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Mário Cordeiro 18/04/2017
Mário Cordeiro

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Coragem - uma virtude mal cotada na bolsa… Será que andamos a educar as crianças para ela?

O que pode levar umas crianças a serem mais corajosas que outras? O temperamento, o ensino e o exemplo dos pais

O que fez correr Aristides? Quando digo Aristides, não me refiro a qualquer corredor da maratona, que esse, o que caiu fulminado mal anunciou a Atenas a vitória das tropas atenienses sobre os persas, chamava-se Fidípedes em resultado do esforço contínuo que fez. Parecido, mas diferente. 

Quando escrevo “correr”, escrevo em sentido figurado, e refiro-me a Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus nos tempos da ii Guerra Mundial. Não correu, no verdadeiro sentido da palavra. Mas vale a pena relembrar este “caso”.

Bordéus em 1940. A Wehrmacht, nome das tropas alemãs, ocupa a França. Centenas de milhares de pessoas fogem do terror nazi. Pegam nas crianças e nos idosos, lançam mão de alguns dos seus haveres e metem-se à estrada. Os alemães perseguem-nos. O objetivo é exterminá-los - Hitler foi muito claro nas suas ordens.

Os fugitivos procuram refúgio. A palavra passa: há um pequeno país de onde é possível partir para terras mais seguras, onde não se perseguem nem assassinam as pessoas só porque têm uma religião, uma cor de pele ou opções políticas diferentes, apesar de ser governado por um ditador simpatizante do principal aliado de Hitler, o chefe italiano Mussolini.

Para chegar a esse país é necessário atravessar outro, um pouco maior, dilacerado por uma guerra civil e nas mãos de governantes que não escondem a sua simpatia pelo regime que vigora na Alemanha. E para atravessar a Espanha é necessário um visto português.

Em 1939, Salazar tinha dado ordens claras ao corpo consular: “Nada de vistos, eles que se amanhem.” Houve, contudo, um homem (entre outros, que felizmente a coragem e a retidão não são tão raras como isso) que resolveu dizer «não!». “Não!” às ordens injustas, “não!” aos regulamentos iníquos, “não!” às leis criminosas. “Recusar os vistos era superior às minhas forças!”, disse. Esse Homem foi Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus nesses anos negros. 

A coragem deste homem não se diz em milhares de palavras nem se conta em milhares de páginas. Milhares... foram milhares os vistos que, em poucos dias, Aristides de Sousa Mendes, trabalhando 24 horas por dia no seu gabinete, passou, à revelia do ditador, mas em consonância com o que de mais nobre a condição humana tem. Acabou julgado, condenado, demitido, reduzido à miséria, obrigado a pedir esmola para alimentar a família até morrer no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, em 1954. Como se pode ler na placa em sua homenagem que existe em Jerusalém, “quem salva um homem, salva a Humanidade inteira!”.

Foi este o valor da solidariedade, da nobreza e da retidão de caráter, face à iniquidade e ao desprezo pela condição humana. 

Do mesmo modo, este caso serve para nos interrogarmos: o que o fez “correr”? O sentido do dever moral, o sentido da ética, a ideia de que estava imbuído de uma missão divina? Nunca o saberemos. Mas agiu bem e arriscou muito. Sofreu pesadas consequências e só a democracia recuperou a sua memória e lhe reconheceu a coragem e a dignidade.

Coragem e dignidade. Duas características do comportamento humano e que são vistas como virtudes. Mas o que são? Como ensinamos os nossos filhos a serem corajosos e dignos? Será que desejamos que se estivessem em Bordéus, em 1940, no consulado português, se comportassem como Aristides de Sousa Mendes, mesmo sabendo que sofreriam consequências duras? 

Ser corajoso é não ter medo de tomar posições e de fazer opções segundo os critérios do que achamos certo ou errado e segundo a adequação ao ambiente, local, pessoas e contexto. É assumir as consequências dos atos, mas não deixar de os praticar por medo. É não deixar que outros assumam culpas que não são deles e que paguem pela nossa cobardia.

As crianças aprendem, frequentemente, que coragem equivale a atirar-se às cegas para a frente do perigo, vencer os outros, e que os mais corajosos são os heróis, os que não têm medo de nada. Está errado. As pessoas corajosas têm medo e devem tê-lo. As pessoas corajosas hesitam entre optar pela solução mais fácil ou transcender-se, com base nos factos, na lucidez e nos princípios e valores.

Coragem é enfrentar os medos, os papões, os lobos maus, sejam os do exterior, sejam os que existem dentro de nós. Coragem é tentar vencer o medo através de estratégias adequadas, inteligentes e prudentes, medindo os riscos e as consequências.

Deixo-vos com algumas questões:

Que tipo de atitudes podemos caracterizar nas crianças como sendo atitudes de coragem? A resposta será: vencer os receios, enfrentar ambientes que não dominam, avançar na defesa de amigos, de colegas em perigo, revelando solidariedade e empatia.

O que pode levar umas crianças a serem mais corajosas que outras? O temperamento, o ensino, a educação, a vivência e o exemplo dos pais. Dizer a uma criança “não tenhas medo!”, como por decreto, ou gozar com os medos dos outros é contraproducente e… indecente. É preciso reconhecer os medos, ter respeito por eles (e pela criança), descodificá-los, trabalhá-los e até teatralizá-los, para que só fiquem aqueles que são protetores e benéficos. Coragem é isso: vencer o medo e seguir em frente, mas não de forma cega e desorientada, e isto aprende-se desde o nascimento.

Coragem é, pois, em resumo, “a arte de vencer o medo” e de o fazer, por si e por empatia e solidariedade com os outros, evitando que ele tome conta de nós e nos paralise, tornando-se o seu próprio motor. Só os idiotas, os mentirosos ou os inconscientes é que não têm medo. As pessoas mentalmente saudáveis têm medo. Têm medos, no plural. Uns conscientes e racionais, os outros emocionais e instintivos. O segredo está, pois, em reconhecer o medo e vencê-lo, e não em negá-lo ou deixar que seja o medo a vencer-nos. Como Aristides.

 

P.S.: A propósito do surto epidémico de sarampo, já aqui escrevi uma vez sobre os pais que não querem vacinar os filhos. Apenas acrescento: era expetável que a “ciência de Facebook” desse nisto. Enquanto vingarem a ignorância, a arrogância de quem pensa que o mundo só existe desde que há internet e a estupidez de quem desdenha a argumentação lógica e científica, vivendo num mundo de pós-verdades e fake news, mais retrocessos civilizacionais destes acontecerão… é pena, mas nada que não fosse previsível!

 

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