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Sampaio lidou com a revolta dos amigos e da sua casa civil com nomeação de Santana

Sampaio lidou com a revolta dos amigos e da sua casa civil com nomeação de Santana

Diana Tinoco Ana Sá Lopes 12/03/2017 12:05

Quando nomeou Santana, Sampaio teve que lidar com uma «quase revolta» em Belém. «Estava quase toda a gente contra mim». O ex-PR assume que sofreu com o afastamento de amigos.

O arranque do verão de 2004 foi uma tortura para o ex-Presidente Sampaio. Durão Barroso decide ir para a Comissão Europeia e exige que o seu substituto seja Pedro Santana Lopes. Jorge Sampaio tenta que o primeiro-ministro seja outro, mas sem sucesso. «Tentei que a Ferreira Leite, que era a número dois do Governo, fosse primeira-ministra, telefonei-lhe mas disse que não. Como alternativa, falei com o Marques Mendes e com o Marcelo», afirma Jorge Sampaio no 2.º volume da biografia da autoria de José Pedro Castanheira, editada pela Porto Editora. 

O autor, que teve acesso ao arquivo pessoal do antigo Presidente da República, reproduz o estado de espírito de Sampaio na crise de 2004 na primeira pessoa. «Ninguém quis e fiquei com a criança nos braços e num beco sem saída, porque o dr. Barroso ia fazendo várias ameaças: que fazia disto uma crise, que ficava cá e ia disputar as eleições, etc. Estou convencidíssimo que ele tinha um compromisso com Santana e que estava tudo combinado entre eles – pelo menos tudo fez para que ele fosse o seu sucessor! Eu não tinha nenhuma animosidade ou desconfiança pessoal contra Santana, só achava que não possuía o arcaboiço necessário para a crise que se estava a viver».
Sampaio sofre, ouve meio mundo, oscila de posição, hesita, pensa durante um mês inteiro. E acaba a decidir dar posse a um novo Governo PSD/CDS liderado por Pedro Santana Lopes. 

A esquerda que tinha eleito Sampaio em 1996 explode de fúria. Escreve José Pedro Castanheira: «As ondas de choque provocadas na família do Presidente e no seu eleitorado não poupam o próprio corpo de conselheiros. ‘O ambiente ficou de cortar à faca, com quase toda a Casa Civil contra a decisão’, evoca Jorge Novais».

Sampaio: «Se houvesse ali uma votação perdia»

Sampaio percebe que tem quase todos os seus colaboradores contra si. Marca uma reunião com toda a Casa Civil. Relato do ex-Presidente: «Estive solitário na posição encontrada. Depois de ter percebido que estava tudo do outro lado, tive de lidar com uma quase revolta. Fiz uma reunião com a Casa Civil completa, no anfiteatro. O ambiente estava muito pesado e desagradável. Fiquei com a noção que estava quase toda a gente contra mim, que não me ‘perdoavam’; se houvesse ali uma votação, perdia. Parece que vejo a cara de todos... E disse-lhes no essencial: ‘Meus amigos sei que isto é muito controverso, quem quiser pode sair’. Sou muito pacífico, mas quando é preciso firmeza ela existe». 

Pela primeira vez, o Presidente não fala de improviso aos homens e mulheres que escolheu para a sua Casa Civil. Na biografia, José Pedro Castanheira reproduz o discurso escrito que Sampaio levou para a reunião com os assessores, onde acusa «falhas de disciplina» na Casa Civil. «O melindre da situação política que vamos atravessar até ao fim do mandato requer o maior rigor no nosso trabalho (...) Muito se jogará na relação desta casa com o exterior e a crise porque passámos mostrou , mais uma vez, preocupantes falhas de disciplina, bem reveladas em vários meios de comunicação», diz Sampaio, exigindo «lealdade» aos seus colaboradores e apontando a porta da rua «sem qualquer azedume» a «todos aqueles para quem esta situação tenha eventualmente trazido um insuperável desconforto pessoal, que não lhes permita manter a exigente solidariedade a que esta nova fase obriga». Aos que quiserem sair do seu gabinete, o Presidente pede «clareza e rapidez». Mas ninguém arredou pé. 

O afastamento dos amigos

António Franco, embaixador, marido de Ana Gomes, foi o primeiro chefe da Casa Civil de Jorge Sampaio. Na altura da crise Durão/Santana já não chefiava a equipa de Belém e estava à frente da Embaixada de Portugal em Brasília. 
A crítica mais violenta à decisão de Sampaio de nomear Santana Lopes vem precisamente de Ana Gomes, amiga da família Sampaio, à porta do Largo do Rato: «Acabei de receber um sms de um amigo que diz tudo: uma maioria, um governo e um Presidente. A direita conseguiu aquilo que há muito sonhava». Ana Gomes diz nunca ter imaginado que Sampaio pudesse tomar «uma decisão tão desastrada para a esquerda e para Portugal». 

De Brasília, o marido de Ana Gomes escreve uma carta a Sampaio: «Não lhe devo esconder a angústia, a perplexidade e até o dolorido sofrimento que a sua decisão me causaram (...) Restar-me-á saber lamber as feridas».
Sampaio fica dilacerado com a violência das críticas dos amigos. «Foi doloroso ouvir o que Ana Gomes disse à porta do Rato. Fui muito criticado : o que ouvi e sofri, da parte dos meus amigos de sempre! É por isso que digo que é impensável a intenção, que ainda hoje me é atribuída por algumas pessoas, de ter estado a preparar o terreno para o posterior regresso dos socialistas ao poder». 

Com Ferro Rodrigues, seu amigo e aliado desde o tempo do MES [Movimento da Esquerda Socialista, partido que existiu entre 1974 e 1981] as coisas foram trágicas. Ferro Rodrigues, atual presidente da Assembleia, considera a nomeação de Santana Lopes uma falta de confiança no PS e abandona a liderança. As relações nunca mais se recompuseram. Diz Sampaio na biografia: «Fiquei completamente surpreendido com a reação de Ferro Rodrigues. Era um bom amigo, sem dúvida, e não esperava aquilo. Acho que foi dramático e fiquei triste. Nunca mais falámos durante alguns anos, até termos trocado cartões pessoais aquando da morte do pai dele, que eu conhecia».

 Maria de Lourdes Pintasilgo, a antiga primeira-ministra e candidata à Presidência da República em 1986, morre subitamente, aos 74 anos, no dia seguinte a Jorge Sampaio nomear Santana Lopes, o que aconteceu a 9 de julho. 
Estratega da campanha de Maria de Lurdes Pintasilgo e amigo pessoal da ex-primeira-ministra, o socialista Alberto Martins está na Basílica da Estrela quando chega o Presidente da República. Alberto Martins sempre foi um amigo pessoal e político de Sampaio. O antigo ministro conta na biografia: «Quando vi o Jorge chegar afastei-me, até porque não me queria cruzar com ele. Eu estava em grande sofrimento, precisava de mais tempo e ele era a última pessoa que desejava encontrar naquela altura – mas ele foi ter comigo para me cumprimentar. Quando se me dirigiu cumprimentei-o com uma amargura fantástica e a amizade de sempre. Nunca falei com o Jorge sobre esta questão, que foi a mais dolorosa que tive com ele».

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