22/11/17
 
 
Gael García Bernal. “O Pablo Neruda é o nosso Fernando Pessoa”

Gael García Bernal. “O Pablo Neruda é o nosso Fernando Pessoa”

Shutterstock Paulo Portugal em Cannes 14/03/2017 23:31

É o “polícia” de Pablo Neruda, na nova colaboração com Pablo Larraín, precisamente intitulada “Neruda”, que chega agora às salas

O filme sobre Neruda aparece nas salas portuguesas depois da estreia de “Jackie”, o filme que o cineasta chileno fez a seguir e que foi destacado na recente cerimónia dos Óscares. Ainda antes de vestir a capa de Zorro, Bernal acompanha-nos numa viagem ao poder da palavra poética como o acordar dos idealismos políticos que moldaram a primeira parte do século xx. Só hoje é que acha que a política é desprovida de poesia. E quando fala de literatura, de poesia, convida o nome de Pessoa para o situar nesse Olimpo. E não apenas por saber que falava com um português...

Hoje em dia, a poesia já não vende muito. Pelo menos, já não vende o que vendia no início do século xx. Mas neste filme percebe-se a sua força... Gael é um entusiasta da poesia?

Explicar a importância da poesia de uma forma sucinta é algo muito pouco poético. A poesia está lá para estabelecer a dark matter. Todos concordamos no poder das palavras e na sua musicalidade, algo que é ditado pelas estrelas e pelos fãs. As palavras são uma bela equação do universo. Nós relacionamo-nos com elas. E a poesia é algo que está lá para contrariar o racional a fim de nos dar essa outra leitura. É por isso que a poesia será sempre relevante. Hoje, que estamos a tentar encontrar novas respostas no universo, em muitas questões, acho que precisamos de mais poesia para encontrar balanço entre essas emoções. E não quero dizer que seja a poesia, basta a arte. Estamos num momento interessante do mundo. 

Acha que a poesia pode ser um poder?

Neruda escreveu vários poemas de amor, mas os seus poemas de amor incluíam sempre política. Só hoje é que a política não inclui a poesia, a arte. Deu as palavras para que as pessoas pudessem contar os seus sonhos perdidos e as questões complexas para uma esperança coletiva. 

Pode estar na melhor fase da sua vida e carreira? Com um filme aqui em Cannes, tem a sua família, tem sucesso nos EUA. A sua vida adquiriu uma maior estabilidade do que há dez anos atrás, quando ainda tinha de se provar e impor, mesmo para si próprio?

Não penso muito nesses termos. Há pessoas que o fazem, mas eu não penso em termos de carreira. Até porque pensamos que o melhor ainda está para vir. Eu vivo no futuro; nesse sentido, sou bastante existencialista. Espero sempre o melhor. Mas estou a apreciar o momento. Mais agora do que há dez, 15 anos atrás. Claro que nessa altura já gozava o momento, mas talvez ainda não soubesse como o definir.

Tem liberdade para fazer muitas coisas em termos de carreira?

Defina lá o que quer dizer por liberdade? Talvez possamos começar por aí. É isso que procuro. Eu não quero ser apenas um ator ou realizador. Em todo o caso, sinto--me bem por o meu trabalho ser o de ator. Gosto muito do meu trabalho e tenho muitos ideais e carinho pelos meus colegas atores. Pode até ser um pouco superficial, como em muitos empregos, mas também é muito profundo na compreensão de arquétipos [da vida]. 

Acha que tem agora um maior controlo sobre a sua carreira? Ou é algo que não lhe interessa muito?

Nunca me senti pressionado para fazer algo ou para não fazer. Claro que eu tomo as minhas decisões - por vezes são boas, por vezes nem tanto (risos)...

Gael faz parte de um grupo de atores e realizadores latino-americanos que estão a fazer algum futuro nos EUA. Isso é algo que o orgulha?

Sim, sim, estou muito orgulhoso pelo sucesso dos meus colegas mexicanos. Aliás, vamos conquistar o mundo... (risos). Acho que até que não precisamos de ter prémios de cinema, pois isso acontece mesmo nos Óscares (em 2016, Alejandro Iñárritu conquistara o Óscar de Melhor Realizador com “The Revenant - O Renascido”). 

Sim, poupam dinheiro com isso... (risos)

Claro. Até porque eles têm um show bem melhor e mais pessoas o veem. 

Sempre é verdade que vai fazer Zorro?

Sim, vou fazer o El Zorro, el zorrillo... (risos). Mas ainda não sei quando vai acontecer e como será o guião. Mas vai ser feito também com a família, o Jonás Cuarón (filho de Alfonso Cuarón). Neste caso, é mesmo família porque vi o Jonás crescer. Fizemos até um filme para a sua educação sexual, mas ele não aprendeu muito... (risos)

(Risos) Como se relaciona com a personagem de Zorro? Diria que é o oposto de Oscar (Peluchonneau)...

