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Livros Futebol sem Bola...

Livros Futebol sem Bola...

Afonso de Melo 16/04/2017 13:59

Muito se discutiu ao logo dos anos se o futebol e a literatura são compatíveis. Há autores para tudo: biografias, obras históricas, romances, poemas... Em português muitos escreveram sobre o jogo, de Carlos Drummond de Andrade a Manuel Alegre e Dinis Machado.

Quando Francisco José Viegas publicou, em 1991, um policial intitulado Morte no Estádio, na editora Difusão Cultural, o futebol não era, decididamente, assunto literário. Um futebolista famoso, ponta-de-lança do FC Porto, tinha sido assassinado frente a um bar irlandês, na Foz do Douro. Jaime Ramos e Filipe Castanheira seriam os detetives encarregues de deslindar o caso. Na altura, a ideia pareceu tão inédita que o autor teve direito a entrevista de página inteira num’A Bola ainda broadsheet. Aliás, era tão raro encontrar futebol na literatura portuguesa, que o saudoso Carlos Pinhão chegou a fazer questão de sublinhar na sua página de sábado todas as referências que encontrava ao jogo nos livros que ia lendo. Nessa entrevista, Francisco José Viegas concordava que o futebol era um tema muito pouco literário: «A literatura não se interessa pelas coisas comuns. Em Portugal há a tendência para se escrever sobre as complicadas paixões da alma de cada um». Alçada Baptista, por seu lado, dizia: «O futebol é demasiado novo. Por isso não se pode escrever sobre futebol».

O tempo passou, entretanto. As estantes das livrarias foram-se enchendo de títulos sobre o jogo que encanta o mundo. Uma breve consulta ao sítio da FNAC devolve-nos 150 itens sobre futebol. Crónicas, biografias (autorizadas e não autorizadas), autobiografias, a economia do futebol, as táticas do futebol, as manigâncias do futebol. Literatura ou não literatura? Há de todo o género. E não especialmente abundante. Basta recordar que, em Inglaterra, há meses em que surgem por volta de 200 livros sobre futebol – na sua maioria sobre jogadores e sobre clubes. E História. Nisso, os ingleses são únicos. 

Autores 

Há autores para os quais o futebol é um fascínio. António Lobo Antunes dedicou ao antigo guarda-redes do FC Porto, Barrigana, uma das suas crónicas mais bem humoradas; Vergílio Ferreira, em Em Nome da Terra, descreve o sonho do penálti de um personagem ao qual acabam de amputar uma perna; Manuel Alegre escreveu poemas para o Bentes, Eusébio e Luís Figo e publicou O Futebol e a Vida, crónicas que saíram em jornais durante o Euro-2004. Dinis Machado tem A Liberdade do Drible, José do Carmo Francisco Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo. 

Os exemplos são muitos. Os livros com futebol como tema começaram a surgir em Portugal nos anos-30. Fernando Peyroteo e Jesus Correia, dois dos Cinco Violinos do Sporting, escreveram a história das suas carreiras com a ajuda dos jornalistas Vítor Santos e Carlos Pinhão nos anos 50. O livro de Jesus Correia, Entre Dois Amores (o futebol e o hóquei em patins), chegou a fazer sucesso. Outro jornalista ilustre, Ricardo Ornellas, do Diário Popular, publicou Números e Nomes do Futebol Português, o primeiro trabalho feito em Portugal sobre a matéria. Cândido de Oliveira, jogador, treinador, selecionador nacional, apaixonado pela evolução das táticas, foi um escritor prolixo. Publicou ao longo dos anos 30 e 40: Amadorismo e Profissionalismo; Ao Serviço do Futebol Nacional – Viagem a Inglaterra; Futebol – Técnica e Táctica; Os Segredos do Futebol; A Evolução Táctica do Futebol. 

No Brasil, a crónica é rainha absoluta. Nelson Rodrigues, o mestre. Ruy de Carvalho juntou algumas das mais brilhantes nos fundamentais A Pátria em Chuteiras e ÀSombra das Chuteiras Imortais. Mário Filho, irmão de Nelson, o homem que deu nome ao Maracanã, também tem crónicas no Sapo de Arubinha, mas a sua grande obra é de uma profundidade social impressionante: ONegro no Futebol Brasileiro. Sérgio Rodrigues entrou pelos caminhos do romance com ODrible, a história de um velho jornalista desportivo que vive os últimos anos de vida tentando reencontrar-se com o filho através da lembrança de jogos e jogadores. Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik, é uma viagem ao jogo da bola através da psicologia e da estética. José Roberto Torero foi dos que escolheu a crónica:

Os Cabeças-de-Bagre Também Merecem o Paraíso, tão bem humorado como Nelson Motta ou Luís Fernando Veríssimo, autores que não dispensam o futebol.

O imenso Carlos Drummond de Andrade, homem da mais profunda língua portuguesa, deu-nos, em 1970, os poemas de Futebol a Arte e Quando éDia de Futebol. Ruy de Castro entrou no campo das biografias incontornáveis com Garrincha – A Estrela Solitária. 

A História

Há muitos autores que se recusam a separar o futebol da História do homem e do mundo. Nesse aspeto, há em Inglaterra uma bibliografia impressionante. How Soccer Explains The World – An Unlikely Theory of Globalization, de Franklin Foer, é de de um folgo impressionante. Tal como Giving The Game Away –Football, Politics and Culture on Five Continents, de Stephan Wagg que nos ajuda a perceber como os regimes usam o jogo para cativar as massas. Football Against the Enemy,  de Simon Kuper é um impressionante trabalho de pesquisa sobre a implantação do futebol em países como os Camarões, a Argentina ou o Zaíre, e explora a força com que determinadas derrotas no campo de jogo entram nas vicissitudes dos povos, um tema muito explorado por Nelson Rodrigues na sua teoria docomplexo vira-lata de um Brasil que não conseguia ser campeão do mundo. Simon Kuper é, aliás, um autor de mérito. O seu Ajax – The Dutch, The War, dá-nos uma visão dolorosa da posição escolhida pelos holandeses durante o período do nazismo. 

De ambição desmedida, é Soccer at War – 1939-45. Escrito por Jack Rollin, é muito provavelmente o mais robusto documento sobre o futebol na IIGrande Guerra. Tal como Football and Fascism, de Simon Martin, que fala da força do calcio na Era de Mussolini. 

Nesta corrente, há uma série de obras que não podem falta na biblioteca dos que gostam do futebol: Soccer – The Brazilian Way, de Alex Bellos; Dynamo – Triumph and Tragedy inNazi Occupied Kiev, de Andy Dougan; ou Football an The English, de Dave Russell. Leiam-nos. Vale absolutamente a pena.

Já não nos limitamos à Tribo doFutebol, de Desmond Morris. Nem em Portugal onde João Nuno Coelho (A Equipa de Todos Nós), Francisco Pinheiro (A Bola ao Ritmo de Fado e Samba) e RicardoSerrado (A História doFutebol Português) nos mostram que para lá do ramerrame do clubismo e das tricas arbitrais o macaco não vai completamente nu.

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