24/7/19
 
 
“A Bempostinha é amor.” Nesta rua, o passado e o futuro estão apaixonados

“A Bempostinha é amor.” Nesta rua, o passado e o futuro estão apaixonados

29/03/2017 14:41

Há ruas especiais e a Bempostinha é uma delas. À primeira, não se dá um tostão por ela, com o tempo é amor na certa. O i ouviu as histórias dos antigos e recém-chegados que dão vida a esta artéria da freguesia de Arroios, em Lisboa

Passa das seis da manhã quando a luz começa a surgir na Rua da Bempostinha. É ainda horário de inverno – a hora mudaria dias mais tarde – e ouve-se pouco mais do que alguns pássaros. Às vezes, o papagaio da vizinha de um dos prédios, algures no bairro, acorda mais cedo mas, por norma, só há pequenos ruídos dentro das próprias casas, o ranger típico das que foram construídas nas décadas de 70 e 80 e que ainda estão a cair.

As gaiolinhas das marquises dão um ar envelhecido à rua que, lá para o meio, na subida, começa a afunilar. Quem sobe a Rua dos Anjos dá logo de caras com o largo em que nasce a Bempostinha. Este está bem sinalizado pela Embaixada de Itália e por uma loja de conveniência na esquina da Antero de Quental, mesmo em frente ao simpático Graça, que serve refeições económicas.

Quem passa pela primeira vez por esta rua, é normal que não a sinta com a intensidade merecida, é capaz de não dar um tostão por ela. Mas quem for atento e dispensar um bocadinho da sua curiosidade a este buraquinho da cidade, percebe que há algo de singular por estas bandas.

Está tudo bem disfarçado, a vizinhança é sossegada, não parece que ali se passe nada de especial. O movimento de carros é residual, normalmente só lá param os que ali vivem. Porém, quem for de olhar com mais cuidado, não tarda a ser sensível ao burburinho energético desta zona. Os novos e os mais velhos vivem em sintonia, a vida da rua depende dos que já estão nos seus ofícios há décadas e dos que ainda agora começaram.

Frente a frente De um lado da rua, estão os negócios antigos, as lojas e os serviços já respeitados na zona pelos anos que têm de serviço à comunidade. Do outro lado da rua, cria-se a um ritmo frenético: há artistas a pegar nos espaços vazios dos prédios velhos e a transformá-los em oficinas de criação, em lugares cheios de luz e cores. Espreita-se pelas janelas e há pincéis no chão, há mobílias arrojadas, há cervejas em cima das mesas. Um estúdio de música alternativo, ateliers de artes plásticas, de design, restauros de peças centenárias e até um logradouro que reúne a vizinhança para um convívio mais familiar.

Os Frangueiros Às seis da manhã, ainda só há movimento na tasquinha da “Dona Teresa”– como é conhecida – que abre tão cedo e fecha tão tarde. Ali se juntam os bempostinhos, dos mais velhos aos mais jovens, dos que bebem bagaço pela manhã aos que mal aguentam um café no estômago. Toda gente partilha um carinho especial por aquela que sempre recebe os seus clientes com um sorriso.

A proprietária do café Os Frangueiros sabe sempre o que se passa entre os que lá passam. “As pessoas gostam de desabafar”, diz Teresa, ainda que confesse nunca se meter nas “futricas dos vizinhos”. Quando tinha nove anos, veio sozinha de comboio desde Chaves até Lisboa. “Saí de lá no comboio às 10 da manhã e cheguei ao outro dia às 8h da manhã, eram daqueles comboios ‘pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra’”.

Diz não se lembrar do que sentiu quando chegou à capital, “já foi tudo há demasiados anos”. A vida em Chaves era muito má, mas o que mais lhe custou em Lisboa foi ficar isolada, fechada dentro de casa da senhora que era lá da terra e a quem veio servir. “Ela precisava de uma empregadita, mas era muito dura, dava-me porrada”.

Depois de muitos anos de uma vida dura e solitária, Teresa lá conseguiu sair da casa da conterrânea para se casar com “um rapazito que trabalhava na pastelaria em frente da minha janela, por quem me apaixonei”. Engravidou, casou e viveu anos sob um casamento violento. “Eu não tinha mesmo ninguém, estava cá sozinha, aguentei tudo. Se fosse hoje, já o tinha sacudido sei lá quantas vezes, sei lá”. Depois de muitos anos de sofrimento, com uma história digna de um livro, conseguiu dar a volta à vida e começou de novo na Bempostinha.