Sim, claro, ele usa uma máscara (risos). Para ser franco, não pensei muito nele, pois é um work in progress. Para já, não há nenhuma ligação emocional à personagem.

Tem uma vida diferente quando trabalha nos EUA do que, por exemplo, no México? Usa máscaras diferentes?

Sim, foi por isso que quis ser ator. Dá-me oportunidade de preencher este tipo de energias diferentes. Pensar que podemos fazer tudo, mas ao mesmo tempo perceber que não podemos. É muito libertador.

A verdade é que começou muito cedo...

Sim, comecei verdadeiramente com “Amor Cão” (2000).

Fale-me mais da personagem do polícia Oscar Peluchonneau. O que o levou a aceitar? 

Aceitei fazer o filme porque era ele. É claro que sabia há muito tempo do projeto do Pablo, porque somos amigos. Um dia, ele ligou-me e, com uma voz muito profissional, disse: “Vamos agora falar de trabalho.” Disse-me que queria fazer este filme sobre o Neruda, algo que já sabia há algum tempo, por isso, quando sugeriu o papel do polícia, aceitei logo. No fundo, é a continuação de uma relação que já tem algum tempo. Há um tipo de ideias que partilhamos na construção das personagens. Aliás, não sou só eu, quase todos neste filme trabalharam com o Pablo, talvez com a exceção da Mercedes Morán. Ele conhece-nos e conhece o nosso trabalho ao ponto da exaustão. 

O que significa, para si em particular, Pablo Neruda?

Ao crescer num país de língua espanhola, acabamos por chegar ao Neruda depois de passarmos por Ruben Darío. Primeiro com o Século de Ouro em Espanha, seguido de Ruben Darío e dos modernistas e, depois, de todos os poetas fantásticos do séc. xx. Depois chegamos a Neruda. Talvez todos concordemos, o Neruda é o maior poeta do mundo, não? Poetas no século xx, talvez não haja outro. Você é português, não é? É claro que tivemos também Fernando Pessoa, um outro gigante. Nesse sentido, o Pablo Neruda é o nosso Fernando Pessoa. “Não sou nada, nunca serei nada. Não posso querer ser nada...” 

Muito bem...

Pessoa é Pessoa. Mas Neruda toda a gente conhece, talvez mais do que Pessoa. Mesmo aqueles que não o leram. Neruda é um poeta que fez parte de um grupo que construiu a poesia do séc. xx.

Mais politizado, seguramente.

Claro. São os poetas do pós-guerra, mesmo da Guerra Civil Espanhola, construíram uma identidade, especialmente na América Latina, num período de pós-colonização. Nesse sentido, é um pilar da nossa identidade. Era um membro do Partido Comunista e transmitiu a emoção com que Salvador Allende alcançou o poder. O Chile foi talvez o único lugar onde um governo comunista foi eleito. É preciso também ser um poeta para o fazer. Ele enchia estádios com pessoas para o ouvir. Porque é isso relevante? Os seus poemas são muito intelectuais, mas o que o poeta faz é defender as ambiguidades e contrariedades da alma humana. No fundo, defende a liberdade, a liberdade de nos encontrarmos, de errarmos, da aventura. Por isso, ele significa tudo isso. Mas agora, depois de fazer o filme, encontro uma nova ressonância. Talvez as pessoas, ao verem o filme, possam encontrar uma nova razão para a poesia. Isso aconteceu comigo, apesar de não ser um grande leitor de poesia.

No entanto, Neruda não era apenas um poeta, mas também, e sobretudo, um homem político.

O Shakespeare também era um político. O Freud disse várias vezes, a propósito das suas teses, que os poetas chegaram lá primeiro. Há algo científico também na poesia. O Carl Sagan regressa à poesia para explicar o que descobriu. A poesia e a arte são muito políticas. A política é que hoje em dia é desprovida de arte. Nessa altura, era necessário construir nações. É claro que isso aconteceu um pouco por todo o lado. Em França tivemos André Malraux, Louis Aragon, Paul Éluard; no México, Octavio Paz, Frida Kahlo, Diego Rivera... 

Acha que hoje ainda há espaço para surgir um Pablo Neruda?

Essa é a pergunta aberta. Acho que poderia voltar a existir hoje em dia. Um deles é Roberto Mujica, no Uruguai, que incluiu a ambiguidade e o potencial de um horizonte, o outro é o subcomandante Marcos, de Chiapas (porta-voz do movimento zapatista). Há ainda outros, não sei se conhece, mas existe o movimento de um poeta no México intitulado Movimiento por la Paz com Justicia y Dignidad, de Javier Sicilia, um movimento político incrível que é conduzido por um poeta, um poeta que enche praças. Isso dá-me alguma esperança. 

O Gael chegou a escrever poemas na sua juventude?

Sim, mas não para ser poeta. Só para impressionar as raparigas... (risos)

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