23/8/17
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 15/03/2017
Eduardo Oliveira e Silva

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O julgamento do regime

Se, na sequência do caso Marquês, aparecer alguém com um programa político destinado a moralizar a sociedade e combater a corrupção, poderá não ser um populista mas apenas um cidadão preocupado com o futuro dos seus filhos e netos

As acusações que resultarem (seja dia 17 ou mais tarde) da investigação ao caso Marquês irão conduzir ao julgamento não apenas de pessoas poderosas culpadas, inocentes ou cuja responsabilidade não se possa provar, mas também ao de um regime político e económico em que temos vivido, caracterizado por uma enorme falta de transparência seja qual for o setor, apesar de o Estado ter supostos reguladores para tudo e mais alguma coisa.

O que vai estar em causa é a forma como gigantescas teias se desenvolveram e sedimentaram na sociedade portuguesa, crescendo e alargando-se de forma tentacular, chegando a todas as áreas da vida do país onde se podia “moscambilhar” através de arranjos, negócios, trocas de favores, esquemas variados e corrupção em grande escala, indo do roubo puro e simples à compra a pataco de empresas do Estado que rendiam dividendos e eram saudáveis.

O caso Marquês pode ser circunscrito a certas atividades mais especificas, mas ele foi um entre muitos, tanto em áreas públicas como privadas, como as obras públicas, a saúde, a banca, a relação com Angola e Brasil, os transportes, a justiça, a segurança, a energia, as autarquias, o ordenamento do território, o turismo, a agricultura, o ensino privado (superior ou não) e até a defesa, para citar apenas parte das atividades económicas onde se deu um verdadeiro regabofe. Houve de tudo em todo o lado com danos gravíssimos para o português médio que, não sendo um santo em seriedade e civismo, deve ter sido o cidadão da Europa que mais esbulhado foi. Isto num país que vai sendo relativamente seguro nas ruas mas que, em termos de criminalidade económica e política, está ao nível do pior que há no leste da Europa. Só não temos aquelas figuras sinistras com dentes de ouro que tão bem identificam os facínoras de lá.

Por cá foi mais o estilo gel, botão de punho e fato por medida. É esse panorama geral que vai estar subjacente ao processo a que a Operação Marquês deu origem, ironicamente instruído por um juiz que também pedia dinheiro emprestado a um amigo pouco recomendável. Nesta fase espera-se que se conheça o rol de acusações, seja já esta semana ou nas próximas. Mas é bom que não haja ilusões. A partir da acusação surgirão outras diligências, começando na instrução contraditória e acabando num processo longuíssimo, cheio de incidentes processuais e de recursos. A coisa vai durar dezenas de anos e isso irá beneficiar os culpados, alguns dos quais nunca irão passar um dia que seja na cadeia, enquanto inocentes ou não culpados verão os seus nomes arrastados pela lama e nunca disso recuperarão.

Seja como for, o que a Operação Marquês já mostrou que existe é um mundo de redes que funciona em prejuízo do cidadão e do país. Hoje, não há semana que não se saiba mais qualquer coisa de terrível que tanto pode ser a fuga de dinheiros para offshores facilitada por um secretário de Estado, ainda por cima fiscalista, como notícias sobre mais uma incúria do Banco de Portugal e do inacreditável Vieira da Silva ou do seu antecessor, Mota Soares, que nunca nada disseram ou viram do muito que se passou no Montepio, onde têm responsabilidades de tutela direta, e de que fomos falando neste espaço várias vezes, à medida que se sucediam factos preocupantes.

E tudo se passa e se sabe a um ritmo impressionante. Tão impressionante como a forma como as coisas desaparecem do topo da atualidade, como a história nunca fechada da compra de submarinos ou de uns tais carros blindados Panduru envolvidos numa polémica com uma empresa que, note-se, tinha como advogado um tal fiscalista que chegou a secretário de Estado que, por acaso, até achou que divulgar transferências para paraísos fiscais eventualmente ilícitas poderia beneficiar os infratores, sendo um deles uma empresa sua cliente oriunda de um país modelo de seriedade, nada mais que a Venezuela!

Se, um dia destes, alguém pegar na soma destes casos e os transformar numa cruzada política e num combate moral contra o atual estado do país, ninguém poderá dizer que se trata de um populista. O mais certo é ser apenas e tão-só um cidadão sério, farto, desesperado e determinado a defender o futuro dos seus filhos e netos. E que ninguém se admire se tiver muitos seguidores.

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