28/4/17
 
 
Helena Ferro de Gouveia 20/03/2017
Helena Ferro De Gouveia
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Look me in the eyes, baby

Habituada a lidar com outros “homens fortes” convencidos de que poderiam intimidá-la, Angela Merkel tentou explicar ao homem mais poderoso do mundo que não pode passar sem a Europa e que o mundo será um lugar mais perigoso se os EUA caírem na tentação do isolacionismo

As imagens mais marcantes que retive da visita de Angela Merkel a Washington foram os olhares da chanceler. Entre o divertimento e o espanto, enquanto Ivanka Trump, sentada ao seu lado, explicava aos CEO de grandes empresas alemãs como é que se criavam empregos; de incredulidade, ao ouvir Donald Trump afirmar “at least we have something in common” referindo-se às escutas telefónicas – o telemóvel da chanceler foi espiado pela NSA, o que levou a uma crise diplomática em 2014 –; e de resignação, quase maternal, face à deselegância do presidente na Sala Oval ao recusar-lhe um aperto de mão.

Já toda a gente o disse, o escreveu ou o pensou: este presidente une impreparação a ignorância geopolítica e tem arrastado – intencionamente ? – a discussão para o deboche, o que nos deixa desesperados, enervados com tudo e finalmente desatentos aos projetos-leis que vêm sendo aprovados pelo Congresso (alguns com repercussões muito preocupantes do ponto de vista ambiental e social) e a uma clara estratégia de dividir para reinar.

Na Administração Bush, há pela primeira vez a ideia de que é melhor dividir os europeus, que é melhor ter uma Europa dividida e não unida. William Kristol (neoconservador e editor da revista “Weekly Standard”) fala das três mudanças: da dissuasão para a prevenção; do containment para a mudança de regime; do idealismo de Clinton para um internacionalismo especificamente americano. “Ora, o que era especificamente americano”, afirma Pierre Hassner, “o que era único na história dos impérios, era o facto da América, em vez de dividir para reinar, encorajar e ajudar a unidade europeia. Hoje, começam a comportar-se segundo a lógica eterna dos impérios: dividir para dominar. O risco desta estratégia – de jogar os novos contra os antigos, os pequenos contra os grandes – é que não funcione e que se transforme num incentivo a uma Europa antiamericana”.

Não terá sido por mero impulso que, decorridas menos de 24 horas sobre o encontro com Merkel, o presidente norte-americano tenha twittado que a Alemanha “deve vastas somas de dinheiro” à NATO e aos EUA. O facto alternativo do presidente, que além de pouco diplomático não tem sustentação – Trump ignora deliberadamente, entre outros, que tem 56 mil soldados estacionados em bases na Alemanha e cujas despesas de manutenção são em um terço suportadas pelos contribuintes germânicos – não ficou sem resposta. Poucas horas depois do post de Trump na rede social Twitter, a ministra alemã da Defesa, Ursula von der Leyen, disse que “não há nenhuma dívida à NATO”. A ministra da Defesa não foi a única a “explicar” ao presidente como funciona a NATO. O antigo embaixador dos EUA na NATO, Ivo Daalder, expôs os erros de interpretação do presidente numa série de tweets. O diplomata diz que “não é assim que as coisas funcionam”, explicando que cada país decide quanto paga, sendo que está acordado que o objectivo é que contribuam com 2% do PIB.

Daalder lembra ainda que a Alemanha não deve nada aos EUA, porque o financiamento à NATO não é um financiamento aos Estados Unidos e cada contribuição que os países fazem não é para a segurança própria, mas para o bem comum. “Combatemos duas Guerras Mundiais na Europa e uma Guerra Fria. Manter a Europa inteira, livre e em paz é vital para os interesses dos EUA”.

Mais experiente e paciente o que o ocupante da Casa Branca, habituada a lidar com outros “homens fortes” convencidos de que poderiam intimidá-la, Angela Merkel tentou fazer entender ao homem mais poderoso do mundo que não pode passar sem a Europa e que o mundo é um lugar infinitamente mais perigoso se os Estados Unidos caírem na tentação do isolacionalismo.

Apesar da aversão histórica dos norte-americanos ao equilíbrio de poder – durante a maior parte da sua história os Estados Unidos não conheceram qualquer ameaça estrangeira à sua sobrevivência e durante décadas na ordem mundial pós-guerra fria se julgaram invulneráveis –, a segurança norte-americana depende da capacidade dos seus líderes de fazerem escolhas que reflitam a realidade contemporânea. Num caminho para a uma nova ordem mundial a Europa continua a ser tão essencial como sempre, e nela a Alemanha ainda mais.

Habitualmente quando os líderes americanos e alemães se encontram, a Human Rights Watch envia aos dois países aliados um dossiê de tópicos sensíveis que gostaria de ver abordados durante os trabalhos. Desta vez a ONG apenas se dirigiu a Angela Merkel para que esta tentasse sensibilizar Donald Trump em questões basilares de direitos humanos que vão desde Guantanamo à necessidade de acolher refugiados.

A chanceler, serena, recusa o título de líder do mundo livre, mas daqui a alguns anos, quando estudarmos este momento irracional da política norte-americana conduzida por um D. Quixote sem fidalguia nem sonho, recordaremos os olhares de Angela e porque que eles têm a ver com a liberdade.

Escreve à segunda-feira

 

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