20/8/17
 
 
José Paulo do Carmo 21/04/2017
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

Antes ateu que católico hipócrita

A frase não é minha, mas bem gostava que fosse. É da autoria do Papa Francisco, esse extraordinário ser que nos põe a pensar e nos aproxima da Igreja novamente, pela primeira vez em muitos anos. Mas a profundidade desta frase vai muito além da religião, é bem mais do que um simples comentário sobre a vida católica, é, isso sim, um cenário entranhado na nossa sociedade e que remete para as aparências, para a duplicidade na vida, para as fachadas, para o dizer uma coisa e fazer outra, que de hipócritas está, infelizmente, o mundo coberto.

O Papa dá o exemplo das pessoas que traem as outras e depois vão à missa ao domingo, ou os outros que exploram os seus empregados e depois vão comungar – a ideia assente por trás desta mera frase é transversal a quase tudo o que nos rodeia e concentra muito do que temos para resolver nos tempos que correm. Desde a televisão aos jornais, passando sobretudo pelas redes sociais, temos vários exemplos de pessoas que conhecemos e sabemos terem a vida que aparentemente demonstram mas que, muitas vezes, é apenas fachada, pois por trás daquelas imagens e daquela aparente felicidade e pureza de espírito escondem-se pessoas mal resolvidas, desestruturadas.

Isso leva a que cada vez mais vejamos casos de pessoas que explodem e têm atitudes agressivas e pouco expetáveis, e mesmo quando se pergunta a quem as conhece, todos dizem que nunca demonstraram semelhantes instintos. A verdade é que passamos o tempo todo a mostrar algo que não somos, a fazermos coisas que não fazem parte da nossa essência, só para mantermos o nosso espírito social no topo, apenas para impressionarmos alguém, e fazemo-lo de uma forma tão dissimulada que o esforço acaba por ser enorme e leva muitas vezes ao desespero e a essa explosão.

Ainda há poucos dias soube de uma pessoa que passa a vida a postar fotografias nos locais mais idílicos do planeta. Hotéis majestosos, carros topo-de-gama, viagens de avião para os mais variados destinos, e depois, quando precisa de efetuar um simples e mísero pagamento a alguém que com ele trabalha, surgem as desculpas, os atrasos, o erro do banco e do contabilista, a filha que está doente, o gato que morreu ou a sogra que se constipou. E quando vemos com mais atenção os espaços onde supostamente se encontra, vemos que as cadeiras e as mesas são iguais às de um hotel de 3 estrelas em Albufeira…

A mensagem que quero passar é a de olharmos mais para este ensinamento do Papa e que o entendamos de uma forma espiritual bem para lá do religioso. Que estaremos mais perto de ser felizes se formos mais aquilo que verdadeiramente somos, sem termos a obrigação de estarmos constantemente a criar imagens daquilo que achamos que as pessoas querem ver, deturpações da realidade, espaços vazios de concretização pessoal. Porque, muitas vezes, se fôssemos mais iguais a nós próprios conseguíamos criar um impacto maior nos outros e libertavamo-nos do fingimento e do constrangimento de vermos a capa cair um dia. Porque sempre que fingimos existe um espaço temporal, porque há sempre uma vez em que não aguentamos mais. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×