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“Vim para Lisboa porque queria conhecer a Amália”

“Vim para Lisboa porque queria conhecer a Amália”

Diana Tinoco 29/03/2017 14:50

Aos 87 anos, Isaura é a moradora que está há mais tempo na Rua da Bempostinha

Ao cimo da Rua da Bempostinha, existe um espaço singular: chama-se Logradouro e tal como o nome indica, é um género de sala de estar dos residentes da zona circundante.

No passado o espaço foi uma mercearia, centenária. Há cinco anos, quando Carla, designer, e Nuno, fotógrafo, se mudaram para o bairro, passavam por aquelas portas e sentiam que havia ali qualquer coisa. “Espreitávamos através do buraquinho da montra cá para dentro, até que um dia decidimos perguntar se estava para alugar”.

Desse primeiro passo nasceu um projeto que é um conjunto de coisas que o casal aprecia. Mete música, fotografia, ervas aromáticas e a comida tradicional e por isso acaba por ser uma mistura de serviços. Existe uma mercearia, onde se vendem ervas e legumes, e uma parte da agenda cultural, onde organizam exposições, os concertos e as performances.

A música que se ouve é toda em vinil e Carla descreve o Logradouro como “o prolongamento da nossa sala de estar lá de casa”. É precisamente por ser um espaço especial que toda a vizinhança o frequenta, dos mais idosos aos mais novos.

Logradouro, pela definição da palavra, explica Carla, quer dizer “espaço de usufruto” e, antigamente, a nível de espaço arquitetónico, correspondia ao interior dos prédios onde os vizinhos se juntavam para conversar e jogar às cartas. “É isso que proporcionamos aqui, um espaço de comunidade”.

Mal Carla termina a frase aparece Isaura, com passos de alguém a quem a idade não pesa, para dar um recado ao casal. “Esta é a Dona Isaura, é a moradora mais antiga da Bempostinha”, apresenta Carla com um braço à volta do ombro da senhora que, com imensa simpatia, conta um pouco da sua história. “Moro aqui há 60 anos, hoje já fui para a piscina, vou sempre nadar à beira do Panteão e sabe porquê? Porque assim estou ao lado da querida Amália”.

Isaura, de 87 anos, natural de Cinfães do Douro, tinha 18 anos quando veio até Lisboa movida pelo sonho de conhecer Amália Rodrigues. “O fado é muito importante para mim, consegui ir a casa dela e falei com ela, depois já nunca mais fui embora de Lisboa”.

Seis décadas numa rua dá para ver muita coisa. Isaura conta que quando chegou à Bempostinha, nada era como é hoje. “Não havia nada destes prédios, eram quintas. Havia uma queijaria, uma peixaria, o mercado, era tudo diferente”.

E do alto da sua idade e com espírito bairrista, vai desfiando a história da rua, que não é pouca. “Nesta casa da esquina vivia o General Spínola e vieram cá buscá-lo para a revolução. Eu estava nos Bombeiros a trabalhar num bar que eu lá tinha, nem sabia o que se estava a passar. Mas depois ouvi na rádio. Servi muitos almoços nesse dia”.

A anfitriã da Bempostinha lembra também com carinho algumas peripécias passadas na rua. “Uma vez gravaram aqui um filme e gritavam: ‘corta! corta!’. Era muito engraçado, soube mais tarde que sem querer apareci no filme” conta à gargalhada.

Quando se apaixonou pelo marido, já era nesta rua que morava. “Dizem que não existe amor à primeira vista mas há, que eu olhei para o meu marido e gostei logo dele”. O grande e único amor de Isaura desapareceu há 14 anos numa cirurgia ao coração. Hoje a fã incondicional de Amália diz que tudo o que tem são os seus vizinhos. E orgulhosa por fazer parte da freguesia de Arroios – “era a freguesia da Amália” – sente-se bem numa rua animada. “Gosto muito, há muitas coisas novas agora. Do que gosto mais é da vizinhança”.

Assim que ficou sozinha, a família que tem no Porto chamou-a para voltar ao Norte. “Eu ia lá deixar a minha casinha”, comenta. Com as lágrimas nos olhos, declama um fado de Amália. “Gosto muito da minha casinha, não invejo a de ninguém, apesar de pobrezinha, só na minha estou bem”.

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