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Documentário. Uma luta que vale bem uma conversa

Documentário. Uma luta que vale bem uma conversa

Ana Antunes Nuno Ramos de Almeida 08/03/2017 12:15

A propósito do documentário “Red Brigade” e do Dia Internacional da Mulher, juntamos dez mulheres de sete países numa conversa 

Todas as grandes ideias começam por um acaso. Pode não ser verdade, mas é uma boa história. A luta das mulheres na Índia e as condições de opressão em que vivem têm condições e causas concretas, apesar de, ao contrário de Portugal, já terem tido mulheres a dirigir o país durante muitos anos, mas o documentário “Red Brigade” foi fruto de um acaso. Tiago Carrasco esteve num casamento na Índia e deu com notícias sobre estas duas dezenas de mulheres, da Red Brigade, no estado de Uttar Pradesh, que combatiam as violações e o assédio sexual. Quando voltou a Portugal falou da ideia ao João Pedro Fontes e ao Pedro Gancho. Contactar as ativistas foi mais difícil. Conseguido o email, a barreira da língua foi difícil de ultrapassar. Para grandes males, grandes remédios: foi numa loja de telemóveis de um indiano, no centro de Lisboa, que fizeram o primeiro contacto telefónico com as ativistas da Red Brigade na cidade de Lucknow e o homem da loja serviu de intérprete. Apoiados pela produtora Até ao Fim do Mundo, partiram para o terreno. Durante 30 dias gravaram as ações de Usha e das suas companheiras.
É muito perto da loja de telemóveis que um grupo de mulheres vê o documentário: Beant, Manpreet e Harmeet, da Índia; Saba, do Paquistão; Sangita, do Nepal; Sharmin e Nadjrana, do Bangladesh; Monique, da África do Sul; Marina, de Portugal; e Jéssica, do Luxemburgo. Estamos na sede da Associação Solidariedade Imigrante (SOLIM), uma organização política que se bate pelos direitos dos imigrantes, com 30 mil associados de 97 países.
O documentário é visto em silêncio, enquanto as crianças pequenas, que acompanham as mães, dormem. No ecrã, Usha lava, no chão de pedra, umas calças de ganga, enquanto conta que trabalhava na educação de crianças e que um dia um colega lhe pediu que o acompanhasse a casa porque se tinha esquecido do cheque para lhe pagar. Quando entrou na casa, foi atacada; pensou que era uma brincadeira, mas o homem começou a ficar violento. “Percebi que me estava a violar”, diz ela. A sorte é que estava de calças de ganga e deu-lhe um pontapé e escapou-se. Não foi violada, mas não conseguiu fugir à depressão. Ficou assim a ter tido a ideia de criar as Red Brigade, fazer das mulheres que foram atacadas gente com poder que não aceita ser vítima dos homens. As mulheres na sala continuam em silêncio, só interrompido pelos protestos das crianças. São uma hora e 21 minutos de imagens, muitas vezes duras, como quando, depois de uma manifestação das Red Brigade contra os casamentos com menores, assistimos a um casamento combinado em que a noiva e a mãe choram copiosamente. Há uma maior reação da plateia quando um assediador de uma rapariga é interrogado frente aos vizinhos, levando uns estalos, enquanto é obrigado a confessar o que fez perante toda a gente. Acabado o filme, as primeiras palavras são trocadas. Sanguita, do Nepal, abre a conversa dizendo que reconhece nos filmes algumas das situações que as mulheres do seu país vivem. Nomeadamente, as opiniões dos homens sobre elas, em que qualquer roupa ou saída à noite pode justificar ou ser atenuante para uma agressão. As indianas na sala estão de acordo e afirmam que grande parte do problema está na “mentalidade dos homens” e na educação de superioridade e impunidade que muitas vezes têm. Que há famílias, como a da maioria das mulheres presentes, em que os pais deram um tratamento com o mesmo grau de exigência intelectual e de ensino às mulheres. E que, nesse caso, o tratamento é bastante diferente do resto da sociedade. As mulheres do Bangladesh presentes sublinham a importância das famílias neste processo de libertação das mulheres. Uma das mais interventivas na conversa é originária do Punjabe, no Paquistão. Saba tem o cabelo cortado à ocidental, é muito assertiva e argumenta com convicção. Sublinha que a forma de vestir é importante na Ásia, mas não apenas lá, que a ideia de expressão de modéstia no vestir é um conceito religioso que também está presente no cristianismo. A luxemburguesa Jéssica pergunta-lhe diretamente se a forma como está vestida, de saia curta, pode justificar qualquer agressão de um homem. Saba diz que não, mas argumenta que deve haver um equilíbrio da forma como se é livre com os hábitos, tradições e cultura local. A conversa passa aos casamentos combinados. Várias das mulheres afirmam que esta tradição só é negativa se a mulher não puder recusar o noivo, porque, muitas vezes, nos seus países, o casamento serve como forma de juntar famílias, negócios e trabalhos. A liberdade parece ancorada também nesta possibilidade de as mulheres ganharem poder na sociedade. Fica na cabeça a última cena do documentário: durante uma festa, uma ativista das Red Brigade dança como se tivesse ganho uma nova liberdade ao conseguir opor-se àquilo que a oprime. 

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