É difícil falar com a “dona Teresa” sem se ser interrompido. Um homem alto, aproxima-se do balcão e pede uma cerveja em português com sotaque de quem não nasceu em Portugal. Thomas, de 52 anos, é holandês. Está em Portugal há 25 anos e já está mais que enturmado com os que vivem e trabalham na rua da Bempostinha. “É cliente habitual” explica Teresa, “é ali do estúdio de música”.

Thomas paga a cerveja fresquinha, uma das especialidades do Os Frangueiros, e leva-a para o outro lado da rua. Foi lá que há três anos fez nascer um projeto único, a meias um amigo norte americano, John Klima, que conheceu numa noite de concertos em que músicos de diferentes estilos se juntavam para tocar juntos, numa noite aleatória em Lisboa.

ScratchBuilt, O Analógico ainda vive Chamam-lhe estúdio ScratchBuilt e, não fosse pelo movimento constante de entradas e saídas, passaria despercebido.

Quem entra, logo se depara com o cheiro a antigo, há maquinas enormes, dignas de museus e quanto mais se explora, mais história se encontra naquilo que mais parece o “the rabbit hole” da Alice no País das Maravilhas.

“Antes isto era só tralha acústica e uma sala mais ou menos funcional. Construímos tudo do nada, nós os dois” explica Thomas orgulhoso. “Vá, conta-lhes a tua história”, pede a John que, entretanto, de cigarro na mão, se senta num dos sofás da entrada.

“Para começar, eu sempre trabalhei na área da arte visual e fazia várias instalações de eletromecânica em museus e galerias um pouco por todo mundo”, conta o amigo. “Vivia em Nova Iorque, tinha um bom estúdio, mas o bairro de repente tornou-se cool e então fui expulso pela renda que de repente ficou estapafúrdia de tão cara.”

John estava pronto para ir embora da cidade, quando, num concerto, conheceu uma portuguesa. “Conheci uma rapariga portuguesa, vivemos uma pequena aventura e mais tarde ela escreveu a convidar-me para vir passar duas semanas a Portugal. Nunca mais fui embora”.

A rir-se, Thomas comenta “same old story” – também ele veio para Portugal à boleia do amor por uma portuguesa.

O estúdio, hoje com quatro sócios, tem como grande parte do seu equipamento aparelhos da indústria do cinema. “Era de um estúdio de cinema antigo conhecido por Nacional Filmes, na Calçada de Santana, que antes foi da empresa que, nos anos 50, devia ser o único estúdio de gravação em Lisboa”.

Thomas explica melhor o valor do que encontraram: “tudo isto é material de cinema de alta qualidade que estava abandonado, trancado em arrumos e foi convertido por nós para uso de gravação de som”.

Pelo caminho, o holandês vai apontando para as várias salas onde as mesas de mistura, monitores, computadores, cabos, pregos, parafusos, pincéis e demais ferramentas – e ainda gravadores, amplificadores, máquinas de reverberação, objetos decorativos, mil e um instrumentos musicais e tapetes coloridos – dão vida à criatividade de dezenas de artistas que ali produzem, ensaiam e criam música.

Pelo estúdio, que é também um autentico laboratório de som, passam artistas de várias estilos musicais, entre os dos quais da Infected Records, segundo contam. “Post punk, near silence, jazz, eletrónica, há um bocado de tudo, há muito talento a passar por aqui, estamos felizes com isto”, diz o nova-iorquino com um sorriso no rosto e razões para isso.

Técnicos de Máquinas reunidos, LDA. Já o dia está a terminar e ainda Rui está à volta nas máquinas de grande porte que, mesmo para quem está de fora da montra, metem respeito. Rui Vilela, de 47 anos, herdou a oficina do pai há dez. Também eles fazem parte do passado e presente da rua. “Isto está aberto ainda com um dos fundadores, o senhor Fernando, que tem 80 anos e ainda trabalha e está bastante ativo”.

Dedicados há 40 anos à produção de engrenagens, vão sobrevivendo do que ainda é possível negociar numa área em extinção em Portugal. Para Rui, o ambiente da rua é sossegado, “está a chegar gente nova, há uns prédios a serem renovados, há bom ambiente aqui”.

O negócio é que vai correndo mal. “Está complicado”, diz o ex-diretor de uma escola de condução, que viu na Bempostinha uma hipótese para mudar de vida que “não foi fácil” – o pai nunca o tinha “puxado” para este ofício. Mas o tempo passa e Rui não se sente arrependido da decisão. “São as voltas que a vida dá. Tenho aprendido muito e gosto do que que fazemos. Saem daqui peças mesmo muito engraçadas, em Portugal só há duas empresas a fazer disto, nós e uma no Porto”.

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×