: Defection of the Leftist Intellectuals” (França: Deserção dos Intelectuais de Esquerda) examina as várias correntes de pensamento francesas, e estuda as possibilidades de manipulação dos intelectuais de modo a garantir a sua divisão e a prevalência de correntes de opinião anti-comunistas e anti-soviética.

O documento analisa a história dos intelectuais em França, argumentando que normalmente existia um certo equilíbrio entre as esquerda e a direita nos pensadores franceses, mas que esse equilíbrio foi rompido no pós-Segunda Guerra Mundial, devido à associação de grande parte da intelectualidade de direita, com o colaboracionismo com a ocupação da Alemanha nazi. Os agentes autores do relatório, que não são públicos, congratulam-se com o retorno do pensamento de direita.

O documento coloca a importância da revelação dos “crimes do Estalinismo” no abandono de posições de esquerda por parte dos intelectuais franceses, e que esses crimes e gulags permitiam aos EUA aparecer como democracia, mesmo quando apoiavam ditaduras,torturas, assassínios e golpes de Estado na América Latina.

O relatório apontava Sartre como um grande problema, devido às suas posições “anti-imperialistas”. O que entusiasmava mais os agentes norte-americanos era o aparecimento de correntes como “os Novos Filósofos”, com Bernard-Henry Levy e André Glucksmann, com estes a merecer um apêndice, em forma de bibliografia, no relatório dos espiões de Washington. O documento apontava que se devia apoiar estes contra a “última clique de sábios comunistas”, que englobaria Sartre, Barthes, Lacan e Althusser.

Neste combate contra o pensamento de esquerda e para enfraquecer “o comunismo”, o relatório sublinhava a importância do papel de “marxistas reformados”, como Michael Foucault e Lévi-Strauss, que, segundo os espiões, estavam a “demolir a influência marxista nas ciências sociais”, porque, “[este tipo de pensador vindo do marxismo] era ainda mais eficazes para minar o marxismo, eram intelectuais que eram conhecidos por ser uns fervorosos aplicadores do marxismo nas ciências sociais, mas que tinham acabado por a repensar e rejeitar o conjunto dessa tradição”.    

Esta preocupação da espionagem norte-americana com os estruturalistas franceses não era uma atividade desenquadrada: a “agência”, como é conhecida pelos seus, investia muito na “guerra cultural”. Thomas W. Braden, antigo supervisor das atividades culturais da CIA, confessava o seu orgulho nesse trabalho: “eu recordo-me da minha imensa alegria quando a Orquestra Sinfónica de Boston [sustentada financeiramente pela CIA] conseguiu mais aplausos para os EUA, em Paris, que Jonh Foster Dulles [antigo secretário de Estado dos EUA] e Dwight D. Eisenhower [presidente dos EUA de 1953 a 1961] poderiam conseguir fazendo centenas de discursos”. Uma das frentes mais importantes da Guerra Fria decorria no terreno cultural, com a Congress for Cultural Freedom a distribuir muitos milhões de dólares a agentes culturais que apoiassem os EUA e combatessem o comunismo. Este poderoso “Mecenas” da cultura, tinha representações em mais de 35 países, contavam com muitas e prestigiadas revistas e oferecia uma grande quantidade de bolsas.  

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