24/7/17
 
 
António Galamba 16/03/2017
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Não havia Necessidades?

Espantoso é que deixem o Núncio nos cornos do touro, sem outros que assumam responsabilidades políticas pelo sucedido

É dos livros que a culpa tende a morrer solteira ou, a haver alguém que arque com as responsabilidades, no limite, são os contribuintes, como se prova pelos desmandos do sistema bancário. A direita exerceu o poder durante quatro anos, com infinita autoridade moral, soberba e ânsia de converter um programa de ajustamento económico numa marca do que devia ser uma governação fustigadora de quem viveu acima das possibilidades. Uma perigosa interseção entre as circunstâncias e profunda convicção política.

Nessa vertigem além da troika e do memorando, enxameou o país de medidas com algum rationale e de muitos exageros, com o argumento do único caminho possível para a obtenção de resultados para uma saída limpa do programa. A limpeza da festa não impediu que o limiar da pobreza fosse vivido por muitos, a dívida pública continuasse a aumentar, o défice fosse uma ficção em que os desmandos bancários não eram tidos em conta e os ganhos fossem tão frágeis que nem o teste do algodão aguentavam. Não, não enganavam. Boa parte, a da narrativa do governo e da conveniência de Bruxelas, foi uma ficção.

Como é possível que, enquanto fustigava os comuns contribuintes com exigência e cortes cegos, o antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, não tenha tido redobrados cuidados éticos e de ação quando tinha sido advogado da petrolífera venezuelana PDVSA, responsável por uma boa parte dos 7,8 mil milhões que saíram do Banco Espírito Santo (BES) para o Panamá?

Como é possível que o fiscalista mago da execução da austeridade tenha tido como currículo prévio a participação numa empresa que criou 120 novas sociedades na Zona Franca da Madeira entre 1997 e 2007? De futuro, raposa num galinheiro, por omissão ou por ação, pode ser designada como uma espécie de nunciatura financeira. Dado que núncio pode ser também aquele que anuncia, o anunciador, o mensageiro e o precursor.

Há um momento em que a ação se converte em areia na engrenagem da conversa de quatro anos. Este é mais um dos momentos de uma oposição anémica, desnorteada e incapaz de virar a página, no tom e na iniciativa. Espantoso é que deixem o Núncio nos cornos do touro, sem outros que assumam responsabilidades políticas pelo sucedido. Então não era público que Paulo Portas fazia reuniões de coordenação nas Necessidades com os membros do governo que eram originários do CDS--PP? Os governantes do partido dos contribuintes não avaliaram a delicadeza política da questão? Como dizia o outro: “Não havia Necessidades!” E, no entanto, Paulo Portas coordenava os seus e até tinha uma subsecretária de Estado para a execução da coordenação diária.

Há um momento em que a conversa não bate certo com a ação. É como ir buscar o diabolizado ministro da Saúde de Passos Coelho para a liderança da Caixa Geral de Depósitos, para fazer o que fez no governo PSD/CDS: cortar sem olhar. Não foi pela existência de balcões por esse Portugal afora que a Caixa se abalançou para o descalabro da gestão que os contribuintes vão, uma vez mais, ser chamados a suprir. Foi pela irresponsabilidade das opções de gestão. Não foram nem os bancários nem os contribuintes. É inaceitável que se criem dependências na vida quotidiana dos cidadãos e, de um momento para o outro, o serviço público bancário possa dizer que há uma parte do país que não interessa, em que os balcões podem fechar. Isto é, por um lado proclamou-se o fim da austeridade, até se virou a página, mas na Caixa há uma fotocópia dos cortes cegos. Não me venham com conversas: há uma incompatibilidade entre fechar 25% dos balcões até 2020 e a intenção governativa de valorização do interior. É a mesma linha da extinção de freguesias, de encerramento de serviços públicos, dos cortes nos transportes de doentes ou da degradação do serviço público postal. O “ninguém peça à Caixa para ficar em todos os sítios onde os outros não querem ficar” proclamado por Paulo Macedo é toda uma atitude de desresponsabilização para com uma parte do país. De pouco interessam as pessoas, as condições de mobilidade e as distâncias. É, uma vez mais, o triunfo da folha de excel. Forte com os fracos, fraca com os fortes.

Um Estado não se pode permitir tal atitude: abdicar de parte da população e do correspondente território.

Notas finais

Necessidades primárias. O elogio de António Costa à gestão autárquica do PCP, no último debate quinzenal, para além de não corresponder à realidade, é um inacreditável desprezo político pelo combate travado pelo PS e pelos socialistas em municípios geridos pelos comunistas. Não são de estranhar, por isso, as opções de candidaturas em alguns desses territórios. Para a sobrevivência pessoal, que se lixe o resto. É poucochinho para projeto político.

Necessidades gerais. Algum senso. Os dados pessoais dos 230 mil utentes do Serviço Regional de Saúde dos Açores são expostos no site da ARS do Alentejo. As escutas de Obama a Trump, afinal, não o são. Podemos ser escutados e seguidos por muitos aparelhos tecnológicos. O primeiro-ministro turco, que não respeita quem pensa diferente, chama a outros antidemocráticos e nazis. Este foi igual a si próprio com quem pensou diferente, a Holanda não. Ganharam os radicais.

Necessidades estratégicas. Há uma contradição entre o abocanhar da governação e da oposição de Passos Coelho e a nomeação de companheiros do PSD para a Caixa Geral de Depósitos, a AICEP, a TAP ou o IAPMEI. Afinal, foram incompetentes e são competentes?

Necessidade de corrigir. No artigo da semana passada, referindo-me a Macron e ao seu programa económico, pretendia complementar que o candidato Benoît Hamon, recebido euforicamente em Portugal pela esquerda, está em quarto lugar nas sondagens, à beira de um colossal desastre. Em quarto, não há convergência que lhe permita ser presidente sem passar à segunda volta e sem ganhar.

 

 

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