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Hip hop. O tempo da marginalidade chegou ao fim

Hip hop. O tempo da marginalidade chegou ao fim

Davide Pinheiro 18/04/2017 12:37

Da segregação racial aos milhões de visualizações, o rap atravessou uma história de combate social e político até chegar ao poder.

Os números remontam a 2015 e é natural que já tenham sofrido uma revisão em alta mas, para já, são os disponíveis. Há 16 meses, o balanço final do Spotify confirmava aquilo que os últimos anos sugeriam: o hip hop era, pela primeira vez, o tipo de música mais ouvido no planeta. E tendo em conta que, de então para cá, a maioria dos recordes foram sucessivamente batidos por Drake, Kanye West ou The Weeknd, a tendência é para este domínio ter-se avolumado, e não o inverso.

Em 2016, Drake foi quem mais se ouviu no Spotify. Entre os cinco mais escutados estiveram também Rihanna e Kanye West. O canadiano bateu ainda o recorde de canção e álbum mais ouvido – “One Dance” e “Views”, respetivamente. E já este ano, “The Life Of Pablo” foi o primeiro longa-duração a receber uma platina nos EUA, graças apenas ao streaming – números que confirmam a família musical do hip hop como a mais poderosa nesta altura.

Dois anos antes, Kanye West dava uma esclarecedora e visionária entrevista a Zane Lowe na BBC em que vaticinava o futuro universal de uma experiência pessoal. “Os rappers são as estrelas rock.
O rap é o novo rock’n’roll.” Polémico como nos habituámos a reconhecê-lo, içava uma nova bandeira, gerando reações de choque e dúvida. Dos rappers, por não estarem habituados a sentar-se no trono e a dominar o mercado. E_o rock porque durante décadas viveu protegido pela superioridade branca.

De facto, a questão não se explica apenas com antropologia musical e emana de questões raciais. Durante décadas, os afro-americanos em particular e a comunidade negra em geral foram marginalizados social e culturalmente. Em meados do séc. xx, o jazz desempenhou um papel emancipador semelhante àquele que, a partir dos anos 80, o rap iria ter – o rap enquanto forma de uma cultura maior designada de hip hop e dividida em quatro disciplinas: não só a verbal, mas também o breakdance, graffiti e turntablism (a arte de manipular o gira--discos).

Embora a imagem do rap enquanto expressão musical combativa e politicamente implicada se tenha disseminado, a verdade é que o berço desta música foi festivo. Em festas de bairro, o MC fazia jus ao nome e era o mestre de cerimónias, condutor da festa ao sabor dos instrumentais solto pelos sistemas de sons. A origem do rap remonta à Jamaica, mais ou menos na década de 1960, quando surgiram os sistemas de som, colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para causar um clima de animação. A vaga de emigração dos ilhéus para Nova Iorque transportou o rap na mala para os EUA e provocou o primeiro processo transformador.

Durante décadas, e apesar da importância crescente desta música no planeta, a sua influência era palpável sobretudo na cultura de rua. Os circuitos institucionalizados demoraram a aceitar o rap como uma linguagem não só consumida em massa como respeitada. Em parte, também porque a soberania intelectual europeia teve dificuldades em absorver uma cultura americana. Tão (afro-)americana como os blues, o rock, o jazz, o house ou o techno.

Se os anos 80 foram uma espécie de introdução à disciplina, a entrada em cena dos N.W.A. (retratados no filme “Straight Outta Compton”) abriu o precedente do gangsta rap. Por outro lado, grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest exploraram o baú da música negra, incorporando o funk, a soul e o jazz numa linguagem alegre que serviu de base a uma mensagem positiva e, por vezes, até humorística. E bandas como os Beastie Boys não só foram mais radicais no cruzamento musical ao construir pontes entre rap e rock como permitiram aos brancos fazer rap sem distinções raciais.

O hip hop como o conhecemos estava lançado. Dos EUA_para o resto do mundo. Nasceram e morreram ícones como 2 Pac e Notorious B.I.G. Surgiram lendas vivas como Dr. Dre, Eminem ou Jay Z. Bandas capazes de derrubar muros como Outkast, N.E.R.D. Reis da pop como Justin Timberlake e Beyoncé, que apesar do passado em grupos adolescentes foram bem recebidos e amadureceram no r&b. Mas nunca como agora a hegemonia foi tão notada.

E a prece de Kanye West vê-se, por exemplo, nos festivais. A_Europa, uma derradeira resistente e eterna desconfiada do público, reconheceu por fim que o rap deixara de ser um nicho para ser ouvido pluralmente. Nos últimos anos, Kanye West, Beyoncé e Jay Z foram cabeças-de-cartaz em Glastonbury, uma espécie de bolsa de valores dos anos seguintes no primado europeu. E em Portugal, depois de visitas esporádicas de nomes grandes como Kanye West, Beyoncé, Rihanna, Snoop Dogg, Beastie Boys e 50 Cent, os sinais de mudança são agora evidentes. Depois de Kendrick Lamar ter arrastado milhares de pessoas até ao NOS Primavera Sound em 2014 e de ter esgotado uma noite de Super Bock Super Rock em 2016, este ano há The Weeknd no NOS Alive; Future e Tyler The Creator no Super Bock Super Rock; Run_The Jewels, Miguel, Flying Lotus e Skepta no NOS Primavera Sound; Post Malone no Sumol Summer Fest; e Mac Miller no_Sudoeste.

Quantidade e diversidade, já que o crescimento do mercado permitiu também que subgéneros como o trap (forma de rap sulista de Atlanta) ou o grime (a expressão britânica, lírica e instrumental) emergissem e ganhassem o seu quinhão junto de públicos marginais mas crescentes.

Em Lisboa, o trap tem esgotado várias festas. Entre as gerações pós-raciais, o rap e a música de raiz lusófona, portuguesa ou africana, reúnem preferências. No YouTube, o normal é os vídeos de hip hop atingirem milhões de visualizações. O rock’n’roll perdeu a fonte de juventude e é ouvido sobretudo em circuitos adultos ou mais elitistas. Será o rap o novo normal?

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