19/11/17
 
 
Maria Helena Magalhães 19/04/2017
Maria Helena Magalhães

opiniao@newsplex.pt

Mudam as brandas, vão-se os brandeiros

Ao redor, serra a perder de vista, pintalgada como amarelo dos tojos e o azul arroxeado das urzes

Tradicionalmente, branda, por oposição a inverneira, é um núcleo habitacional temporário no cimo de uma serra, localizado num planalto ou numa chã onde o gado transumante é levado a pastar. Era assim que se organizavam as aldeias serranas do Alto Minho, já que aldeãos, pastores e rebanhos tinham por hábito mudar-se dos vales onde habitavam durante os meses de inverno, as inverneiras, para locais mais aprazíveis e de melhores pastos, as brandas, aí permanecendo até ao começo da estação fria seguinte. Havia brandas de cultivo, pastoris e mistas (pastoris e de cultivo).

A hemorragia demográfica causada pelas levas de emigração clandestina, ou “a salto”, dos anos 60 viria a desarticular toda esta organização comunitária – desertificação humana que, aliás, ainda se faz sentir –, de forma que hoje, praticamente, só o gado sobe a serra. As aldeias, essas, ou foram desaparecendo ou então foram recuperadas para fins turísticos. É o caso da Branda da Aveleira, aldeia situada à entrada do Parque Nacional da Peneda- -Gerês, no concelho de Melgaço. Para chegar à aldeia, lá bem no cimo da serra da Peneda, são percorridos uns bons quilómetros de estrada florestal, sob um céu azul quase transparente, tão fino é o ar que se respira, e a brisa vai refrescando o olhar perdido em contemplações extasiadas: os majestosos picos graníticos que durante boa parte do percurso recortam o horizonte, os matos em flor a bordejar o caminho, o voo planado de alguma ave, o silêncio mágico da montanha com os seus ruídos secretos. Chegados à Branda da Aveleira, como que embebedados de espanto, a aldeia aparece em anfiteatro: as casinhas de pedra, muito rústicas, as cardenhas – reconstruídas e agora apenas destinadas a alojamento de turismo –, convivem com os ainda mais toscos cortelhos – os antigos currais –, cujos telhados são pedras sobrepostas em abóbada, dando ao conjunto um ar de antiguidade castiça e rara. Ao redor, serra a perder de vista, pintalgada com o amarelo dos tojos e o azul arroxeado das urzes. Ouve-se o silêncio só cortado pelos chilreios escondidos nas árvores que sombreiam a calçada. E nem o cantarolar dos ribeiros, águas cristalinas a passar sob a ponte improvisada, podia faltar, e já reunidos espreguiçam-se num pequeno lago a fazer de piscina, para mais adiante continuarem a corridinha saltitante sobre as pedras. Da branda fica a vista maravilhada, de brandeiros nem rasto, mas do pachorrento gado cacheno – quantas vezes estacionado no meio do caminho – ou das cabras e cabritos não faltam exemplares. Nem de garranos ou de cavalos selvagens.

À ida e na volta, mesmo por trilhos diferentes, a floresta sai à compita, com os belíssimos carvalhais à mistura com as variadas espécies ripícolas, num cortejo de belezas naturais capazes de inspirar o mais deslavado artista.

De regresso à vida citadina, ou à dita civilização, aguardam- -nos as notícias do costume: cá dentro há quem queira discutir o que já foi demonstrado – nada a acrescentar. Lá fora, o mundo não para de ser incendiado: os loucos de dedo no gatilho ameaçam-se, ameaçando-nos. Perigosamente. Desvairadamente.

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