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José Miguel Júdice.“Passos Coelho está morto politicamente e ainda ninguém lhe disse”

José Miguel Júdice.“Passos Coelho está morto politicamente e ainda ninguém lhe disse”

João Girão Luís Claro 21/04/2017 08:47

Júdice explica o que o levou a romper com o PSD, aponta erros ao seu amigo Marcelo e confessa que prefere Costa a Passos Coelho continuação da página anterior

José Miguel Júdice conta conversas que teve com Cavaco Silva, Durão Barroso ou Marques Mendes para ilustrar o seu pensamento sobre o país e o PSD. Numa longa conversa no seu escritório, na Avenida da Liberdade, o ex-dirigente do PSD confessa que António Costa é “mais adequado para este momento político” e aconselha o seu amigo Marcelo a falar menos. Garante que não tem ambições políticas, porque é “um mundo no qual se sentiria mal”, e rejeita ser um homem poderoso. “Isso dá-me vontade de rir.”

Foi apoiante e é amigo de Marcelo Rebelo de Sousa e foi o mandatário da candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa. Posso presumir que acha que o país está bem entregue?

A democracia é sábia. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são os mais dotados das suas gerações. São as pessoas mais qualificadas, do meu ponto de vista, para as funções que lhes estão entregues na conjuntura que estamos a viver. Já pensava isso, e o que se passou a seguir às eleições... António Costa perdeu as eleições, mas conseguiu transformar uma derrota em vitória. O que é um sinal muito curioso e de mestria política, mas, depois disso, a argúcia e a habilidade deles fez com que o país esteja mais convencido de que esta é uma solução adequada. 

Revê-se mais no discurso de António Costa que de Passos Coelho?

Passos Coelho foi um homem que teve uma qualidade rara naqueles anos terríveis, que foram os anos da troika, e é um homem corajoso, determinado e teimoso. Ele sabia que ia pagar um preço por algumas coisas que fez e fê-las na mesma. Agora, é uma pessoa menos dotada do que António Costa para as subtilezas, as complicações e as especificidades da vida política.

O que está a dizer é que prefere António Costa para este momento político...

Sem dúvida. António Costa está mais adequado a este momento político. Ele está a conseguir fazer uma coisa que era muito difícil a um governo de direita minoritário fazer. A esmagadora maioria das coisas que foram feitas na boa direção – e algumas foram – não teriam sido feitas se fossem propostas pelo PSD e pelo CDS. Pragmaticamente, eu prefiro alguém que leve o assunto para a frente do que alguém que não consiga levar. Usando uma linguagem popular, é melhor um burro que me carregue do que um cavalo que me deite ao chão.

Saiu do PSD há dez anos. Saiu desiludido com o PSD? O que o levou a escolher aquele momento para romper com o partido?

Eu estou completamente afastado da vida política há muitos anos. Há muitos anos que nem sequer pagava as quotas. Tinha sido indisciplinado na lógica partidária. Sentia-me afastado. Há muitos anos que estava desiludido com a vida partidária. Naquela fase do tabu [em 1994] fui falar com o prof. Cavaco Silva e disse-lhe o seguinte: “Se o senhor quiser candidatar-se outra vez para mudar a realidade e avançar com uma solução diferente, se o senhor quiser fazer uma limpeza naquilo a que eu chamo a canalha, os bad boys do PSD, eu vou desgraçar a minha vida, mas estou disposto a apoiá-lo e a entrar, pela primeira vez, na política.” Fiz isto porque achava que era essencial, naquela altura, dar uma volta radical às coisas. Nunca fui um cavaquista, mas continuo a dizer que Cavaco Silva foi claramente o melhor primeiro-ministro que Portugal teve. O Francisco Sá Carneiro foi primeiro-ministro por muito pouco tempo. 

O que lhe disse Cavaco Silva? 

Ele fez um sorriso que era um sorriso de quem estava grato por aquilo que eu lhe estava a dizer, mas evidentemente que não queria voltar a candidatar-se a primeiro-ministro. Mas isto é um sinal do que eu pensava já nessa altura. Em segundo lugar, acho que o PSD mudou de natureza. Com Cavaco Silva, passou a ser um partido de consumidores em vez de ser um partido de produtores. Em vez de ser um partido das classes médias em processo social de ascensão, classes médias dinâmicas, energéticas, com vontade de mudar a sua vida e de mudar o país, passou a apostar nos setores menos dinâmicos da sociedade portuguesa.
 

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