24/11/17
 
 
João Lemos Esteves 14/03/2017
João Lemos Esteves

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Autárquicas: fim do passismo ou fim do PSD?

Adiar sucessivamente a escolha do candidato a Lisboa, revelando um certo medo de decisão face às estruturas locais do partido, enfraqueceu objetivamente a liderança de Pedro Passos Coelho

1. O PSD – a história bem o demonstra – é um partido político singular. Singular, porque é o partido mais português de Portugal, com todos os méritos e os deméritos dessa portugalidade inata. Singular, porque consente (e até promove) uma pluralidade interna de ideias, de visões sobre questões políticas essenciais e de até de históricos pessoais bizarros (quantos partidos de centro-direita por esse mundo fora se orgulham de ter, pelo menos, dois militantes com reconhecido peso político vindos das fileiras comunistas?). Singular, porque é mais um partido pragmático por natureza do que um partido de ideologia assumida. 

2. Se estas três dimensões da singularidade do PSD foram (e são) a sua força e justificaram a sua afirmação no quadro do sistema político-partidário português, a verdade é que, em períodos mais turbulentos, a diversidade transforma-se em conflitualidade. A unidade de ação dá lugar à disparidade de interesses. E aí o PSD fragmenta-se em “micro-PSDs”, mini-PSDs, em que cada grupo luta para sobreviver. Por esta razão, os intervalos de poder são tão traumáticos para o PSD – sem uma liderança forte, sem um objetivo claro que seja o “betão armado” (expressão muito em voga) dos vários grupos, estes inquietam-se. O PSD heterogéneo cede ao PSD dividido. 

3. Pois bem, o período que vivemos é mais um episódio de uma saga que os portugueses têm acompanhado nas últimas décadas: o PSD deixa de liderar o governo e entra em tumulto interno. Alguns lembraram-se que são “sociais--democratas puros”. São “sociais-democratas” bacteriologicamente puros, sem desvios “neocapitalistas”. 
Outros preferem alinhar no apoio, mais ou menos discreto, a António Costa, apelando a uma intervenção salvífica de Marcelo. Daí a interrogação de muitos portugueses sobre o paradeiro do PSD – uma parte importante do partido parece que deixou de pensar em Portugal, passando a gerir as respetivas agendas pessoais. Quanto mais tempo António Costa se aguentar no poder, mais intenso será o conflito interno no PSD. 

4. E atenção: as posições dos vários grupos que coexistem no PSD poderão extremar-se como nunca na história do partido. É que Passos Coelho e seus apoiantes irão sempre invocar que o partido, sob a sua égide, governou durante o período mais complexo da nossa democracia e, não obstante, logrou obter uma vitória clara nas urnas; o seu afastamento do poder deveu-se apenas a um “golpe” de António Costa e da extrema-esquerda. Por outro lado, pela primeira vez na história do PSD, não há nenhum sucessor de Passos Coelho evidente, o que poderá agravar ainda mais a luta interna entre os vários grupos. 

5. O que se imporia, neste quadro, a Passos Coelho? Uma liderança forte, assertiva, com método e ambição. Uma liderança suscetível de unir, apesar das diferenças de ideias e das divergências quanto a opções de fundo tomadas no passado recente. E que não se escondesse na decisão e anúncio das candidaturas autárquicas com maior peso político. Adiar sucessivamente a escolha do candidato a Lisboa, revelando um certo medo de decisão face às estruturas locais do partido, enfraqueceu objetivamente a liderança de Pedro Passos Coelho. 

Porque quem não é capaz de ter uma estratégia definida e ambiciosa para Lisboa não será capaz de ter uma estratégia definida e ambiciosa para Portugal – eis a conclusão do cidadão português médio. A escolha de Teresa Leal Coelho para a Câmara Municipal de Lisboa é um sinal de que Passos Coelho quer fechar o partido a um grupo – excluindo todos os demais ou, pelo menos, não tendo a capacidade política de os abranger. 

6. Donde, face ao colapso do PSD na capital, é de esperar que os restantes grupos declarem guerra à atual direção. Respira-se um certo ambiente de pré-guerra civil no partido: oxalá não se concretize. 
Que todos os sociais-democratas estejam à altura do momento histórico (tão complexo e imprevisível!) em que vivemos. Acima do interesse pessoal de cada um está o interesse do PSD. E acima do interesse do PSD – e com ele relacionado, porque seu objetivo último de pensamento e de ação – está o bem-estar de Portugal e de todos os portugueses. 

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