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Paula Rego. Um génio em nu integral

Paula Rego. Um génio em nu integral

Diana Tinoco Diogo Vaz Pinto 09/04/2017 14:35

Em 2014, Nick sentou-se com a mãe, então com 80 anos, e durante um período dois anos ouviu o que ela tinha para contar. Com isso, fez um filme. “Eram histórias que eu nunca tinha ouvido, que explicam muito da minha vida e da dela, de uma maneira que me fez entender várias das suas obras”, conta. “O meu filme não é sobre a artista, é sobre a pessoa”, sublinha. 

Feito pelo filho para a televisão britânica, “Paula Rego: Histórias & Segredos” extravasa e supera largamente aquilo a que nos habituaram os filmes encomendados como peças didáticas e simultaneamente laudatórias de artistas, e que geralmente apontam uma luz dulcificadora sobre o protagonista, servindo o duplo propósito de montar uma narrativa que encaixe as peças da sua vida em torno da arte que fez e homenageá-lo. Não foi isso o que fez Nick Willing. A admiração pela obra da mãe torna-se, de certo modo, incidental à medida que assistimos a este documentário de 90 minutos. Ele é, primeiro que tudo, um muito revelador filme biográfico, em que as personagens que nos apresenta adquirem aquela complexidade que repele qualquer juízo imediatista.

O poder desta narrativa constrói-se desse nervo exposto entre as histórias contadas e o véu retirado sobre antigos segredos, zonas sensíveis, e de algum modo somos compelidos a encarar o que vamos descobrindo pela perspetiva do filho mais novo de Paula Rego, o que nos faz vencer o embaraço e alcançar aquela compaixão que em vez de nos deixar na posição de juízes frios, causa identificação, e se torna libertadora. Como testemunho, se este filme é esclarecedor do percurso da artista, mais do que isso, é ainda parceiro desta. Há momentos duríssimos, e uma honestidade raramente praticada entre nós e que fere a pequena moral que ainda domina o meio cultural e artístico português.

Produzido pela BBC, o filme é uma descoberta e uma viagem, não apenas ao passado mas a um tempo íntimo que não se organiza segundo cronologias. Mais do que o retrato de Paula Rego, que hoje tem 82 anos e tinha 80 quando começou a recontar ao filho a sua vida, indo mais longe do que fora antes, daqui saem vivas muitas outras figuras. Desde logo o pai da pintora, que foi o seu grande cúmplice, muito mais do que a mãe, e depois o marido, o pintor Victor Willing (1928-1988), com quem viveu uma história de amor onde coube tudo, a começar pela paixão e admiração mútuas, mas que teve infidelidades, traições de parte a parte, um prenúncio conturbado e que não augurava nada de bom; mais velho sete anos, ele era casado, já era pai, exercia sobre Paula o fascínio de um pintor que começara a impor-se na cena artística londrina e contava, entre as suas relações, com a amizade de figuras como Francis Bacon. 

Os segredos e a intimidade desta família não se oferecem, contudo, a um efeito de devassa. Tornam-se valiosos para  penetrar mais fundo no universo arrebatador de uma pintora em que o encanto existe a par da perversidade. Encarado interiormente, logo se percebe o modo como esta arte vai além de uma reconfiguração fabulosa do mundo, mas esconjura demónios, é a língua desenvolvida por uma mulher que passou boa parte da sua vida numa espécie de mutismo, incapaz de expressar-se por palavras, enfrentar as ordens, tantas vezes injustas, odiosas, que foi ensinada a acatar.

O documentário não é, assim, um acontecimento exterior à obra da artista. Cuidadoso nos nexos que fixa entre a matéria biográfica e a artística, a sua perspetiva abre novas possibilidades e ângulos sobre a obra de Paula Rego. É ao mesmo tempo comovedora e instrutiva, a relação de extrema lealdade entre ela e o marido, que é o seu primeiro grande intérprete, alguém que compreendeu o alcance e a particularidade do seu génio. Alguém que a viu afirmar-se, ajudou a isso, enquanto ele mesmo definhava, tendo a voz, capaz de teorizar de forma espantosa, mas enfrentando um bloqueio terrível que duraria quase até ao fim, quando a esclerose múltipla ameaçava fazer dele um boneco. Há um poema de Victor que Paula lê, um poema escrito sobre as suas pinturas. Além do seu poder expressivo, este evidencia como a ligação entre os dois ia além do que é terreno. Ela sabe que ele percebeu tudo. Que ninguém irá tão longe.

“Ninguém percebe melhor o que eu faço do que o meu marido. O Vic era tão brilhante que eu tinha medo de falar ao pé dele. As saudades que eu sinto são muitas, muitas, nunca acabam”, diz ela. A tragédia da doença inspirou alguns dos quadros mais notáveis de Paula Rego. Candidamente registada no filme, a despedida entre os dois é tão forte e bela que, mais do que provocar lágrimas, as seca.  J

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