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Mário Bacelar Begonha 19/04/2017
Mário Bacelar Begonha

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Jogos Paraolímpicos

Não ofendam os desportistas portadores de deficiência, nem deixem de explicitar que é um desporto adaptado às condições desses praticantes deficientes

Temos muita dificuldade em empregar palavras portuguesas que, há 70 anos, significavam uma coisa e que devem, e deviam, significar hoje o mesmo, mas, infelizmente, assim não acontece.

Entrávamos no liceu há 70 anos de gravata e casaco, banho tomado e respeito pelos professores e pela língua, que, diziam-nos, era a nossa identidade cultural e, quando maltratada, lá ia uma nota para casa a recomendar mais trabalho e, por vezes escrevendo e reescrevendo 200 vezes as palavras mais difíceis.

Anos depois, agora, querem que esqueçamos tudo e que passemos a escrever como aqueles que não sabiam escrever!

Não aceitamos, porque então queremos ser ressarcidos pelos castigos e pelas notas e pela vergonha de nos chamarem ignorantes, e de mais a mais com uma mãe filóloga e professora em cinco línguas. Foi um inferno!

Agora, aqui temos outro problema; a palavra “deficiente” significa incompleto, falho, imperfeito, e deficiência significa falta, lacuna, imperfeição, insuficiência (enfraquecimento).

É evidente que todos os cidadãos têm o direito de praticar desporto, deficientes ou não. O que não podemos, nem devemos, é chamar atleta a um deficiente. Desportista, sim, atleta, não, porque como deficiente tem direito a certas regalias; como atleta, tem obrigações, como pagar impostos; como deficiente, ou não paga, ou paga metade (carros), ou menos até.

E, se são “atletas”, então por que razão não lhes fazem o teste de doping?

Expliquem lá qual a razão. Claro que vão dizer que são “deficientes”, e depois?

É que ou respeitam o significado das palavras ou assumem as consequências... de uma interpretação abusiva das palavras.

Por favor, não ofendam os desportistas portadores de deficiência, nem deixem de explicitar que é um desporto adaptado às condições desses praticantes deficientes.

É estranho que a maior parte dos deficientes, em Portugal, só tenham começado a praticar desporto já depois da deficiência, talvez como terapia, realização pessoal, coisa que se elogia. Mas pedimos aos responsáveis pela comunicação social, que tão maltratam a terminologia desportiva, que meditem sobre o tema e retirem a palavra atleta quando se referem a desportistas deficientes, devendo fazer o mesmo aos profissionais dos desportos (vários) que não são atletas, mas sim trabalhadores, e por isso não deviam ser sujeitos aos testes de doping, tal qual os trabalhadores da Auto-Europa.

Aqui fica a nota e o estímulo para que as autoridades responsáveis tenham orgulho no que fazem, já que atenuam, em grande medida, o sofrimento dos deficientes quando estes praticam desporto, e os tornam mais iguais àqueles que não são deficientes – e, às vezes, com resultados desportivos muito acima da normalidade.

Sociólogo

Escreve quinzenalmente

 

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